Entre Realidades

Créditos da imagem: Netflix/Reprodução

Netflix

Crítica

Entre Realidades

Com atuação poderosa de Alison Brie, longa promete final catártico, mas se perde ao tentar equilibrar gêneros

André Zuliani
21.02.2020
12h21
Atualizada em
21.02.2020
17h17
Atualizada em 21.02.2020 às 17h17

Entre Realidades é um filme peculiar. Não só por conversar sobre o subconsciente humano, mas por também mostrar sua influência no cotidiano de quem sofre de algum transtorno mental. Alison Brie, que estrela o longa e roteiriza ao lado do diretor Jeff Baena, se inspirou em experiências de familiares para imaginar a trama. Com essa bagagem, era esperado que a proposta do filme fosse bem definida e o clímax levaria a algo catártico. Infelizmente, não é isso que se observa.

No filme, Brie vive Sarah, uma jovem com evidentes problemas para socializar e transtornos derivados de traumas anteriores. Sonâmbula, ela perambula pela sua casa quase todas as noites, assustando sua colega de quarto (Debby Ryan) com paredes que amanhecem rachadas e a sala desorganizada. As coisas parecem piorar quando os esquisitos sonhos da protagonista começam a invadir a vida real. No trabalho, Sarah acaba reconhecendo um homem (John Ortiz) que havia visto apenas em seu inconsciente. Confusa, ela começa a questionar a própria realidade e nos leva a uma estranha e louca viagem psicológica.

Talvez por conta da sua experiência pessoal com o assunto, Brie entrega uma performance poderosa. Sarah é amável e ao mesmo tempo intensa. Sua mudança decorrente dos sonhos se torna cada vez mais nítida conforme a trama avança. Desconcertada, ela vai se convencendo de que está no meio de uma conspiração que envolve clones, alienígenas e sua falecida avó.

Potencializada pela trilha sonora, que muito lembra os suspenses americanos dos anos 50, o caos que toma a mente de Sarah confunde até mesmo o espectador, tamanha proporção que atinge suas alucinações. O roteiro, porém, não sustenta os delírios da protagonista. Sabemos que a personagem de Brie passou por experiências negativas na infância pelos flashbacks, mas não entendemos como exatamente esses traumas influenciam seus sonhos.

Mesmo que no início pareça uma comédia indie que fala sobre um problema social, a direção de Baena utiliza elementos de ficção científica, tornando tudo mais confuso ao tentar equilibrar os gêneros. Ao invés de brincar com o sobrenatural, o diretor poderia ter insistido na proposta de conversar sobre saúde mental e como algumas pessoas são negligenciadas por conta dos sintomas que apresentam.

No final, muito por conta da atuação de Brie, o saldo é mais positivo do que negativo. Por mais que a ambição do roteiro tenha complicado o resultado final, a produção poderia ser exemplo de estudo de personagem. Em seu primeiro crédito como roteirista, é interessante ver como a atriz se arriscou em uma trama ousada como a de Entre Realidades. Por ter relações estreitas com a Netflix – ela protagoniza Glow e fazia parte do elenco regular de BoJack Horseman – não será estranho se nos depararmos com outra colaboração entre as obras originais do streaming. A ver.

Nota do Crítico
Bom