Claes Bang como Drácula na minissérie da BBC e Netflix

Créditos da imagem: Dracula/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Drácula - 1ª Temporada

Nova série dos criadores de Sherlock começa bem, mas vai ladeira abaixo rumo a uma conclusão desastrosa

Arthur Eloi
09.01.2020
11h39

Como os medos das pessoas estão em constante mudança, o horror se reinventa a todo momento - mas isso não significa que os clássicos sejam esquecidos. Dentre as várias obras tradicionais do gênero, Drácula de Bram Stoker talvez seja a mais popular e duradoura delas. O livro original foi publicado no fim do século 19, em 1897, mas a figura do vampiro principal se mantém no imaginário popular desde então, através de inúmeras adaptações no cinema, literatura, jogos e TV. O mais recente exemplo disso é Dracula, da BBC.

A minissérie de três episódios, que traz os personagens e cenários da obra original em uma nova trama, é criação de Steven Moffat e Mark Gatiss, conhecidos por Sherlock. A história é contada através de flashbacks que acompanham o advogado Jonathan Harker (John Heffernan) em viagem à um castelo da Transilvânia, a pedido de um senil Conde Drácula (Claes Bang). Ao se instalar no local e conhecer o dono, Harker percebe que talvez não consiga deixá-lo tão cedo, e é vítima de estranhos pesadelos que lhe tiram as forças enquanto o lorde do castelo aparenta rejuvenescer a cada dia. O primeiro capítulo é onde o programa mostra potencial. O sombrio universo é apresentado através de um Harker debilitado, que relata suas experiências com o Drácula para freiras em um convento na Hungria, o que desperta curiosidade sobre o que lhe deixou num estado tão precário e como conseguiu escapar do monstro. A exploração do castelo é uma das melhores partes, tanto pelos cenários grandiosos e cheios de charme, ou então pelas criaturas que lá habitam, como zumbis e experimentos macabros. Além disso, é aqui que a produção encontra espaço para homenagear o legado da obra de Stoker, especialmente os clássicos estrelados por Christopher Lee na Hammer Film. Assim como fazia o estúdio britânico, a série dá bastante ênfase à sensualidade do antagonista, algo que depois se tornou bastante presente em histórias de vampiros em geral, e chega até a incorporar elementos de As Noivas de Drácula (1960) ao seriado.

Mesmo assim o piloto já demonstra alguns problemas que só crescem nos episódios seguintes, especialmente quando se trata de roteiro. O estilo de escrita de Steven Moffat é divisivo entre os fãs de Doctor Who, e sua parceria com Gatiss também ganhou uma reputação questionáveis após duas temporadas lamentáveis de Sherlock. O cocriador é um excelente escritor de episódios únicos, tendo roteirizado alguns dos melhores de Doctor Who, como o memorável “Blink”. Porém a catástrofe é certeira quando chega a hora de criar arcos narrativos mais longos. É fácil identificar elementos que sempre defasam suas obras: boas ideias estragadas por soluções milagrosas - na esperança de serem vistas como “reviravoltas” -, e personagens que viram caricatos para compensar a falta de desenvolvimento real.

O primeiro episódio dá sinais de que Drácula seguirá o mesmo caminho ao responder todos os mistérios com surpresas sem base, como um simples enigma deixado pelo arquiteto do castelo, e também na caracterização da protagonista irmã Agatha (Dolly Wells). A freira interessada pelo oculto sofre de uma crise de fé, e afirma que passou a vida toda em busca de Deus, sem sucesso. Isso é revelado ao espectador através da personagem soltar várias frases de efeito “ousadas” (tal qual um adolescente ateu no Facebook), e mesmo esse problema tão profundo é resolvido na metade do capítulo com extrema facilidade e sequer dá as caras novamente. O segundo repete a mesma estrutura do anterior, até no uso de flashbacks e reviravolta meia boca, mas também transforma a trama em uma versão ralé de Sherlock. Todas as estruturas usadas no seriado de Benedict Cumberbatch voltam com força aqui, como o enfrentamento intelectual entre dois opostos (representado da forma mais clichê possível: uma partida de xadrez), um grupo de suspeitos e também um mistério a ser solucionado. Nesse ponto o programa abandona o castelo do vilão e parte sem rumo, objetivo ou trama, na esperança de encontrar algo a ser contado no meio do mar. Infelizmente essa não é a pior decisão de Drácula.

O terceiro episódio é a representação perfeita da escrita medíocre de Moffat e Gatiss. Sem qualquer desenvolvimento, a dupla tenta surpreender ao trazer o monstro clássico para o presente. Há material para explorar na ideia do Conde Drácula original fora de sua época, aterrorizando uma sociedade que já não teme ou acredita na existência de vampiros. A produção ignora todas as possibilidades para criar uma versão “descolada” do personagem no mundo moderno, mesmo que isso signifique tratar o espectador como idiota. Uma cena, por exemplo, mostra o vilão rendendo uma equipe militar ao roubar uma pistola. O público pode pensar que é um pouco absurda a ideia de uma criatura de outra era, que dormiu por mais de um século, vai saber operar uma arma de fogo ao ponto de superar profissionais treinados. A série dá de ombros e responde com piadinha sem graça, algo que faz ao longo de toda a temporada para qualquer indagação válida.É irônico que termine mais se parecendo com uma paródia vampiresca de Lucifer do que o conto gótico que se propôs a narrar. A produção quer muito que o público acredite que é inteligente, mesmo que nunca faça nada que demonstre isso.

Para quem acompanha o trabalho da dupla de criadores, Dracula ser o desastre que é não surpreende. O que era para ser uma minissérie inspirada na obra de Bram Stoker resulta em uma sequência ilógica de situações mal escritas e sem desenvolvimento, que tenta exageradamente forçar uma personalidade caricata (como os vários trocadilhos que cospe a todo minuto) para compensar a falta de qualidade. Um início forte, bom visual e uma performance divertida de Claes Bang como o antagonista não seguram a barra quando os roteiristas tratam o próprio trabalho com tanto descaso e inconsistência.

Nota do Crítico
Regular