El Camino: A Breaking Bad Movie

Créditos da imagem: El Camino: A Breaking Bad Film/Netflix/Reprodução

Netflix

Crítica

El Camino: A Breaking Bad Movie

Jesse Pinkman ganha um fecho conciso em filme que está em sintonia com o tom de Breaking Bad

Marcelo Hessel
11.10.2019
13h22

Não há nada como o aroma da consistência narrativa pela manhã. O filme de Breaking Bad chega seis anos depois do fim da série, cercado de desconfiança por ser um potencial caça-níquel de streaming, mas El Camino está plenamente em sintonia com o espírito que Vince Gilligan criou no seriado e também se encaixa bem no arco de Jesse Pinkman - agora promovido a protagonista solo.

Aaron Paul volta ao papel, num longa com meia-dúzia de easter eggs e algumas participações bem especiais - tanto em flashbacks quanto no presente. A trama começa imediatamente depois da escapada de Jesse (há um vídeo de resumo antes mas recomenda-se rever os dois últimos episódios de Breaking Bad) e se desenrola por não mais que alguns dias. Gilligan, roteirista e diretor de El Camino, escolhe a concisão como régua, não só por conta desse período estreito de tempo, mas também para refazer o universo temático do Novo México da série em duas horas de longa-metragem. Essa concisão é o ponto forte do filme: está na trama simples e direta, nos diálogos econômicos, no tom do humor, e está na escolha muito pontual de personagens.

Jesse sempre foi o contrapeso moral à ruína de Walter White, e essa responsabilidade, assumida depois da morte trágica de Jane na terceira temporada, é o martírio que o personagem carrega consigo. O filme não lidaria com outro tema, portanto, senão o acerto de contas com esse peso. Gilligan dribla a armadilha de fazer uma história de sofrência e, ao reacender a morbidez crônica de Breaking Bad, consegue verdadeiramente dar um estatuto de protagonista a Jesse: ele é o último inocente num mundo de insensibilidade, onde cada monte de areia no deserto talvez seja uma nova cova clandestina, e é esse caráter quixotesco que torna tão fácil a empatia por Jesse. Ele terminou o ensino fundamental mas continua sendo muito pouco inteligente diante dos golpes que a vida lhe dá.

É como se assistíssemos a uma das comédias policiais dos irmãos Coen, cheias de azares, tipos ingênuos e acasos cruzados, mas sem os floreios de uma narrativa de cinema. O máximo de estilização a que Gilligan se permite são os time-lapses que já foram vistos em Breaking Bad; trata-se, portanto, de mais uma questão de consistência narrativa, antes de mais nada. El Camino também não tem o mesmo o fatalismo abissal dos Coen, e apesar dos maiores horrores sofridos ou testemunhados por Jesse (Gilligan é muito sensível na hora de escolher o que é tratado como drama e o que é tratado como comédia nos momentos de sadismo) ele personifica a esperança.

É curioso pensar hoje em retrospecto que Gilligan concebeu Jesse originalmente para aparecer apenas na primeira temporada; Breaking Bad não seria possível sem essa esperança. El Camino toma a decisão muito sábia de problematizar a autopiedade de Jesse sem demorar muito, e o resultado é um arco de redenção compacto e muito efetivo que se desenrola nas sutilezas, como quando ele apenas assiste ao desembarque das prostitutas sem esboçar reação (mais um bom momento de personagens novos que dão forma a esse mundo distorcido de Albuquerque e região). No mais, o filme é bem esperto na hora de combinar esse arco dramático com situações de escalada de humor que revelam a ingenuidade do suposto malandro (primeiro o engano com os "policiais", depois a cena da loja, depois a "confissão" de ingenuidade para os pais).

O ponto de virada é muito claro. O auge da problematização da autopiedade não seria outro senão o momento em que Jesse escuta alguém dizer, finalmente, que "se ele quer piedade procure a polícia". A entrega é seca e direta, bem no estilo do ator Robert Forster, como se ele estivesse dizendo na cara de Jesse a maior das obviedades. Gilligan enquadra os dois atores diante de uma porta na contraluz; tudo o que define Jesse naquele momento é o halo de luz, e transformado em silhueta e sombra talvez o personagem possa finalmente despertar para a consciência de si e partir para o proverbial novo recomeço.

El Camino fecha a história de Breaking Bad numa nota que não tem nada a ver com o arco de Walter White, porque o protagonista da série era justamente isso, o protagonista da série, pela sua capacidade de transformar e moldar o mundo ao redor à sua semelhança. Jesse é o seu oposto complementar, o eterno peão, maleável a toda porrada, mas sua jornada de resiliência em meio ao absurdo finalmente tem um desfecho que o personagem merecia: o descanso num espaço horizontalizado sem fim como o deserto do Novo México, também aberto a todo tipo de imprevisto, mas sem o fator visível da crueldade humana para desequilibrar a fatura.

Nota do Crítico
Ótimo