Naruna Costa e Seu Jorge em cartaz de Irmandade/Netflix

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Irmandade

Série tropeça ao não aprofundar personagens, mas recompensa quem chega ao final da trama

Jacídio Junior
31.10.2019
01h32

Nova produção brasileira da Netflix, Irmandade, apresenta uma premissa interessante: Mostrar o surgimento de uma facção criminosa no interior de uma cadeia brasileira superlotada na década de 90. Essa é, sem dúvida, (apesar do número de produções que buscam versar sobre esse universo) uma daquelas histórias que, por conta de suas complexidades e muitos acasos, permitiriam uma abordagem ampla e cheia de nuances, com personagens capazes de desafiar o público.

No entanto, logo nos primeiros minutos da série, essa possibilidade cai por terra. Irmandade é uma história apresentada em oito episódios, mas os quatros primeiros têm um funcionamento bem simplificado e demandam bastante vontade de quem assiste para chegar aos melhores momentos. Isso parece efeito direto de uma tentativa de descomplicar narrativas que poderiam ser complexas e multifacetadas com o objetivo de atingir um público maior.

Porém, a boa direção de arte e a escolha de atores reconhecidos por entregar boas performances acaba recompensando o esforço para passar os primeiros episódios.

Irmãos que lutam pelo certo

O início da trama apresenta a história de Cristina (Naruna Costa), mulher idealista que trabalha no Ministério Público e que diante da descoberta de que o irmão, que não vê desde a infância, Edson (Seu Jorge) está preso e sendo submetido a abusos, muda a rota da sua vida para ajudá-lo. Esse é o estopim para a retomada de laços familiares quebrados há muito tempo por um pai que queria o que era “certo” a ponto de tomar qualquer atitude, até mesmo separar a família, para manter esse mantra vivo.

Com a descoberta do paradeiro de Edson em perspectiva, a premissa de mostrar a forma como cada personagem vê sua ética e como essa abordagem cria e altera as relações de cada um é algo que se mostra interessante desde o primeiro instante. No entanto, a abordagem desses pontos fica na superfície e em diversos momentos se apoia no estereótipo do negro pobre de periferia que na prisão se rebela sem que exista uma reflexão ou a apresentação menos enviesada do ser que está sendo representado na tela. Essa aposta em conjunto com as opções simples de direção faz com que grande parte da narrativa inicial seja comum e até mesmo desinteressante.

Até mesmo quando, em alguns pontos da trama, o verniz superficial da história e dos personagens é quebrado, a opção por uma linguagem cinematográfica simplificada demais, faz com que a conexão com o que acontece não seja fluída, levando toda a experiência para um ponto de desinteresse.

Apenas quando os dramas familiares - ponto que serve de fio condutor para algumas histórias - ganham destaque e o núcleo ligado por esta figura paterna autoritária surge, a entrega é mais impactante, com performances instigantes. Grande parte dos bons momentos da série acontecem quando podemos acompanhar as conversas familiares e os dramas. Em conjunto com essas oportunidades bem aproveitadas, outra boa surpresa é a aparição de Ivan, vivido por Lee Taylor, que entrega uma performance marcante desde seu primeiro momento na tela. As escolhas do ator para dar vida ao personagem são certeiras e cada participação sua serve bem à história.

Uma trama de relações

Apesar da apresentação de Irmandade enfatizar bastante o tópico do nascimento de uma facção criminosa dentro da prisão, é perceptível que o foco da trama está sempre nas relações interpessoais. Isso vai ficando cada vez mais nítido à medida em que os episódios vão passando, com os dramas de convivência entre os personagens ganhando cada vez mais peso enquanto a ação perde nos detalhes mal-alinhados (escolhas de fotografia e até mesmo na coreografia). Assim, quando família ou amizade estão em risco, roteiro e direção se encontram em um bom patamar e garantem aos atores mais possibilidades para apontar os caminhos de seus personagens, o que dá um pouco mais de força à série.

A recompensa vem com a evolução final

Os 4 últimos episódios, depois da jornada inicial, apresentam um ritmo bem mais coeso e interessante. As escolhas de fotografia e de edição garantem força à tensão que toma conta das decisões de cada um dos núcleos vistos na tela.

É possível sentir a construção desses momentos de maneira clara e isso transforma a narrativa e a forma como a história passa a ser percebida. Aly Muritiba - creditado pela direção de três desses episódios -, dá uma nova dinâmica à forma como tudo caminha e encaixa de maneira intrigante os momentos que antecedem o final da temporada.

Tempo é dinheiro

Desse contraste entre o início e o final, fica a impressão de esta é uma produção que poderia ir mais longe e entregar mais ao apostar em criações complexas para personagens em conjunto com uma linguagem mais eficaz e capaz de desafiar a audiência. Uma série com 8 episódios não pode deixar o seu melhor somente para a segunda metade da trama, principalmente quando essa melhoria não fica só sob o guarda-chuva do encerramento de um arco de história, mas também nas escolhas técnicas.

Em todo caso, insistir em Irmandade acaba valendo a pena, principalmente para entender como mudanças na linguagem audiovisual criam novas possibilidades e transformam a entrega final. Um exercício para quem está em busca de compreender melhor as diversas formas de melhorar uma narrativa.

Nota do Crítico
Bom