Mae Martin e Charlotte Ritchie em Feel Good

Créditos da imagem: Feel Good/Netflix/Reprodução

Netflix

Crítica

Feel Good - 1ª temporada

Apesar de brutalmente honesta e reflexiva, dramédia encanta com fofa história de amor

Mariana Canhisares
24.03.2020
11h15

Não se engane pelo adorável início de Feel Good. A série estrelada pela comediante canadense Mae Martin definitivamente não é um simples romance água com açúcar. Em meio aos momentos de fato fofos entre o casal e às cenas cômicas com aquela excentricidade típica das produções britânicas, o texto esperto assinado por Martin e o também roteirista Joe Hampson entrega verdades duras sobre amor e vício e surpreende ao apontar como estes dois assuntos muitas vezes se confundem nas nossas vidas. Isso não torna o seriado menos encantador. Pelo contrário, nem mesmo as reflexões doloridas são capazes de desmotivar uma maratona da primeira temporada.

Quem está familiarizado com a carreira de Martin reconhecerá na produção a mesma sensibilidade que ela dá aos seus stand-ups, ou mesmo ao seu livro Can Everybody Please Calm Down? - talvez, inclusive, note uma ou outra repetição em piadas e pequenos detalhes da trama. Contudo, é inegável que Feel Good marca um amadurecimento da comediante tamanha a sua honestidade tanto como roteirista, quanto como atriz.

Do mesmo modo como fez nos palcos e nas páginas, Martin busca material na sua própria vida para construir sua protagonista, uma versão fictícia de si mesma. A Mae da série, como a atriz, é uma comediante ex-viciada em cocaína que viveu uma série de relacionamentos com mulheres que sempre se identificaram como heterossexuais.

Mas, em Feel Good, Martin dá um passo bastante corajoso aprofundando os temas que até então tratou com ar anedótico. Porque, por mais curtos que sejam os episódios, a série em nenhum momento atropela o desenvolvimento das angústias dela e dos demais personagens. Na realidade, o desenrolar da narrativa é sempre certeiro. Por isso, dói acompanhá-la. Você se importa com aquelas pessoas e a cada decisão questionável ou crise que se anuncia, você se pega querendo fazer alguma coisa a respeito.


Os dilemas de Mae

Veja bem, esta é uma dramédia, logo o humor também se faz presente. Os comportamentos obsessivos de Mae lhe causam muito sofrimento, claro, mas também rendem boas cenas cômicas, a exemplo do seu plano mirabolante para não mandar mensagens para sua namorada George (Charlotte Ritchie). Mesmo nos encontros do Narcóticos Anônimos há personagens caricatos que servem à essa função. A risada, porém, nunca vem às custas do vício, e sim das suas personalidades singulares.

Contudo, a leveza inerente à série não mascara que falta algo à personagem - sensação esta que, convenhamos, basta ser humano para reconhecer. Durante os seis episódios, Mae tenta, indiretamente, preencher essa sensação de vazio de variadas formas. O primeiro foco é sentir-se aceita por George. Embora estejam juntas há três meses e dividam o mesmo teto, a personagem de Ritchie tem uma resistência para apresentar sua namorada à família e aos amigos. Para ela, a atitude pode parecer um anúncio, como se de repente estivesse saindo do armário e assumindo-se lésbica ou bissexual, rótulos com os quais ela não necessariamente se identifica ou se sente confortável. O dilema, embora seja até compreensível, causa uma grande insegurança em Mae, que começa a se desdobrar para tentar ser o que George quer, e não quem é de fato.

Mae, então, fica determinada a confrontar seus pais sobre a decisão deles de expulsarem-na de casa na adolescência, algo que a importuna já há anos. Neste contexto, vale notar, a atriz Lisa Kudrow é um verdadeiro destaque. Responsável por entregar algumas das verdades mais difíceis - e um bom tanto de comentários insensíveis -, ela interpreta uma mãe ácida e extremamente direta que ora você odeia, ora você ama. Dito isso, é evidente como a relação familiar é outra fonte de angústia.

Em meio a este furacão de emoções e inseguranças, as drogas ainda ressurgem como uma espécie de fantasma, que assombra a vida da protagonista. Porém talvez a razão para esta sensação de ausência não esteja em nenhum destes três dilemas mal resolvidos. Há uma dor latente e ainda não compreendida que possivelmente só em uma segunda temporada ela vá entender. Enquanto a personagem ensaia um amadurecimento, levemente frustrado nos últimos minutos da temporada, o espectador fica com os próprios pensamentos sobre seus relacionamentos e vícios. Uma reflexão certamente agridoce, já que não falta vontade de continuar a acompanhar essa história ainda que ela mexa em algumas feridas.

Nota do Crítico
Ótimo