Disque Amiga para Matar

Créditos da imagem: Divulgação/Netflix

Netflix

Crítica

Disque Amiga Para Matar - 2ª Temporada

Segunda temporada avança de forma corajosa, mas perde um pouco de seu humor no processo.

Henrique Haddefinir
10.05.2020
19h06
Atualizada em
11.05.2020
11h23
Atualizada em 11.05.2020 às 11h23

Dead To Me (que em português tem esse terrível título Disque Amiga Para Matar) apresentou em sua proposta inicial a ideia de uma comédia contemporânea sinistra, daquelas que tentam arrancar humor de situações que à primeira vista não seriam nada cômicas. Em seus primeiros episódios essa proposta demonstrou-se muito bem planejada. Embora o crime que dava o pontapé na história fosse horrível, estava na maneira como as duas protagonistas lidavam com ele os dosados teores de comédia. Principalmente em Jen (Christina Applegate), que com seu pessismo e mau humor quase constantes, produzia humor cínico de forma involuntária.

Conforme a primeira temporada seguiu seu curso, o espaço para o humor passava do cinismo para as situações estafúrdias protagonizadas por Judy (Linda Cardelini) na tentativa de esconder da nova amiga que tinha sido responsável pela morte do marido dela. Por grande parte desse caminho os roteiros insinuam que há algo de sombrio sobre Judy, mas descobrimos mais tarde que essa era só uma forma de distorcer as expectativas. De fato, quem está o tempo todo com um pé na destruição é Jen e quando ela acaba com a vida de uma pessoa num impulso de fúria, a série faz uma ruptura importante e definitiva.

A morte de Steve (James Marsden) é explorada no início desse segundo ano com uma certa dose de How To Get Away With Murder, mas a criadora Liz Feldman brinca com isso por pouco tempo, esclarecendo para o espectador logo de cara que Jen tem problemas de ira muito sérios e que isso está afundando não só sua própria cabeça, como sua relação com todos que estão em volta. Está na morte de Steve a inversão de papeis que os roteiros pretendem. Na primeira temporada era Judy quem escondia seu crime. Agora, Jen não esconde o crime em si, mas esconde a forma e a motivação que a fez cometê-lo. Não há mais espaço para julgamentos de nenhum dos lados. Judy e Jen são criminosas e cada uma matou o elemento masculino da outra, os totens distorcidos que as faziam infelizes e miseráveis.

Undead To Me

Também é a morte de Steve que traz à tona um pequeno devaneio que prejudica um pouco a credibilidade da série. A coragem de matar Steve se esvazia quando Liz chega com um irmão gêmeo, saído do nada, nunca antes mencionado, apenas para com isso manter Marsden na série. O ator, aliás, torna sua posição nas séries quase uma tradição de “puxa e solta”. Em Westworld, da HBO, seu personagem também foi mantido na segunda temporada a duras penas. Aqui em Dead To Me, contudo, o ator tem o dobro do aproveitamento. Enquanto Steve era um sociopata, seu gêmeo é doce e terno. Apesar de ser uma virada folhetinesca, os roteiros vão encaixando a presença do personagem de modo coerente, aproximando-o de Jen, o que é suficientemente complicado para todos os envolvidos.

O fato é que dessa vez as personagens estão lidando com coisas extremamente perturbadoras. Um homem foi morto a sangue frio, o corpo está escondido no freezer da casa e há uma criança e um adolescente vivendo no recinto. Inevitavelmente, as possibilidades de humor vão diminuindo e o tom da história se concentra nas tensões. A cada episódio a situação das duas mulheres vai piorando e quando elas conseguem tapar um buraco, outro mais complicado surge. Entretanto, essa não é só uma série sobre desatar nós dramáticos e o planejamento nunca perde de vista que a sororidade é parte fundamental da ideia por trás da produção. Jen e Judy passam toda essa temporada fazendo concessões e sacrifícios uma pela outra.

Dead To Me também tem coadjuvantes que ajudam muito a temporada a se manter com o mínimo de leveza. Os vizinhos de Jen precisam de mais espaço e seus filhos continuam encantadores. Charlie (Sam McCarthy) tem problemas maiores que vão ficando mais graves, mas Henry (Luke Roessler) segue sendo uma das crianças mais adoráveis da TV. Ganhamos com a adição da estranha amiga do menino, a assustadora Shandy (Adora Soleil). Infelizmente a sogra de Jen tem pouco espaço, mas o novo interesse romântico de Judy e os terceiros que são arrastados para a história junto com ele também tem grande apelo. As dosagens de muito peso dramático e certo otimismo são devidamente calculadas e todo mundo sai ganhando.

Com um surpreendente e chocante gancho para uma próxima temporada (que deve acontecer diante da boa recepção da série), Dead To Me vai precisar de um novo conjunto de problemas, o que não deixa de ser muito animador. No terceiro ano devemos começar quase do zero, mas com uma lembrança primordial sobre do que se trata a série. Jen e Judy, de um jeito ou de outro, estarão sempre unidas contra a mediocriadade masculina, que impera não importa qual seja a máscara usada pelos homens.

Nota do Crítico
Ótimo