Insaciável Netflix

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Insatiable - 2ª temporada

Controversa sátira da Netflix tenta apagar incêndios no segundo ano, mas a perda já é total

Henrique Haddefinir
21.10.2019
17h23

Quando estreou, ano passado, Insatiable (Insaciável) tinha enfrentado uma onda impressionante de rejeições precipitadas, que se tornaram depois rejeições qualificadas. Tendo passado por protestos e petições baseadas apenas no trailer, a série já chegou à Netflix com uma reputação ruim. Porém, após alguns episódios ficou claro que as críticas não eram infundadas. 

Se a premissa da garota do High School que é infeliz e miserável por ser gorda e é aceita ao se tornar magra já era discutível, o resultado final reiterou a negatividade. Incapaz de imprimir o que  pretendia na essência da série, a criadora Lauren Gussis ficou perdida numa temporada recheada de piadas de mau gosto, sátira indetectável e perigosas mensagens. Insatiable não conseguia compensar seus erros com os poucos acertos de atuação ou as poucas piadas não-ofensivas que surgiam para nosso alívio em um momento ou outro. Dado ao absurdo, a série parecia querer absorver o melhor da ironia e do sarcasmo, mas na hora de realocar essas coisas com o planejamento da temporada, não resistia a posicionamentos vazios e a incompetência textual, que se debatia para fazer humor de humilhação num momento em que não estamos mais dispostos a aceitar formas nocivas de se contar uma história. Insatiable acabou humilhada.

Os problemas de condução já tinham sido anunciados com trombetas estridentes. Lauren, a criadora, baseou a série num artigo do New York Times sobre um abastado treinador de candidatas a concursos de beleza. A fragilidade do argumento era tanta que uma lida na tal matéria revela quase nenhuma semelhança entre original e derivado. Junte isso ao fato de Lauren ter assumido a produção executiva principal da série Dexter justamente a partir do ano 5, quando as coisas por lá começaram a seguir por um caminho sem volta. O erro se repetiu em Insatiable... A série começou com a ideia da menina gorda que emagrece e se vinga, mas duas temporadas depois os roteiros não respeitam essa premissa e oferecem aos personagens situações que não acrescentam em nada e em alguns casos, atrapalham o que ficou estabelecido.

“Indigestable”

É difícil defender essa produção, é claro. Mas, é possível reconhecer parte de seus progressos. Se na primeira temporada a história de Patty (Debby Ryan) não demora a superar a vingança do High School para se tornar uma narrativa do absurdo; nesse segundo ano só lembramos de como tudo começou porque Patty fala em estar com fome a cada dois minutos. Fora isso, a narrativa se estabilizou nos conflitos dos concursos de beleza (os melhores, realmente) e com eles no centro dos acontecimentos, fica difícil retornarmos ao plot original. Talvez por saberem disso, os responsáveis pararam de lutar contra a correnteza e foram abraçando essa dinâmica. Palcos, vestidos, concursos, intimidações, crimes... Tudo que esperamos de uma novela teen que passaria na parte da tarde da TV.

A questão é que Lauren escolheu o crime como travessia definitiva da série para o campo do absurdo e se a personagem de Debby já não era nada carismática antes, quando vira uma assassina ultrapassa as últimas fronteiras e se torna só hipócrita. Com a dificuldade tão grande de revelar a ironia e o sarcasmo das cenas, em muitos momentos além de hipócrita, Patty e seus parceiros de cena também soam ridículos. Enquanto em produções como Glee a ironia e o humor de insultos parecem críticas veladas saídas das bocas de alienados, em Insatiable tudo parece uma confirmação e não um contraponto. O roteiro quer que nos identifiquemos com Patty, mas quando ela começa a matar “por causa de seus problemas”, ela só soa mais irritante e idiota. É impossível compreender seus motivos para a verdadeira chacina que promove, enquanto para o roteiro é muito legal que uma miss tenha se transformado numa quase serial killer. Aliás, Lauren não sabia falar de serial-killers e tampouco sabe falar sobre conflitos humanos reais. Era para ser uma sátira sobre a doença das competições estéticas, mas lá está a o roteiro romantizando o evento no último momento. Essa é uma série que não sabe o que quer.

A segunda temporada correu atrás de corrigir algumas coisas hediondas da temporada anterior. Já vemos Patty admitindo que perder peso não a transformou numa pessoa melhor, mas logo em seguida, só de pensar em engordar, ela já começa o processo de gordofobia para a qual foi construída. O triangulo amoroso entre os Bobs (Dallas Roberts e Christopher Gorhan) e Coralee (Alyssa Milano) – uma das poucas dinâmicas promissoras da série – se estica até o insuportável e depois fica frouxo como um elástico velho. E ainda não se retrata pela homofobia latente de Bob Armstrong, que foge loucamente da palavra “gay”. No quesito diversidade ela também corre atrás do tempo perdido, destacando o crescimento de atores e personagens que tenham essa responsabilidade. Contudo, mesmo com dois episódios a menos, os coadjuvantes permanecem estridentes e o mistério estabelecido enfrenta uma quantidade imensa de arestas desnecessárias e que impedem a fluidez da narrativa.

Enfim, ainda que a audiência de Insatiable tenha sido muito boa na primeira temporada, um cancelamento foi esperado... e não veio. 13 Reasons Why, que também causou repulsa em alguns, acabou chegando até o ano 4 (que está por vir). No Season Finale a última fronteira é atravessada, a expectativa aumenta, mas as previsões não são otimistas. Insatiable não tem nada de suculenta e não dá muita vontade de ir para o próximo pedaço.

Nota do Crítico
Ruim