Era Uma Vez Um Sonho

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Era Uma Vez Um Sonho

Adaptação com Amy Adams e Glenn Close mira o Oscar com uma bazuca

Henrique Haddefinir
25.11.2020
12h14
Atualizada em
25.11.2020
12h35
Atualizada em 25.11.2020 às 12h35

No momento em que a comunidade intelectual e os círculos políticos dos EUA souberam que a história de J.D. Vance seria contada no cinema, os burburinhos sobre o impacto que isso teria em ano eleitoral começaram a aquecer as rodas de discussão. A explicação para isso é simples: antes de se tornar filme da Netflix, a história de Vance já era popular entre todos aqueles que encararam o livro de memórias escrito por ele em 2016 como exemplo negativo de onde a sociedade que elegeu Donald Trump havia conseguido chegar. Ou até mesmo um exemplo positivo, dependendo de quem a usava como argumento. Se há uma coisa da qual o americano médio se orgulha é de suas raízes interioranas.

Com isso, os aspectos políticos da obra de Vance assumiram a dianteira da recepção crítica. De fato, enquanto peça literária, a história do rapaz é muito mais atenta e focada nos entornos que justificam seu subtítulo (Memórias de uma família e de uma cultura em crise). Essa “cultura em crise” a que esse subtítulo se refere é a chave para toda a forma como o livro foi recebido. Vance, inclusive, não é o primeiro a representar essa origem “caipira” com uma nostalgia ambígua, que em um determinado ponto parece orgulhosa e em outro, crítica. Stephen King, por exemplo, em sua obra, fala muito desse universo bucólico, com homens durões, senhoras que mascam tabaco, e espingardas empunhadas ao menor sinal de barulho na vizinhança. Ele próprio cresceu assim... E tal qual seus personagens, foi buscar uma fuga nas drogas e na bebida.

Pode parecer tolo, mas um título tem profunda importância na tradução de uma obra. O nome original de Era Uma Vez um Sonho é Hillbilly Elegy - “elegia caipira” em tradução livre. Nessas duas palavras estão as bases para o livro e para a adaptação cinematográfica homônima. Vance, o autor, não disfarça sua teoria de que as entranhas da América conservadora são reprodutoras de recorrências. Geração após geração, maus hábitos, comportamento violento e preconceitos são transmitidos quase como códigos de DNA. Mas essa “elegia” do título está ali para nos lembrar que por trás desse “estudo” social está o elemento humano. Essa história ainda precisa ser, enfim, sofrida e melancólica.

O problema maior talvez tenha sido deixar que os direitos da obra tenham caído nas mãos de Ron Howard, um diretor eclético, conhecido por adaptar histórias reais (Apollo 13, Frost/Nixon, Uma Mente Brilhante...), mas também conhecido por torná-las objetos de exploração melodramática. Uma Mente Brilhante (2001), por exemplo, enfrentou críticas parecidas quando foi lançado. Na época, Howard foi acusado de omitir partes da vida de John Nash que o tornavam mais complexo. Ao mesmo tempo, ele já dirigiu desde comédias confortáveis como Splash (1984), passando por O Grinch (2000), até chegar em Han Solo (2018). Ou seja, é difícil reconhecer sua identidade como diretor e em parte, essa esquizofrenia criativa acabou se imprimindo em Era Uma Vez Um Sonho.

Era Uma Vez Um Oscar

Era Uma Vez Um Sonho chega à Netflix depois de uma breve passagem pelas salas de cinema nos EUA, lembrança de que - além da oportunidade de ser exibido na época da eleição - sua ambição mira o Oscar 2021. Os “filmes de Oscar” são categoria à parte e com frequência esses dramas privilegiam os maneirismos que chamam a atenção da Academia, da trama grave de superação ao elenco descaracterizado em maquiagens e cabelos carregados e em superatuações que chamam a atenção para a perda de suas vaidades. Era Uma Vez Um Sonho marca um X em todos esses quesitos.

Talvez a comparação com o livro tenha pesado na forma negativa como o filme foi recebido pela crítica nos EUA. De certa maneira, não há nada de errado em pesar a mão para contar uma história de uma família rural disfuncional, de onde é preciso fugir para quebrar os padrões. Mas, se essa for uma experiência baseada numa história real, as responsabilidades do diretor aumentam, porque elementos importantes, se omitidos, podem reconfigurar negativamente a trajetória daquele personagem, que é, no fim das contas, real. Na hora de transportar J.D. Vance para a telona, Howard e sua roteirista Vanessa Taylor só olharam para aquelas figuras como potenciais melodramáticos, reduzindo-as ao sensacionalismo.

O filme vai e volta no tempo, mostra J.D. adolescente (vivido por Owen Asztalos), morando no interior; e mostra J. D adulto (Gabriel Basso), lutando para se manter o mais afastado possível do ambiente familiar que quase o destruiu. Então, surgem os problemas do longa. J.D. começa o filme falando de como as lembranças de sua “vida caipira” lhe eram preciosas, mas logo em seguida tudo que o espectador acompanha é uma sucessão de agressões e humilhações a que o menino é submetido. Esse descompasso nos acompanha até o fim do filme.

A mãe, Bev (Amy Adams), surge extremamente amorosa e logo em seguida faz terrorismo com o menino no carro, ameaçando provocar um acidente. Sua vó Mamaw (Glenn Close) é a pessoa que ele julga tê-lo salvado, mas também é a mulher que ateou fogo no marido por causa de suas bebedeiras. Todos esses aspectos, que deveriam ser nuances de personalidade, são expostos a seco, sem muita construção, sem contexto. Em dado momento, Mamaw, convalescente no hospital, tem uma epifania, acorda, arranca os fios dos aparelhos e sai pelos corredores como se fosse o próprio Exterminador do Futuro citado numa outra cena. Não há absolutamente nenhum interesse em explorar a tal “cultura em crise” e no final, o espectador não sabe se Ron Howard está nos dizendo que a criação de J.D. é horrenda ou assustadoramente justificável.

Não basta que Amy Adams esteja novamente lutando tanto por seu Oscar ou que Glenn Close esteja estupenda na construção de sua personagem (os créditos finais reforçam a precisão de seu trabalho); no final das contas, Era Uma Vez Um Sonho é um drama de sentimentalismo envernizado, daqueles que são exibidos aos montes nas noites da TV aberta, sem nenhum diferencial que justifique a atenção que recebeu. Mas, para aqueles que já precisaram escapar de um ambiente tóxico para conseguir viver, talvez o filme signifique algo. De novo, o valor aí talvez esteja então na obra de Vance e não necessariamente na adaptação em si.

Era Uma Vez Um Sonho
Hillbilly Elegy
Era Uma Vez Um Sonho
Hillbilly Elegy

Ano: 2020

País: EUA

Duração: 116 min

Direção: Ron Howard

Roteiro: Vanessa Taylor

Elenco: Owen Asztalos, Gabriel Basso, Amy Adams, Haley Bennett, Glenn Close

Nota do Crítico
Regular

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