Cena de Criminal UK/Netflix/Divulgação

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Criminal

Antologia policial da Netflix encontra equilíbrio entre suspense e desenvolvimento de personagens, mesmo com curtas temporadas

Nicolaos Garófalo
27.09.2019
13h00
Atualizada em
27.09.2019
13h27
Atualizada em 27.09.2019 às 13h27

Quando anunciado, Criminal parecia um projeto ambicioso demais da Netflix. Afinal, a série estava sendo vendida como uma franquia, com doze episódios separados em curtas temporadas baseadas no Reino Unido, Espanha, Alemanha e França, cada qual com seu crime específico a ser desvendado pela equipe responsável pelo interrogatório. Independente de qual país o espectador escolha como primeiro “bloco” para assistir, a tensão da sala de entrevistas é sentida e, no clima claustrofóbico criado pela limitação do cenário, o público se sente, alternadamente, nos papéis de detetive e suspeito.

Apesar de não fazer diferença, a chance de o público brasileiro começar a assistir a série pelos blocos britânico ou espanhol são grandes: o primeiro conta com nomes atraentes como David Tennant (Doctor Who, Jessica Jones, Belas Maldições e Harry Potter) e Hayley Atwell (Black Mirror e MCU) e o segundo, com a proximidade da língua. Ainda assim, as temporadas alemã e francesa também servem como ótimo ponto de partida, já que as quatro são estruturalmente parecidas, tornando a experiência de assistir Criminal mais agradável a cada episódio.

Diferentemente de outras séries policiais, a produção não acompanha as várias fases de um caso policial. O foco da série é o último interrogatório de cada suspeito, liderado por uma equipe especializada em analisar cada detalhe do crime e dos depoimentos, em busca de qualquer peça que não encaixe.  Com um roteiro preciso e bem amarrado, Criminal mostra, em quarenta minutos, um desenvolvimento completo de personagens, com suspeitos mostrando seus caráteres verdadeiros logo que uma pergunta é feita.

Mesmo acompanhando equipes de quatro a seis membros por apenas três episódios, a evolução de seus arcos é perceptível e, ao fim de cada temporada, fica claro o que cada detetive é ou não capaz de fazer para solucionar um crime. Entre as quatro séries, a alemã é a que menos aproveita seu elenco, focando nos detetives Schultz (Sylvester Groth, de Bastardos Inglórios) e Keller (Eva Meckbach) e delegando os outros personagens a meros espectadores. 

Em cada bloco, algum policial tem algo a provar: o alemão Schultz quer resolver um caso de vinte anos; a espanhola Maria (Emma Suárez, de Julieta) está perto de finalmente prender o traficante que atropelou sua irmã; a inglesa Hobbs (Katherine Kelly) tenta manter sua unidade; e a jovem francesa Audrey (Margot Banchilhon) procura o respeito de colegas mais experientes que acham que ela não merece o cargo que tem. Mesmo que os resultados não sejam alcançados, ver o que e como se forma a personalidade de cada um ao final de cada parte da antologia policial é um sentimento satisfatório, especialmente pelo fato de a série se conter para não exagerar em desnecessários diálogos expositores.

O cenário claustrofóbico também é outro ponto forte da série. Idêntico nos quatro países, o set de Criminal é composto da sala de interrogatório, a antessala atrás do vidro espelhado e do corredor que liga as duas ao elevador. Essa similaridade garante que não haja estranheza, por exemplo, ao mudar de uma série para a outra, tornando a troca natural. Já não bastasse o espaço limitado da produção, os closes em monólogos – de detetives e suspeitos – faz com que seja impossível se identificar com apenas um lado. As reações a cada nova prova apresentada ou resposta atravessada de advogados torna o cenário uma verdadeira panela de pressão e faz com que 40 minutos de série passem voando.

Com uma premissa um pouco assustadora para quem já está acostumado a seguir séries policiais, a antologia é um sopro de ar fresco no gênero e um investimento bem pago do espectador e do streaming. Se a Netflix teve pequenos problemas com a crítica de suas produções originais recentemente, Criminal prova que a plataforma ainda tem fôlego – e ideias – de como produzir TV de alta qualidade.

Nota do Crítico
Ótimo