Leia a crítica da 1ª Temporada da série Expresso do Amanhã da Netflix

Créditos da imagem: Divulgação/Netflix

Netflix

Crítica

Expresso do Amanhã - 1ª Temporada

Série de TV honra a coragem da franquia, mas sofre para causar o impacto desejado

Gabriel Avila
10.08.2020
17h49
Atualizada em
10.08.2020
18h32
Atualizada em 10.08.2020 às 18h32

Sem muito alarde, a franquia Expresso do Amanhã se tornou onipresente na cultura pop. Criada originalmente nos anos 1980 na HQ O Perfuraneve, a curiosa premissa sobre uma distopia climática foi levada aos cinemas em 2013 por Bong Joon Ho (Parasita) no filme Expresso do Amanhã e, em 2020, se tornou uma série de TV de mesmo nome. Com a difícil missão de honrar seu legado, a produção que chegou ao Brasil pela Netflix demonstrou a coragem que seu título exige, mas sem a contundência para gerar o impacto desejado.

Mais do que refazer de forma expansiva o enredo da HQ ou do filme, que já guardam inúmeras diferenças entre si, a série toma a correta decisão de se distanciar dessas outras versões. O ponto de partida segue o mesmo: após uma série de abusos por parte da raça humana, a Terra entrou em uma nova era do gelo que condenou toda a forma de vida no planeta. A exceção está no Perfuraneve, trem com mais de 1000 vagões, projetado para proteger uma parcela da população mundial que pôde pagar sua entrada (com dinheiro ou com prestação de serviços) e uma numerosa parcela que o invadiu em busca de sobrevivência. Com o combate de classes armado, o seriado estabelece um foco completamente diferente que agrada tanto aos fãs antigos, quanto novos telespectadores.

A HQ e o filme têm como protagonista Curtis, um fundista - nome dado às pessoas que vivem em condições sub-humanas nos vagões do fundo - que avança com violência rumo à locomotiva do Perfuraneve em busca de melhores condições para seu povo. A série inicialmente parece trilhar o mesmo caminho ao apresentar Andre Layton (Daveed Diggs), detetive que desempenha papel similar como uma importante voz do fundo, até ser convocado pela administração do veículo para investigar um assassinato misterioso. Acontece que além de Layton, a produção apresenta uma segunda protagonista: Melanie Cavill (Jennifer Connelly), membro da organização do trem que oferece toda uma nova perspectiva sobre essa realidade.

Enquanto utiliza Layton para ilustrar as desigualdades sociais que são a essência da franquia Expresso do Amanhã, a série mostra o outro lado da moeda com Cavill, que lida diariamente com as dificuldades em comandar - e manter em paz - um sistema que está fadado a causar atrito entre a população. Essa divisão traz um novo fôlego que serve à ambos os núcleos, já que é pelos olhos de Melanie que a história explica como os luxuosos membros da 1ª classe estabelecem uma dinâmica de luxo e poder que impacta diretamente na vida miserável que os fundistas levam.

Com esse caldeirão de informações e novas óticas, Expresso do Amanhã mergulhou de cabeça em sua mitologia criando conceitos e até expandindo alguns já existentes, deixando esse curioso universo ainda mais rico. O problema é que mesmo com todos esses ingredientes, a primeira temporada da série sofre para estabelecer seu ritmo, o que prejudica a imersão e o envolvimento com a trama.

Durante todo o primeiro ano, a cadência da trama é inconsistente, já que o enredo intercala momentos inspirados e cheios da já citada coragem, com decisões formulaicas que por pouco não tornam sua trama genérica. Por intercalar altos e baixos, a história nunca decola de vez, sempre deixando no ar a sensação de que falta algo. A direção se mantém pouco inventiva por praticamente toda a temporada, perdendo diversas oportunidades para preencher esse vácuo.

Dentre os desperdícios cometidos pelos diretores, o principal talvez esteja na entrega de seu elenco principal. Os protagonistas vividos por Jennifer Connelly e Daveed Diggs brilham por si só ao demonstrar verdade através de personagens que estão constantemente fingindo para atingir seus objetivos. Além da dupla, o roteiro direciona os holofotes também para personagens que em primeiro momento parecem meros coadjuvantes, como é o caso da atriz Alison Wright, que rouba a cena com sua secretária Ruth Wardell em um dos momentos mais emocionantes do primeiro ano. Apesar da boa entrega do elenco, fica claro que o mérito é mais dos atores do que da direção, que poderia ter extraído ainda mais do talento de cada um.

Com o enorme gancho deixado pelo episódio que fecha a 1ª temporada, não foi surpresa quando a TNT - emissora que exibe a série nos Estados Unidos - anunciou uma nova temporada para Expresso do Amanhã. Com um elenco de peso e um roteiro corajoso, a produção tem à seu favor muitas qualidades que podem colocá-la entre os melhores lançamentos dos próximos anos. Para isso, é preciso se conectar com o público antes que o interesse pela série congele e o trem deixe de andar para sempre.

Nota do Crítico
Bom