Daybreak

Créditos da imagem: Daybreak/divulgação

Netflix

Crítica

Daybreak - 1ª temporada

Dando nova cara a velhos clichês de produções pós-apocalípticas, comédia da Netflix diverte com retrato do caos adolescente

Nicolaos Garófalo
28.10.2019
12h34
Atualizada em
28.10.2019
21h27
Atualizada em 28.10.2019 às 21h27

Longe de ser novidade em produções hollywoodianas, produções envolvendo zumbis em um cenário pós-apocalíptico seguem atraindo um público fiel, principalmente quando acompanhadas da promessa de mudança. Entre Todo Mundo Quase Morto e a franquia Zumbilândia, comédias que aproveitam o tema têm sido recebidas de braços abertos por fãs. Nova série da Netflix, Daybreak entra na onda desse sucesso para contar uma história de amadurecimento divertida, apesar de não apresentar nada revolucionário.

Inspirada na graphic novel de Brian Ralph, a comédia dá uma nova roupagem ao apocalipse zumbi, situando-o em um mundo em que, após uma guerra biológica, apenas jovens abaixo dos 19 anos sobrevivem, com os adultos restantes presos em formas irracionais, repetindo apenas o último pensamento que tiveram antes de suas mortes. É nesse cenário que Daybreak apresenta Josh (Colin Ford), um adolescente canadense que, graças a suas viagens para caçar com o pai, adquiriu grandes habilidades de sobrevivência e tem aproveitado ao máximo esse novo mundo.

Embora traga poucas novidades reais para o gênero, Daybreak aproveita o cenário adolescente para brincar com algumas de suas características mais frequentes – a divisão da sociedade sobrevivente em grupos, por exemplo, é classificada pelas clássicas panelinhas do colégio, com atletas, riquinhos e líderes de torcida dividindo a cidade em facções. Ao mesmo tempo, situações batidas de produções de amadurecimento são levadas ao extremo por conta do fim do mundo – a primeira menstruação de Angelica (Alyvia Alyn Lind), por exemplo, deixa de ser a típica passagem para a adolescência e se torna, brevemente, um risco de vida.

A mudança frequente do tipo de narração também diverte. O personagem principal muda de acordo com o episódio e, com isso, muda também o narrador e a maneira como ele conta a história: enquanto Josh e Angelica narram suas aventuras em primeira pessoa, Wesley (Austin Crute) vê sua vida narrada pelo rapper RZA, do Wu-Tang Clan.

Infelizmente, mesmo com sua dinâmica e com o leve chacoalhão dado nos clichês, Daybreak se apoia demais em referências, às vezes perdendo seu espectador. De Rei Arthur a Os Bons Companheiros, diversas produções são citadas ao longo da série, mas poucas realmente fazem sentido no contexto em que são apresentadas.

As reviravoltas da série também são inconstantes: enquanto o grande plot twist da série é cuidadosamente construído em pequenos detalhes espalhados em diálogos aparentemente aleatórios, mas que proporcionam uma conclusão satisfatória, outras surpresas menores, mas com certa importância para a trama, são apresentadas aleatoriamente e acontecem sem o menor preparo do roteiro.

Sendo uma comédia adolescente, o programa da Netflix também não escapa de algumas piadas relativamente toscas, como um pug mutante que monta em um valentão ou quando o diretor é envenenado com laxante. Com pouca criatividade, o humor barato dificulta o investimento emocional nas personagens, por mais carismáticas que elas sejam.

Além do trio principal, formado por Josh, Wesley e Angelica, a série conta com um elenco jovem promissor e divertido. Entre Eli (Gregory Kasyan), Sam (Sophie Simnett) e Turbo (Cody Kearsley), é impossível, ao fim de Daybreak, não se identificar com algum dos jovens e seus sentimentos e hormônios à flor da pele. Ainda assim, a dupla de adultos – talvez os únicos dois sobreviventes ao apocalipse – é a mais divertida. Mrs. Crumble (Krysta Rodriguez), antiga professora de biologia dos jovens da série, se torna uma pseudo-zumbi, alternando lapsos de racionalidade com constantes hilárias de loucura, mas, contra todos os seus instintos, controla sua fome por humanos e protege as crianças do melhor jeito que pode. Já Matthew Broderick,além da estar lá pela homenagem a Curtindo a Vida Adoidado, encarna um dos vilões mais engraçados dos últimos anos com o diretor Michael Burr, que vai de um dedicado membro do corpo docente a um perigoso canibal num piscar de olhos.

Mesmo preso em lugares-comuns do gênero, Daybreak diverte pela precisão de seu retrato da adolescência e pelo discurso atual de seu roteiro. Longe de ser perfeita, a série conta com um elenco carismático e talentoso que ajuda a relevar os defeitos em prol da diversão.

Nota do Crítico
Bom