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Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

(Des)encanto - 2ª parte

Do Inferno ao mundo steampunk, série expande ainda mais o seu universo, mas perde fôlego com tramas paralelas

André Zuliani
16.10.2019
15h23
Atualizada em
16.10.2019
15h53
Atualizada em 16.10.2019 às 15h53

Quem acompanha o trabalho de Matt Groening sabe que o criador de Os Simpsons e Futurama costuma brincar como ninguém com personagens mundanos e problemas do dia-a-dia, mesmo dentro das histórias mais fantasiosas. Quando a primeira parte de (Des)encanto chegou à Netflix, fomos apresentados a um estranho mundo medieval com magia, criaturas fantásticas e personagens com atitudes ainda mais questionáveis do que estamos acostumados a ver em suas obras. Dentro do seu formato já conhecido, foi uma estranha e agradável surpresa.

Os primeiros capítulos da segunda parte se propõem a desamarrar os nós deixados pelos 10 primeiros episódios. Conforme segue a linha narrativa principal, os capítulos fluem com naturalidade. O humor sarcástico do texto supervisionado por Groening faz com que não só a princesa Bean, mas Luci, Elfo e Rei Zog ganhem ainda mais destaque, cada um com uma piada mais infame do que a outra.

Enquanto a primeira parte funcionou mais como uma apresentação dos personagens ao público, foi apenas em seus momentos finais, com a busca pela criação do Elixir da Vida, que a trama ganhou mais agilidade. Após consolidar os papéis de cada um na história, os novos episódios têm como foco expandir ainda mais o universo de (Des)encanto, levando a viagens marítimas, celestiais (as passagens pelo Paraíso e o Inferno guardam alguns dos melhores momentos da temporada) e até uma visita ao mundo steampunk, tão explorado nos anos 1980 e 1990.

Mesmo com mais espaço para desenvolver os protagonistas, é nesse processo que os novos capítulos deixam a desejar. Conhecemos um pouco mais de Bean e sua necessidade de se encontrar na sociedade arcaica de Dreamland; Rei Zorg luta para sobreviver à nova vida sem suas rainhas e até mesmo o irmão-anfíbio Derek expõe seus sentimentos mais íntimos, mas toda a construção é feita com tramas paralelas sem o mesmo encanto que a narrativa principal. Apesar de cada um dos protagonistas ganhar personalidades mais bem definidas, a possibilidade de fazer episódios um pouco mais longos dentro do serviço de streaming não se encaixou com o material em mãos do showrunner Josh Weinstein. Alguns trechos parecem estar lá apenas para completar o tempo de 27 a 30 minutos.

Assim como na primeira parte, as referências a outras obras de cultura pop seguem presentes nos novos capítulos, de Game of Thrones a Ghost: Do Outro Lado da Vida. E não teria o dedo de Groening sem as críticas nas entrelinhas à sociedade estadunidense, sobrando até para o serviço público de saúde.

Mesmo com pontos negativos, a segunda parte tem ótimos momentos e deixa um gancho que promete explorar ainda mais os mistérios desse universo. Bean ainda tem muito a resolver – seja no reino de Dreamland ou consigo mesma – e (Des)encanto tem carisma de sobra para prender a atenção por mais algumas temporadas.

Nota do Crítico
Bom