Leia a crítica da 1ª temporada de Caçadoras de Recompensas, nova série da Netflix

Créditos da imagem: Divulgação/Netflix

Netflix

Crítica

Caçadoras de Recompensas - 1ª Temporada

Série produzida por criadora de Orange is the New Black atira para todos os lados e só funciona quando as protagonistas não caçam ninguém.

Henrique Haddefinir
17.08.2020
19h38

Jenji Kohan foi o que podemos chamar de uma das pioneiras do Netflix. Foi com Orange Is The New Black e outros poucos títulos originais, que a plataforma começou a se tornar um dos gigantes do mercado, se mantendo, ano após ano, entre as empresas mais consumidas e mais premiadas do meio do entretenimento. Esse primeiro grande sucesso de Kohan foi completamente apoiado no poder das narrativas femininas vigentes. A série das prisioneiras cobria uma parte considerável desse universo e abriu várias portas para produções que vieram depois. Hoje, anos a frente, o streaming vive um momento em que boa parte de sua força mercadológica está concentrada num gênero bem diferente: as séries teen.

Kohan não é exatamente a criadora de Caçadoras de Recompensas – que fica a cargo de Kathleen Jordan. Mas, uma olhada panorâmica no produto final vai revelar que provavelmente a série foi idealizada por muitas mãos. A atração é fruto da mais pura ansiedade criativa, como se houvesse uma preocupação constante em cobrir todas as frentes, angariando espectadores que estão em busca de tramas adolescentes, histórias de investigação, comédias românticas e umas pequenas doses de erotismo juvenil. Caçadoras de Recompensas quer ser tanta coisa que acaba parecendo pernóstica, distraída, como alguém que chega num lugar novo e acaba não olhando para nada direito justamente porque quer olhar para tudo ao mesmo tempo.

É claro que essa mutação dramatúrgica não é novidade na televisão, mas existe uma pequena diferença entre tocar em outros gêneros como parte de uma complementação narrativa e acabar descaracterizando uma obra mudando sua identidade ao gosto do freguês. A história de duas adolescentes que acabam se tornando caçadoras de recompensas pode ser interessante se isso não for tratado como uma série matinal da Disney. Mas, o problema da criação de Kathleen está justamente na premissa que vendeu a produção. Caçadoras de Recompensas consegue ser boa como Sex Education quando foca na vida escolar das protagonistas, mas acaba se tornando superficial como um sitcom dos anos 90 quando coloca as duas para capturar suas vítimas.

As duas primeiras sequências da série são o exemplo maior disso tudo. O primeiro episódio começa quando Sterling (Maddie Phillips), a mais conservadora das “gêmeas”, consegue convencer o namorado extremamente religioso a perder a virgindade com ela, dentro do carro, usando passagens bíblicas para isso. Do outro lado da rua, sua irmã Blair (Anjelica Bette Fellini), que se autointitula “a mais safadinha da dupla”, não consegue ir adiante com seu pretendente. A cena demarca perfeitamente que essa será uma trama de contrapontos sobre conservadorismo, o que para o mundo vigente pode ser muito relevante. Contudo, na sequência seguinte, em que as duas batem por acaso no carro de um homem que está fugindo do caçador de recompensa Bowser (Kadeem Hardison), tudo se resolve com a complexidade de um trabalho escolar de primeiro ano.

As caçadoras que não recompensam

Embora os momentos em que Sterling e Blair saem nas suas missões soem como um procedural inofensivo, isso não quer dizer que tudo seja feito de forma errada. Essa parte da vida das protagonistas é quase infantil. Mas, ao mesmo tempo, elas levam armas carregadas que empunham como a clássica juventude republicana do país. Na primeira cena da série - essa que mencionamos aqui - elas já abordam o homem que Bowser persegue com armas em punho, mesmo tendo apenas 16 anos de idade. A coisa toda é proposital, é claro. As meninas estão inseridas num contexto extremamente conservador, que inclui promessas de virgindade, horas de oração e perfeito manuseio de espingardas e pistolas.

É nesse contexto que reside o grande trunfo da série. Blair, inclusive, perde espaço para Sterling, que tem conflitos pessoais muito bem organizados. Ao contrário do que vemos na maioria das produções do tipo, ela tem uma relação tranquila com Deus, que ela entende ser capaz de aprovar suas necessidades carnais. Entretanto, o meio social onde está inserida é cruel, mordaz, sufocante. A escola é cercada de pessoas que estão esperando muito pouco para condenar ao inferno um dos frequentadores. Além disso, não é só uma questão de julgo; aquela pressão reverbera na família, nas expectativas acadêmicas, em tudo que Sterling considera parte de sua identidade. O crescimento da personagem a partir da interação com April (Devon Hales) também é outro ganho da trama. Sempre que pode, o roteiro ousa em pontos específicos e a amizade delas é uma das grandes bases desse conceito.

As ambiguidades, contudo, seguem por toda parte. A cena em que Sterling e Blair discutem o primeiro orgasmo, por exemplo, é digna de um dos episódios da incrível Sex Education. Mas, elas saem para uma missão logo em seguida e pronto, já estamos num episódio de Hannah Montana de novo. O terrível efeito que ilustra os momentos em que elas dialogam uma através da mente da outra parecem saídos de As Visões de Raven, mas, logo em seguida, uma bela canção do Radiohead encerra os acontecimentos do dia. Enfim, apesar do bom entretenimento que a série proporciona, ela precisa de uma identidade.

Caçadoras de Recompensas termina com vários ganchos para uma provável segunda temporada, o que dá aos produtores a oportunidade de aparar as arestas desnecessárias. Embora seja uma colcha de retalhos, precisamos admitir uma coisa a respeito: as colchas de retalhos podem ser velhas, mas elas ainda nos aquecem.

Nota do Crítico
Bom