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Créditos da imagem: Dias Sem Fim/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Dias Sem Fim

Novo drama da Netflix é um conto triste e realista sobre um jovem oprimido pelo sistema americano e que tenta a todo custo se afastar do legado de seu pai

André Zuliani
06.05.2020
11h11

Talvez trama de Dias Sem Fim não seja considerada exatamente original. A história do garoto nascido e criado no gueto que tenta fugir para uma vida melhor e que, no caminho, se envolve demais com o que tanto tentou se afastar. Um filme que trabalhou muito bem esse contexto foi Os Donos da Rua, de John Singleton, indicado ao Oscar no início dos anos 90 e que ganhou o status de cult posteriormente.

À primeira vista, a relação entre as duas produções pode ser feita de maneira natural. Tanto Singleton quanto Joe Robert Cole, diretor do novo longa da Netflix, são cineastas afro-americanos que sabem das dificuldades de ser um homem negro em uma sociedade estruturalmente racista e que renega os que precisam de auxílio. E mesmo que Cole tenha bebido da mesma fonte que Singleton, isso não torna sua criação menos autêntica.

No filme, Ashton Sanders (Moonlight) vive Jahkor, um jovem negro residente em Auckland, na Califórnia, que é preso e sentenciado à prisão perpétua após assassinar um casal a sangue frio. No tribunal, questionado pela mãe de uma das vítimas sobre o motivo de ter cometido tal atrocidade, o garoto não esboça reação, sem mostrar um pingo de remorso. A partir daí, a direção de Cole divide o longa entre passado e presente: conhecemos a infância de Jah com os amigos sob o olhar do pai criminoso J.D. (Jeffrey Wright) ao mesmo tempo em que acompanhamos os meses anteriores ao crime e sua vida na prisão.

Antes da tragédia, o protagonista pretendia usar a música para garantir sua saída daquela vida, mas Dias Sem Fim não é sobre finais felizes. Não há vestígios de romantismo ou possível salvação. Desde o começo de sua vida, Jah sabia que não teria caminhos fáceis – e não fazia questão de buscá-los. Quem vê muita violência acaba se acostumando, comenta em sua narração durante mais uma cena de briga.

Sem poupar o espectador de qualquer choque de realidade, o roteiro, também escrito por Cole, nos mostra como é dura a vida daqueles que vivem acuados pelo sistema, mesmo os que não se envolveram com a criminalidade, algo bem representado em Lamark (Christopher Meyer), o amigo “certinho” que sofre com as sequelas de sua ida para o exército.

“A escravidão ensinou os negros a sobreviver, mas não a viver, Jahkor murmura em outro momento. Seus relatos são compostos por uma triste e implacável clareza. O desafio para o diretor é capturar essa realidade dolorosa, evocar uma história contínua de servidão psicológica e sistêmica, sem reduzir essas verdades duras a clichês previamente determinados. A dor desses personagens é real, profunda e parece condená-los desde o seu nascimento. Se Jahkor lutava para não ser igual ao pai, Cole destaca um sistema que dificulta esse embate em quase todos os aspectos da sua vida, seja no racismo no trabalho, na convivência com os bandidos ou na falta de recursos e empatia para ajudar as pessoas que precisam de auxílio. 

Outro ponto destacado pela narrativa é que o contexto criado por Cole não exime os seus personagens de culpa. Jah, seu pai e principalmente o amigo T.Q. (Isaiah John) tinham consciência de suas atitudes e para onde suas escolhas os levariam – o que justifica a apatia do protagonista durante a declaração de sua sentença.

Dias Sem Fim é um conto triste sobre um mundo problemático, e o toque do diretor se recusa a deixá-lo mais palatável para quem o assiste. Para quem criar algumas questões ao acompanhar a jornada de Jah, é melhor que não esperar por respostas fáceis. 

Nota do Crítico
Ótimo