The I-Land

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

The I-Land

Tentando parecer inteligente, minissérie se perde no próprio conceito

Nicolaos Garófalo
19.09.2019
10h00
Atualizada em
20.09.2019
01h21
Atualizada em 20.09.2019 às 01h21

Estou cansada de jogar sob suas regras sem sentido”. A frase é dita por Chase (Natalia Martinez, de CSI: New York) após mais uma desnecessária reviravolta, mas resume muito bem o sentimento de assistir The I-Land, minissérie de ficção científica da Netflix. Cercada de clichês e desprovida de coerência, a produção é exemplo de como não fazer em uma série de ficção científica.

Na trama, dez desconhecidos acordam sem memória em uma ilha deserta, cada um acompanhado de um apetrecho útil para sobrevivência, como uma faca, uma machadinha, uma bússola etc. Logo no primeiro diálogo da série, Chase e KC (uma desinteressada Kate Bosworth) criam uma rixa sem motivo, que só piora quando ambas se interessam por Brody (Alex Pettyfer, de Eu Sou o Número Quatro). Irrelevantes, os outros sete membros do grupo só são lembrados em momentos de tensão mal preparados, como ataques de tubarão ou discussões que parecem brigas entre adolescentes.

Apressada, The I-Land tenta compactar em dois episódios o que Lost só conseguiu em duas temporadas. Em oitenta minutos, Chase e KC são assediadas por Brody, com a primeira sendo tratada como louca pelo grupo. O rapaz, inicialmente, não sofre nenhuma consequência, se colocando como líder, algo que todos aceitam apesar das acusações de Chase e da clara mudança de comportamento de KC.

[Cuidado com spoilers a partir deste ponto]

A primeira grande tentativa de reviravolta da série vem com o final do segundo capítulo: Brody é encontrado morto, esfaqueado com um punhal que estava em posse de Chase. Sem nem tentar entender o que aconteceu, o grupo parte direto para o linchamento, fazendo com que a protagonista acorde em uma prisão futurista. Surpresa que seria revigorante para a minissérie, se não tivesse sido entregue por seu trailer oficial. 

Em um capítulo cheio de exposição, descobrimos que os dez presentes na ilha são, na realidade, criminosos (conceito similar ao de O Predador, de 2018) e a I-Land é uma segunda chance de eles provarem que conseguem viver em sociedade sem repetir os crimes que os condenaram. Descobrimos também que Chase teve um ótimo treinamento militar, sendo capaz de enfrentar, amarrada, cinco enormes guardas sozinha, apesar de mal conseguir se virar contra os colegas de ilha.

A partir daí, a produção perde qualquer esperança de salvação. Jogada de volta para a “simulação” da ilha – onde sua morte virtual implica na morte real – Chase é novamente desacreditada ao contar sobre o mundo real, até que dois guardas, disfarçados com os nomes Bonnie (Clara Wong) e Clyde (KeiLyn Durrel Jones), rapidamente confirmam as falas da moça – que ainda assim continua sendo isolada pelos sobreviventes.

É preciso dizer que The I-Land se esforça, com tentativas de grandes viradas em todos os seus capítulos. Dizer que as reviravoltas da série são óbvias, aliás, seria injusto. Para isso, elas precisariam fazer algum sentido. Do relacionamento entre Chase e Cooper (Ronald Peet) fora da simulação aos crimes cometidos por cada personagem, nada é devidamente explorado ou explicado, as coisas simplesmente acontecem.

O roteiro pouco ajuda. Quando não está dando voltas em sua própria falta lógica ou jogando minutos ininterruptos de exposição, o trabalho de Neil LaBute e Lucy Teitler entrega personagens vazios, diálogos absurdos e clichês retirados de produções infinitamente melhores. Isso sem contar o cartunesco vilão Diretor Wells (Bruce McGill), personificação do estereótipo que o mundo tem dos moradores do Texas.

As atuações da série são tão fracas quanto o texto. Martinez tem apenas duas expressões ao longo da produção, alternando entre Chase-incrédula e Chase-sarcástica; Bosworth entrega os diálogos de maneira mais esquecível e preguiçosa possível e a interpretação travada de Pettyfer faz o espectador questionar se está vendo uma minissérie roteirizada ou uma peça de teatro feita por crianças do ensino fundamental.

Uma das piores produções originais da Netflix até hoje, The I-Land bebe de muitas fontes (como Lost, Fringe, A Origem e até Interestelar) para parecer uma série “inteligente”, mas não consegue entregar, ou ao menos entender, os conceitos em que se inspira. Mais focada em surpreender do que entreter, a minissérie acaba não fazendo nenhuma das duas coisas.

Nota do Crítico
Ruim