Boyd Holbrook em Sombra Lunar/Netflix/Divulgação

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Sombra Lunar

Ficção-científica entretém, mas trama requentada condena filme a ser só mais um nome no catálogo da Netflix

Nicolaos Garófalo
01.10.2019
21h00

Na maioria das vezes, ao entrar no cinema ou escolher um filme inédito no streaming, procura-se na produção uma surpresa, uma reviravolta que mude, de uma cena para a outra, o significado da sessão inteira. Uma história que fuja do óbvio, um roteiro corajoso ou uma direção inspirada. Infelizmente, Sombra Lunar, nova ficção-científica da Netflix que explora a vida de Thomas Lockhart (Boyd Holbrook, de Logan)e sua caçada a uma misteriosa serial killer ao longo de 27 anos, está longe de ser surpreendente.

Policial em começo de carreira na Filadélfia, Lock deixa a mulher grávida para o que deveria ser uma ronda noturna normal quando, em quatro pontos diferentes da cidade, quatro pessoas sem qualquer ligação entre si são encontradas com hemorragia, tendo seus cérebros liquefeitos vazando por orelhas, olhos e narinas. Aspirante a detetive, o novato passa a acompanhar o caso de perto graças ao cunhado, Holt (Michael C. Hall, de Dexter), responsável pela investigação.

Apesar de desproporcionalmente sangrento em relação ao restante do filme, o primeiro ato de Sombra Lunar cumpre bem a função de apresentar seu personagem principal. A ambição de Lock e seu apego ao caso nos minutos iniciais tornam crível sua obsessão quando a serial killer, misteriosamente, retorna dos mortos nove anos mais tarde. Essa nova leva de assassinatos eleva o tom de suspense e o jogo de gato e rato entre detetive e assassina abre portas para boas cenas de ação, como a perseguição em alta velocidade em uma estrada nos arredores da Filadélfia.

A intensidade de Boyd Holbrook interpretando um homem cada vez mais obcecado é impressionante: o ator vive alguém que, aos poucos, vai se entregando à loucura e, não fosse a falta de interação com o mundo ao seu redor, seria difícil não se emocionar com essa evolução. Mesmo com a boa apresentação e uma caracterização decente de Lock – mais graças à atuação de Holbrook do que ao medíocre trabalho de maquiagem -, é difícil manter a boa vontade com os outros personagens. Michael C. Hall tem pouco material para trabalhar e o pouco desenvolvimento de Holt é entregue por diálogos soltos, manchetes de jornais jogados ou transmissões de noticiário. Nem mesmo Amy (Sarah Dugdale), filha do protagonista, tem espaço real na trama.

À medida que deixa a assassina escapar a cada nove anos, o policial deixa de lado seu trabalho, sua família e sua sanidade, com todos ao seu redor questionando sua teoria de que as esporádicas mortes seriam causadas por uma viajante do tempo. Roteiristas do filme, Geoffrey Tock e Gregory Weidman poderiam ter seguido por um caminho mais corajoso no segundo ato, revelando, por exemplo, que Lockhavia, realmente, ficado louco. Infelizmente, a dupla toma o caminho cliché, requentando de maneira preguiçosa a premissa de viagem temporal, entregue de uma maneira quase ofensiva pelo diretor Jim Mickle.

O suspense e as boas sequências de ação da primeira hora e meia são trocados por diálogos expositivos – e extremamente mal explicados –, uma revelação absolutamente sem propósito e um final meloso demais para um filme que, em seus três primeiros minutos, fritou o rosto de um homem em uma chapa de hambúrgueres.

Divertido apesar de pouco inspirado, Sombra Lunar entretém o espectador com ação decente e a dedicação necessária de seu ator protagonista. Ainda assim, não faz bom proveito de um dos temas mais fascinantes da ficção-científica, condenando a produção da Netflix ao esquecimento do rico catálogo da plataforma, cheia de opções mais interessantes com o mesmo tema.

Nota do Crítico
Bom