Carta ao Rei

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Carta ao Rei

Com narrativa rasa e personagens fracos, nova série medieval da Netflix mais parece uma produção ruim dos anos 90

André Zuliani
26.03.2020
11h36
Atualizada em
26.03.2020
11h52
Atualizada em 26.03.2020 às 11h52

O enorme sucesso de Game of Thrones na década de 2010 colocou o nível de cobrança dos fãs por uma boa história clássica de eras medievais no topo. Milhões de pessoas acompanharam a saga de Jon Snow, Daenerys, Tyrion e muito outros personagens – entre vivos e mortos – que abocanhavam o coração do público todo domingo à noite. Isso sem contar o que Peter Jackson fez com a adaptação da saga O Senhor dos Anéis ainda no começo deste século – 11 Oscars apenas para o último filme da trilogia e o nome marcado de vez na história do cinema. Com todo um histórico recente de grandes sucessos do gênero, é compreensível que o público espere sempre mais das narrativas que os estúdios se arriscam a lançar com as mesmas características. The Witcher, que estreou no final de 2019 na Netflix, não chegou a ser uma série que mexeu com a internet igual à criação de George R.R. Martin, mas tinha um público fiel vindouro dos livros/games e conseguiu utilizar o material original para criar uma história digna de elogios. Infelizmente, não é o caso de Carta ao Rei.

Baseado no livro escrito pela holandesa Tonke Dragt, a obra vendeu mais de três milhões de cópias e é considera leitura quase obrigatória em seu país. O início da trama não apresenta nada de novo: uma profecia é citada logo nos primeiros instantes, dizendo que uma escuridão se aproxima e cobrirá a humanidade de horrores, até que um jovem herói apareça e salve a todos com sua luz. Corta a cena e conhecemos Tiuri (Amir Wilson), um adolescente da alta sociedade que é destinado a se tornar um cavaleiro para proteger seu reino. Durante o torneio que definiria o seu futuro, o jovem tem um encontro com um misterioso guerreiro prestes a morrer que o incube de uma ingrata tarefa: entregar uma carta ao poderoso rei de Unawen, reino vizinho à Dagonaut, onde mora com sua mãe e padrasto. O seu conteúdo, claro, poderá mudar o destino de milhões de pessoas e impedir que a profecia se realize.

Carregado de imensuráveis clichês, o sofrível piloto faz um péssimo trabalho apresentando a narrativa e seus personagens, a começar pelo seu protagonista. Mesmo ciente de sua falta de habilidade como cavaleiro – sempre muito destacada até pelo seu próprio treinador – Tiuri, como um bom herói da ficção, é tomado por um senso de justiça que o faz cumprir a promessa feita ao cavaleiro moribundo. Como em um piscar de olhos, começamos a acompanhar sua jornada sem ao menos criarmos um elo com ele ou qualquer outro personagem. Sabemos apenas que o príncipe Viridian (Gijs Blom), segundo na linhagem do rei de Unawen e líder do exército, venceu uma guerra centenária contra Evilliam, terra natal de Tiuri, e está caçando xamãs para tomar para si seus poderes e, com isso, reinar por todo o continente.

A velocidade com que a trama avança é feita de maneira agressiva, faltando tempo para aprofundar novos personagens. Todos parecem superficiais: Lavínia (Ruby Ashbourne Serkis, filha de Andy Serkis, que faz breve participação como o pai da personagem), jovem que se torna companheira do heróis em sua jornada, é uma garota malandra e inteligente, mas suas tentativas de sempre se sobressair acabam tornando-a um tanto insuportável; o grupo de novatos que, ao lado de Tiuri, tentavam se tornar cavaleiros e ficaram encarregados de caçar o ex-companheiro é o núcleo que menos falha, o que não esconde que todos os seus personagens são meros reflexos de vários que já conhecemos em outras obras.

Com uma narrativa rasa, quase todos os atores mais velhos sofrem com a falta de qualidade do roteiro e parecem desconfortáveis em seus papéis. Chega a ser cômica a incapacidade dos Cavaleiros Vermelhos, citados como grandes soldados do exército de Viridian, em capturar adolescentes que tem pouca ou nenhuma experiência em batalha. Mesmo se tratando de uma história de ficção, alguns acontecimentos parecem surreais demais para serem justificados.

Infelizmente, nem mesmo veteranos consagrados como Serkis e David Wheman (o Faramir de O Senhor dos Anéis), que interpreta o padrasto do protagonista, têm muito com o que trabalhar. Se fosse para escolher um desempenho de destaque seria provavelmente o de Ardawen, o cavalo de Tiuri, mas mesmo seus múltiplos resgates se tornam batidos no final.

Os cenários, contudo, são surpreendentes. A fotografia que segue a jornada de Tiuri e Lavinia chega a compensar os péssimos efeitos visuais que surgem nos momentos em que alguma magia (sim, temos isso também) é necessária para salvar o dia. O fato é que toda essa beleza não acrescenta nada à narrativa. Metade da história já se passou quando a primeira grande reviravolta acontece – e o caminho foi cheio de obstáculos.

Reinos rivais, garotos predestinados, profecias antigas: Carta ao Rei tem de tudo, mas infelizmente não há muito que os fãs de fantasia não tenham visto antes. Isso não seria um problema se a série tivesse uma história intrigante e com bons personagens, mas no decorrer dos seis episódios a falta de qualidade do roteiro vai transformando a produção em algo parecido com Hércules ou Xena – A Princesa Guerreira, duas séries dos anos 90 que fizeram sucesso, mas que sofriam com atuações limitadas e efeitos especiais de baixo nível. A única diferença é que, ao compararmos as três, a adaptação da Netflix é ainda pior.

Nota do Crítico
Ruim