Eu Nunca… - 1ª temporada

Créditos da imagem: Divulgação

Netflix

Crítica

Eu Nunca… - 1ª temporada

Série inspirada na juventude de Mindy Kaling acerta ao representar tal época da vida com humor e drama na medida certa

Camila Sousa
29.04.2020
11h50

Mindy Kaling é um nome de sucesso em Hollywood. Conhecida por interpretar Kelly Kapoor em The Office e também escrever roteiros para a série, Kaling estrelou Projeto Mindy entre 2012 e 2017 e está no elenco de Uma Dobra no Tempo (2018) e Oito Mulheres e um Segredo (2018). Tanto sucesso fez com que a Netflix desse sinal verde quando Kaling apresentou o projeto de uma série adolescente inspirada em suas vivências pessoais. E ela acertou de novo. Eu Nunca… (Never Have I Ever) é um seriado que une delicadeza e humor para falar de forma verdadeira sobre essa época da vida.

A trama acompanha Devi (Maitreyi Ramakrishnan), uma jovem de origem indiana que vai morar nos EUA com os pais no início dos anos 2000. Atualmente na escola, ele vive todos os dramas já conhecidos do período: sente que não se encaixa; faz parte do grupo dos “nerds” ao lado das amigas Fabiola (Lee Rodriguez) e Eleanor (Ramona Young); tem um rival que vive competindo com ela pelas melhores notas e está apaixonada pelo garoto mais lindo da escola, que parece totalmente inalcançável. Todos esses pontos são comuns em histórias do gênero, mas o diferencial de Eu Nunca… é a forma real com que a série os trata.

Todas as falas e ações de Devi condizem com uma adolescente que realmente não sabe muito bem bem o que fazer. A protagonista, que está lidando ainda com um grande trauma emocional familiar, erra, briga com amigos sem querer, não consegue controlar suas emoções e usa sua paixão arrebatadora por Paxton (Darren Barnet) como válvula de escape para não precisar lidar com seus problemas de verdade. Devi não é perfeita e muito menos uma jovem precisando que alguém a resgate de suas tristezas e questionamentos. Ela é apenas alguém com falhas e qualidades, que precisa superar seus problemas aos poucos, como acontece na vida real.

O texto inspirado de Kaling ao lado da cocriadora Lang Fisher (Brooklyn Nine-Nine, Projeto Mindy) também encontra espaço para outras discussões com os coadjuvantes. Fabiola, por exemplo, é uma gênio da tecnologia que começa a questionar a própria sexualidade e, de início, não sabe bem como lidar com isso. Eleanor tem talento para o teatro e usa a arte para superar a saudade de sua mãe, que a deixou ainda criança para seguir o sonho de ser atriz. Ben (Jaren Lewison) é o grande rival de Devi e o “garoto riquinho” da escola. Sua vida poderia ser “perfeita” e ele facilmente poderia ser retratado como alguém arrogante, mas a verdade é que o preço de tanto luxo é a ausência dos pais, que transforma o garoto em alguém solitário, mas de bom coração, que também tem seus erros, mas no fim não deseja fazer mal a ninguém. E, novamente, tudo isso é trabalhado da forma mais natural possível, trazendo uma identificação única para o público.

Saindo do núcleo escolar, há ainda duas personagens que merecem destaque. A primeira é Nalini (Poorna Jagannathan), mãe de Devi. A personagem é construída como uma mãe rígida com a filha por preocupar demais com ela. No entanto, além de compartilhar o mesmo drama familiar da garota, Nalini também acredita que precisa ser forte o tempo todo. Como muitas mulheres, ela sente falta de uma rede de apoio e acha que a única solução para isso é jamais demonstrar fraqueza. Tais aspectos sobre a personagem são apresentados em poucas cenas, já que seu tempo de tela não é grande, mas elas são efetivas ao mostrar algo com o que muitas mulheres lidam. Nalini acha que precisa ser perfeita 100% do tempo para que sua família seja feliz, mas a verdade é que ela é apenas uma pessoa, com medos e receios, e que também merece se curar de suas dores.

A segunda personagem é Kamala (Richa Moorjani), priva de Devi. Inicialmente apresentada como a “mulher perfeita”, que é linda, inteligente e chama a atenção de todos os homens quando passa, Kamala ganha camadas quando sua família indiana quer que ela tenha um casamento arranjado, como faz parte dos costumes. Além de estar interessada em outro homem, a verdade é que Kamala não quer se casar agora e não pretende seguir os costumes mais tradicionais, como parar de trabalhar em definitivo quando tiver filhos. A personagem foi aos EUA para estudar e pretende ter uma vida independente, com um companheiro que caminhe ao seu lado e não à sua frente.

Abordar tantos temas em 10 episódios de 20 minutos é um desafio, mas Eu Nunca… faz isso com humor, delicadeza, uma ótima trilha sonora e ainda conta com participações especiais hilárias, como o tenista John McEnroe, figura presente nos episódios, e Andy Samberg, o Jake Peralta de Brooklyn Nine-Nine.

Dramédia sem tabus

Como dito acima, todas as tramas de Eu Nunca… são permeadas tanto pelo drama, especialmente pelas experiênicas de Devi, quanto pelo humor. Há momentos hilários com o professor de história Sr. Shapiro (Adam Shapiro), que tenta inspirar seus alunos, mas faz isso de um modo peculiar e cheio de piadas erradas; com a diretora Grubbs (Cocoa Brown), que lida com dramas adolescentes com muita ironia e pouca paciência e também com as cenas de Devi com sua terapeuta, a Dra. Ryan (Niecy Nash).

Além de Devi tentar fugir a todo momento do real motivo de sua tristeza, há cenas muito divertidas, como quando a garota pede que a terapeuta compre uma lingerie para ela ir a uma festa. Eu Nunca… não tem receio de falar sobre os desejos sexuais de Devi, sua vontade de estar entre os jovens populares ou o dia em que bebe álcool em uma festa de amigos. A série deixa claro que o motivo de tanta “rebeldia” é algo muito maior, mas trata sem tabus sobre temas que fazem parte da juventude e precisam ser mais conversados e menos escondidos.

Eu Nunca… é um acerto entre as produções com temática adolescente da Netflix. Seguindo o caminho de sucesso de Sex Education, o seriado tem tudo para ganhar mais temporadas, embora tenha um encerramento satisfatório dentro da temporada. Agora é esperar que o streaming renove a produção e que Devi, Fabiola, Eleanor e todos os outros voltem em breve com mais tramas divertidas e inspiradoras. 

Nota do Crítico
Ótimo