Cheer - 1ª Temporada

Créditos da imagem: Divulgação/Netflix

Netflix

Crítica

Cheer - 1ª Temporada

Documentário da Netflix choca ao revelar as dores metafóricas e literais de um grupo campeão de líderes de torcida.

Henrique Haddefinir
16.02.2020
21h45

Os EUA são uma nação extremamente competitiva e dominante. Além de tentar estar à frente em todo tipo de esporte universal, eles tem seus próprios investimentos na área, como o baseball e o futebol americano, que não aparecem com naturalidade em outras partes do mundo. Não por coincidência, essas são as modalidades que mais inflamam as reações dos nativos. Junto com o esporte, as instituições de ensino também profissionalizaram as torcidas. Crescemos aqui na América Latina assistindo a comédias adolescentes em que sempre havia uma menina com saia curta e pom pom gritando o nome de um time na lateral de um campo.

Nossas impressões sobre os “líderes de torcida” (como as dublagens dos filmes chamam o esporte por aqui) sempre foram restritas ao imaginário cultural pop: filmes, séries, onde um grupo de meninas loiras, magras e más eram as parceiras ideais dos brutamontes que jogavam aquele futebol extremamente violento que é tão amado do lado de lá. Com o tempo os meninos começaram a aparecer nos grupos e séries como Glee jogaram uma luz específica em torno de como funcionavam as engrenagens desses torcedores, que funcionam quase como uma sociedade específica. “Torcer” sempre foi uma questão de força, competição e popularidade.

Cheer, o novo documentário da Netflix, foi dirigido por Greg Whiteley, que já tinha mostrado a dura rotina de times de futebol escolar, na também série documental Last Chance U. Foi entre as filmagens das temporadas desse documentário que Whiteley começou a olhar com outros olhos para os treinos dos líderes de torcida. A universidade Navarro, numa pequena cidade do Texas, foi escolhida para ser observada por todo o período de preparação para a grande competição entre líderes de torcida, em Daytona, na Florida. O time é preparado por Monica Aldama, a Sue Sylvester da realidade. Só que mais bem sucedida e mais amável. No entanto, igualmente implacável.

A série documental não inova na linguagem, focando-se em alguns dos jovens que compõem o time. Gabi Butler é a “líder alfa”, super popular e que faz dinheiro sendo influencer, enquanto os pais ignoram totalmente o quanto ela está sobrecarregada. Morgan Simianer esconde um passado de abandono por trás de redes sociais perfeitas. Lexi Brumback luta contra o ímpeto de sempre tomar as decisões erradas ao invés de se manter na linha. Ainda temos o gay assumido do time La’Darius Marshall, que sofreu abusos por toda a infância e não era aceito pela família; e o pilar de otimismo Jerry Harris, que se tornou a figura carismática principal da narrativa. Além, é claro, de outros jovens que surgem em flashes durante os seis episódios.

Cheers Ups and Downs

O contraste entre o que a mídia propagou sobre o esporte e sua realidade é o maior ganho de Cheer. Ao invés da profusão colorida em chuvas de papel picado que aparecem nos filmes e séries, a série documental é extremamente discreta, algumas vezes até mesmo melancólica e fria. A direção não tenta procurar modelos de superação em cada novo dia de treino e passa pelos meses e dias que antecedem a grande competição sem apressar o passo. Eventualmente, as vidas dos participantes do time vão sendo afetadas por incidentes inevitáveis, lesões, reviravoltas, que obrigam a narrativa a ir se desviando de um ponto para outro. Por vezes, inclusive, a edição acaba soando até mesmo um pouco desorganizada.

Os dramas ali não estão longe da realidade de muitas das escolas e universidades de qualquer país, mas é sempre fascinante acompanhar a maneira autocentrada com a qual a própria cultura norteamericana se comporta. A escolha pelo Texas, numa cidade tão pequena e conservadora, tem sua dose de provocação. Enquanto os modelos familiares e as tradições estão dispostos a confirmar o poder da velha América, a realização do documentário obriga os seus objetos de observação a lidar com mudanças necessárias na nova organização sócio-política do mundo. Cheer fala de aceitação e tolerância com propriedades limitadas, como se não quisesse ameaçar a paz da pacata cidade texana. Havia mais a ser feito, sem dúvida nenhuma.

Conforme os episódios passam, vamos sendo apresentados a nomes de movimentos e tipos de coreografias que clareiam a profundidade do esporte e ele sai da superficialidade com o qual estamos acostumados a vê-lo. As vidas daqueles jovens são realmente transformadas e a disciplina que eles alcançam acabam protegendo-os de muitas barbáries. Cheer quer nos mostrar que a modalidade não está mais tomada daquela maldade pró-popularista dos filmes adolescentes, mesmo que, no final das contas, estar no time de futebol ou no time de líderes de torcida represente um status que não existe mais em nenhum outro setor de uma instituição escolar.

Além disso, o senso de competividade é tão avassalador que se esquece de questões importantes como o futuro. Ainda que o resultado desse acompanhamento seja extremamente positivo, ainda fica uma sensação estranha de que para os EUA os jovens que estão nos esportes, que lutam e se machucam quase definitivamente, merecem uma espécie de reverência especial, descriteriosa, mesmo que isso seja tão transitório em suas vidas. Cheer não toma partidos e deixa seu espectador concluir o que quiser, sobretudo quando não esconde que nem tudo dá sempre certo. Os olhares de fora estão todos atentos ao que eles estão fazendo (eles agora são celebridades). A pergunta é: alguém está olhando de dentro?

Nota do Crítico
Ótimo