Duas por Uma

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Duas por Uma

Drew Barrymore se desdobra em duas em comédia que só ensaia subverter suas fórmulas

Henrique Haddefinir
18.12.2020
14h46
Atualizada em
18.12.2020
14h56
Atualizada em 18.12.2020 às 14h56

Alguns atores são destinados a atuar sempre no mesmo tipo de filme, e uma forma de sair um pouco da mesmice é dobrar a aposta na persona: Adam Sandler e Eddie Murphy já se multiplicaram em cena, e agora quem entra na dança dos duplos & sósias é Drew Barrymore. Duas Por Uma coloca a atriz em mais uma comédia romântica, mas agora em versão dobrada, com o adicional do comentário irônico autorreferente.

Na trama, Candy (Barrymore) é uma atriz de comédias que, cansada de Hollywood, tem um surto no meio de uma filmagem e vê sua carreira andar para trás. Ali, logo ao lado, está Paula, sua substituta, que anseia imensamente por uma oportunidade de ter ao menos um papel de verdade, que não inclua servir de dublê para mais ninguém. Já sabemos o que o roteiro de Sam Bain pretende: que a substituta assuma o lugar da atriz e que isso vá nos levar para todo tipo de situação cômica recorrente nessas tramas em que gêmeos ou sósias trocam de posição.

As escolhas de Duas Por Uma pelo pastelão já se anunciam nos primeiros minutos, quando somos apresentados à carreira de Candy. A personagem aparece numa sequência de situações estabanadas que sempre terminam com ela caindo de cara no chão e soltando um bordão logo em seguida. Habitual em esquetes cômicos de programas de auditório, o humor de bordão soa estranho na tela do cinema; é o primeiro indício de que a diretora Jamie Babbit não se acanha e manda toda e qualquer sutileza para o buraco.

A Usurpadora 

As caricaturas descontroladas encostam uma na outra o tempo todo. Candy é viciada em drogas, mas aparentemente a rehab não é a alternativa mais sensata e sim um perfil num site de encontros entre marceneiros (sim, marceneiros). Enquanto Paula assume seu lugar na mídia, Candy faz mesas e cadeiras em homenagem ao homem que conheceu pela Internet. O roteiro se abstém de justificar esses devaneios, e rapidamente o que prometia ser uma trama moral (substituta assume o lugar de uma atriz para ser rica e famosa) se converte em comédia romântica tradicional (uma mulher assume o lugar de outra mulher para ficar com o namorado dela).

Drew Barrymore se esforça para diferenciar Candy e Paula (a prótese que muda o nariz das duas ajuda bastante), mas todo o potencial do filme para discutir a indústria e sua superficialidade vai se esgotando a cada minuto. O roteiro espreme tudo que pode sobre isso numa sequência cheia de participações especiais (Holland Taylor, Lena Dunham, Andy Cohen, Jimmy Fallon e Ryan Seacrest são algumas delas) e o resto do filme se desenvolve em torno da disputa entre Candy e Paula pelo amor de Steve (Michael Zegen). Ou seja: de um começo que testa os limites do pastelão, o filme logo se acomoda na fórmula que se espera de um filme de Drew Barrymore.

Muito rapidamente, essa mistura desanda e o espectador fica com a impressão de que deu play em um filme e acabou assistindo a outro. Quando um personagem troca de lugar com o outro, praticamente toda a ação se desenvolve em cima das situações profissionais e pessoais que geralmente são corrigidas pela pessoa que assumiu. Duas Por Uma quis inovar fazendo com que Paula fosse a impostora maligna, mas terminou sem saber como lidar com a narrativa fria e estapafúrdia que resultou disso. A história não empolga, as piadas não funcionam e Barrymore não consegue fazer nenhuma das duas mulheres ser carismática o suficiente para que torçamos por uma delas.

O final capenga encerra essa triste experiência cinematográfica com uma lembrança matemática: multiplicar algo por zero sempre vai resultar em zero.

Duas por Uma
The Stand In
Duas por Uma
The Stand In

Ano: 2020

País: EUA

Duração: 101 min min

Direção: Jamie Babbit

Roteiro: Sam Bain

Elenco: Holland Taylor, Drew Barrymore, T.J. Miller, Ellie Kemper

Nota do Crítico
Ruim

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