Elenco de Elite

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Elite - 3ª temporada

Série se afasta ainda mais da própria identidade e entrega sua temporada mais superficial

Henrique Haddefinir
17.03.2020
09h47
Atualizada em
25.03.2020
14h14
Atualizada em 25.03.2020 às 14h14

A imagem surge na tela, a cena começa com quadros aparentemente aleatórios, pouco claros, mas sabemos o que vai acontecer de antemão: alguém vai aparecer morto ou seriamente ferido. A imagem pode ser um pouco turva ou mesmo ter um filtro que indique o tempo passado ou futuro. Logo depois, vários jovens estão dando depoimentos para a polícia e em seguida, cortes indicam que eles compartilham um segredo a respeito daquela morte. Durante os episódios que virão a seguir, aquela noite será desmembrada em muitos pedaços, de modo a proporcionar ao espectador a sensação de suspense constante; e de dúvida também.

Se essa descrição acima te pareceu familiar os mesmo retirada do início de praticamente todas as temporadas de How To Get Away With Murder, você não está vendo coisas. Elite, a série espanhola que é um dos maiores sucessos da Netflix, sempre soube como reproduzir as fórmulas de séries adolescentes norte-americanas. O que ninguém esperava é que para seu terceiro ano o planejamento tenha ido tão longe nessa tarefa de manter o público treinado para reconhecer referências. Ainda que em suas duas primeiras temporadas a série tenha sempre copiado descaradamente uma ou outra dinâmica, nunca a linha central dos acontecimentos tinha se aproximado tanto de outra produção. E já estamos considerando que How To Get Away não é o melhor exemplo de originalidade.

Nas beiradas desse tal novo mistério estão as vidas dos personagens. E essas vidas também nunca se focaram tanto em romances e trocas de casais como agora. Essa foi, basicamente, a força motora de praticamente todos os núcleos. Ainda que em histórias como a de Samuel (Itzan Escamilla) e Carla (Ester Expósito), em que o envolvimento com a trama do mistério era maior, tudo acaba terminando na mesma esquina do romance e do sexo. Mesmo Omar (Omar Ayuso), que tinha construído uma trajetória muito coerente, é jogado na cilada das traições, sendo explorado em sequências sexuais que pouco se enquadram na trama e soam gratuitas. Elite também não abandona elementos chocantes que “deram certo” e Cayetana (Georgina Amorós) foi a escolhida para sustentar o “trisal” da temporada.

Contudo, nem tudo está perdido. Apesar de Nadia (Mina El Hammini) ter acabado numa storyline capenga envolvendo um dos novos personagens, sua aproximação com Lucrecia (Danna Paola) foi um dos grandes avanços dessa terceira temporada. Ao contrário do que alguns poderiam esperar, o investimento na escalada para o mal de Lucrecia foi interrompido por uma disputa legítima com Nadia, visando o futuro profissional e que foi positivo para o desenvolvimento de ambas as personagens. Uma pena que quando chegamos ao final da temporada, todo esse avanço tenha sido contradito por causa de reviravoltas vazias, que servem apenas ao choque.

Elitizados

Assim como na primeira temporada, um dos membros do elenco principal é assassinado e passaremos todos os oito episódios sendo enganados pelos roteiros nas nossas expectativas sobre quem é o criminoso ou criminosa. Os métodos dos roteiristas para explorar e desvendar a morte de Marina (Maria Pedraza), lá no primeiro ano, são completamente reprisados. Para aqueles que já assistiram toda a temporada, a verdade sobre o crime ajuda a compôr esse quadro de repetições. As motivações são diferentes, mas é como se os personagens da série herdassem uns dos outros a capacidade de matar impulsivamente e não responder pelas consequências de seus atos. Elite, popular entre os jovens, parece ter a consciência tranquila a respeito da ideia de que desde que você mate num rompante, tá tudo bem, sua turma te protege.

A rotina da escola praticamente não existe. Entre trocas de casais e muita autodestruição, ninguém estuda de verdade, ninguém passa pelas coisas típicas de quem está no último ano da escola. Se não fosse pelo enredo envolvendo a bolsa de estudos de Nadia e Lucrecia, não haveria nenhum sinal de que a formatura estava prestes a acontecer. Os episódios, além de muito mais focados em impressionar com sequências envolvendo consumo de drogas e traições, são mais escuros, com menos investimento na boa trilha dos anos anteriores. A corrida para exploração do mistério afeta gravemente a ideia de que esse é um grupo de adolescentes no ensino médio, fazendo com que o fantasma de How to Get Away With Murder fique ainda mais presente.

Com a quarta e quinta temporadas já anunciadas, o clima de despedida toma conta dos minutos finais. Os criadores já declararam que algumas dessas despedidas são definitivas e que para não perderem o controle da premissa inicial, novos personagens devem adentrar os corredores da escola, enquanto alguns rostos permanecem. A oportunidade de repensar alguns dos recursos criativos pode se dar a partir desse momento. É claro que é muito comum invocar produções de sucesso para que o seu produto tenha algum escoramento entre os fãs. Mas, uma série com tamanha notoriedade não pode ter preguiça de criar sua própria identidade. Ser uma cópia-carbono de algo que já está estabelecido é indgno de qualquer obra que se preze. Elite tem vozes relevantes disponíveis para serem ouvidas, ela não precisa de intermediários.

Nota do Crítico
Regular