O Silêncio do Pântano

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

O Silêncio do Pântano

Talento de Pedro Alonso, o Berlim de La Casa de Papel, não sustenta novo suspense desinteressante da Netflix

André Zuliani
25.04.2020
14h44
Atualizada em
27.04.2020
11h46
Atualizada em 27.04.2020 às 11h46

O sucesso de La Casa de Papel alavancou a carreira de muitos atores de seu elenco. Como bem pontuado no documentário La Casa de Papel – O Fenômeno, o número de propostas que os agentes receberam pelos clientes em ascensão aumentaram. Produções como Elite, também da Netflix e que levou de uma só vez Miguel Herrán (Rio) e Jaime Lorente (Denver), se aproveitaram da evidência dos artistas para potencializar a possibilidade de sucesso. O Silêncio do Pântano, que conta com Pedro Alonso (Berlim), é apenas mais um filme dentro do serviço de streaming que também usou essa estratégia para melhorar o seu rendimento. O problema é que só o talento de uma pessoa não sustenta a qualidade de um filme. Esse é o caso de O Silêncio.

A trama em si, um suspense psicológico, é até interessante. Alonso vive um escritor da cidade de Valência, na Espanha, que fez sucesso com uma série de livros sobre um assassino psicopata que mata suas vítimas sem motivo aparente. Segundo ele mesmo revela a uma fã: “porque ele pode”. A direção de Marc Vigil, então, coloca a história do escritor e seu personagem, nunca efetivamente nomeados, em contraste: Alonso interpreta ambos e nunca fica claro quem ele está representando.

Para quem assiste, a interpretação é sempre dúbia. Quem está visitando o irmão, o escritor ou o assassino? Quem está a assistindo ao noticiário que revela a investigação sobre o ex-ministro federal Ferrán Carretero (José Ángel Egido), responsável por iniciar a principal dinâmica do filme? A narrativa do suspense é construída pela direção com muito cuidado e convence. A trama em torno do segredo de Carretero promete desenrolar grandes conflitos, e os problemas começam quando esses conflitos ficam apenas na promessa.

O desenvolvimento torna os acontecimentos seguintes pouco interessantes. Conhecemos Puri (Carmina Barrios), uma velha traficante de drogas que parece que pode perturbar a ordem mundial apenas sentanda em sua cadeira. Ela manda seu confiável braço direito, Falconetti (Nacho Fresneda, extremamente ameaçador, uma mistura do Machete de Danny Trejo com o psicopata de Javier Bardem em Onde os Fracos Não Tem Vez) para agir. Ele é alguém que prefere machucar antes de falar – e isso é uma característica muito importante para narrativa. Contudo, suas ações não causam o impacto que o roteiro prometia desde o início.

O Silêncio do Pântano é um thriller de gato e rato sem grandes ambições. A estrutura é minimalista, com duração curta (92 minutos). Há apenas quatro personagens com realmente algo a dizer, e não é muito. Mesmo o assassino, que no início faz uma análise interessante sobre a sociedade de Valência envolvendo o pântano do título com enguias e outros animais grotescos, não acrescenta muito mais do que isso. A presença de Alonso em cena é de fato marcante e seu personagem, apesar de ter uma personalidade muito diferente de Berlim, é tão ameaçador quanto – e isso é desperdiçado ao final da produção.

Embora a ambiguidade possa tornar um filme muito mais interessante, a ausência de um verdadeiro destaque para o protagonista não ajuda. O citado monólogo metafórico sobre enguias no pântano deveria nos dar algo um pouco mais concreto sobre quem ele é, mas, ao contrário, parece aleatório e pretensioso – quase jogado. Como muitos títulos espanhóis recentes da Netflix, O Silêncio no Pântano promete mais do que pode cumprir.

Nota do Crítico
Regular