Robert Finster em Freud, da Netflix

Créditos da imagem: Freud/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Freud - 1ª Temporada

Série da Netflix combina Sherlock Holmes e Hannibal em trama sobre o pai da psicanálise na caça de um serial killer

Arthur Eloi
25.03.2020
19h05
Atualizada em
27.03.2020
18h19
Atualizada em 27.03.2020 às 18h19

Após décadas de biografias no cinema e na TV, os produtores que querem usar figuras históricas precisam encontrar novas abordagens para não cair na mesmice. Alguns vão para lados mais experimentais, como Rocketman, enquanto outros abraçam o absurdo para criar algo original em cima de uma personalidade histórica, ao ponto de que relatar sua vida deixa de ser um objetivo. Freud, série austro-alemã da Netflix, definitivamente se encaixa nesta segunda categoria.

Na trama, o doutor Sigmund Freud (Robert Finster), aos 30 anos de idade e recém-formado da Universidade de Viena, briga com seus mestres em defesa de uma nova abordagem à psiquiatria. Quando é envolvido por acidente em um estranho caso de homicídio, Freud vê a oportunidade de testar e provar seus métodos. A frase “Jovem Freud caça serial killer” traz à mente algo na pegada de Sherlock Holmes, retratando o pai da psicanálise como um mestre da dedução. Não é uma imagem errada, já que é sim um suspense policial, mas também é muito mais estranho do que isso.

Dentre as várias obras policiais, Freud se alinha mais com Hannibal do que com os romances de Arthur Conan Doyle. Desde o primeiro momento há a forte presença de elementos de horror e violência gráfica, com o protagonista desmascarando todo um submundo cultista, conectado à nobreza húngara. A narrativa é muito mais complexa do que um simples jogo de gato-e-rato, envolvendo traumas de guerra, memórias reprimidas, ameaças de golpes de estado, vício em drogas e muito mais. No meio desse turbilhão de abordagens, é Freud quem se perde. Apesar de ceder seu nome, o doutor é o aspecto menos explorado do programa, que dá mais destaque à sua paciente, Fleur Salomé (Ella Rumpf), e também ao militar Alfred Kiss (Georg Friedrich). Não que o personagem não tenha presença ou seja apagado, mas sua função na série é mais para dar contexto do que para servir à trama.

Em diversos momentos a aura sombria é elevada ao campo do terror, como em uma cena envolvendo um ritual banhado à sangue que poderia facilmente ter saído do remake de Suspiria (2018). Mesmo assim não é um seriado sobrenatural, mas repleto de metáforas visuais para a exploração da psique humana. Os conceitos estudados por Freud já foram base para muitas obras, de filmes como Cisne Negro (2010), até jogos como Silent Hill 2. Porém, na época em que o programa da Netflix se passa, a psicanálise dava seus primeiros passos, e a mente humana ainda era repleta de mistérios e comportamentos desconhecidos. Ao representar esse árduo processo de estudo e descoberta pela ótica do horror e da incerteza da novidade, a série evita de cair no clichê e entrega algo bastante original.

Freud é um pouco desconjuntada em tom e narrativa, mas funciona como experimento em como trabalhar a vida e obra de uma personalidade histórica em um novo contexto. Há bons momentos de suspense, terror e a intensa atuação de Ella Rumpf como Fleur para compensar os curiosos que conseguirem perdoar as frequentes embaralhadas e liberdades criativas da trama.

Nota do Crítico
Bom