Netflix

Crítica

Bridgerton - 1ª temporada

Nova adaptação literária da Netflix, série é um lindo romance de época, mas nem por isso tem uma trama vazia

Camila Sousa
27.12.2020
16h58
Atualizada em
07.01.2021
14h14
Atualizada em 07.01.2021 às 14h14

Uma verdadeira comoção tomou conta das redes sociais quando a Netflix anunciou um seriado adaptando Os Bridgertons, série literária de Julia Quinn que começou a ser publicada em 2000 com o livro O Duque e Eu. Com 9 obras ao todo, a franquia ganhou cada vez mais fãs ao longo dos anos ao contar a história da família do título e sua jornada pela sociedade aristocrática inglesa. Engana-se, porém, quem pensa que todo esse sucesso se deve somente às roupas de época e romances aterradores. Junto a tudo isso, Bridgerton tem várias camadas de discussões importantes que, felizmente, estão na série da Netflix.

Vale dizer o quanto a produção é um grande passo para o próprio serviço de streaming. Em uma época com cada vez mais plataformas disponíveis, é uma vitória para a Netflix ter os direitos de Bridgerton, entregando aos fãs um grande investimento em figurinos, cenários, fotografia, etc. Assim como acontece em The Crown, essa é uma oportunidade para a empresa mostrar seu potencial não somente como streaming, mas também como produtora.

Falando sobre a série em si, é curioso como Bridgerton se separa claramente em duas fases ainda na primeira temporada, uma decisão que pode parecer estranha, mas foi acertada. O começo é focado na apresentação de Daphne Bridgerton (Phoebe Dynevor) à sociedade e seus primeiros passos para conseguir um bom casamento. Mas, ainda que a rede de intrigas e fofocas na aristocracia tenha seu charme, essa fórmula já começa a ficar cansativa no terceiro episódio. Ciente disso, o showrunner Chris Van Dusen (Grey’s Anatomy) encerra este arco narrativo na metade da temporada e começa um novo, com Daphne e o Duque de Hastings (Regé-Jean Page) em uma nova jornada. Tal decisão traz um respiro para a história e a segunda fase abre brechas para discussões importantes, que vão além de romances e bailes.

Mulheres da temporada

Os homens fazem parte da história de Bridgerton, mas a história é focada principalmente em personagens femininas, que são diferentes entre si, e trazem olhares diversos sobre o que é ser uma mulher em uma sociedade extremamente patriarcal. A protagonista Daphne, por exemplo, tem o sonho de conseguir um bom casamento por amor e ter filhos. Talvez ela pareça menos interessante por ter interessantes tão “comuns” ao que se espera de uma mulher na época, mas é exatamente o fato de a subestimarmos que torna seus momentos de ascensão tão interessantes. Dentro do contexto da vida que escolheu para si, Daphne mostra força ao confrontar situações com as quais não concorda e amadurece, mostrando sororidade com uma personagem que está sofrendo sozinha simplesmente por ser mulher.

Se a protagonista já traz tantas camadas, as coadjuvantes da história tornam tudo ainda mais interessante. Eloise Bridgerton (Claudia Jessie), irmã mais nova de Daphne, é completamente diferente da protagonista. Ao invés de casar e ter filhos, ela deseja estudar e, mesmo sem entender exatamente o que está fazendo, ajuda outras mulheres ao seu redor a ter voz. Violet Bridgerton (Ruth Gemmell), a viúva e matriarca da família principal da história, mostra como há força no amor e é a responsável por conduzir os filhos e filhas à idade adulta. Já a Lady Danbury (Adjoa Andoh) mostra a importância de lutar pelo que acredita, mesmo diante da teimosia e falta de afeto dos homens da época. Os exemplos são vários e a série se aproveita bem de cada trama para dar pitadas disso ao público. Nada é panfletário ou exagerado: um olhar com mais significado ou uma união para descobrir os segredos sórdidos de um pretendente ruim são suficientes para mostrar que a força de Bridgerton está nas mãos das mulheres.

Dentro desse contexto, há duas personagens que merecem um destaque especial. A primeira delas é Marina Thompson, interpretada por Ruby Barker. Trazida para a série em um contexto diferente dos livros, Marina é uma mulher negra que sofre durante quase toda a temporada e funciona como um contraponto interessante para Daphne. Enquanto a protagonista tem os privilégios de sua família, Marina se sente cada vez mais sozinha, triste e culpada. Nos episódios finais da temporada, aliás, a jovem passa por provações além do normal, em um vai e vem de notícias ruins que são de partir o coração. Marina é forte e mostra como é capaz de fazer o que for necessário por sua família, mas sempre deixando claro como sua luta será sempre maior do que a de outras mulheres.

O segundo nome é aquele que causou burburinho na internet: Lady Whistledown. Com voz original de Julie Andrews, a personagem foi comparada à Gossip Girl da série adolescente, por ser a responsável por um jornal que circula entre a alta sociedade e comenta os momentos bons e ruins dos personagens. Curiosamente, no entanto, o papel da Lady Whistledown é bem menor do que o esperado. Ainda que seu jornal movimente a trama algumas vezes durante a temporada, a maior parte dos acontecimentos importantes de Bridgerton acontece sem sua intervenção, apenas com seu comentário espirituoso como complemento. Lady Whistledown não poderia ser mais diferente da Gossip Girl e isso é positivo. Nada aqui soa como uma cópia, mas como, de fato, uma criação inédita e condizente com a época.

Ainda sem uma segunda temporada confirmada, Bridgerton encerra sua primeira temporada fechando alguns arcos importantes, deixando uma ou outra ponta solta e lidando com seu maior mistério de forma surpreendente. O romance e a sensualidade fazem parte da narrativa e agradam quem procura por uma história com essas características, mas o seriado entendeu que só isso não segura uma narrativa. Apostando acertadamente em diversas personagens femininas, a série é interessante de assistir e pode ter um longo e competente caminho pela frente, caso a Netflix decida adaptar todos os livros de Quinn.

Bridgerton
Em andamento (2020- )
Bridgerton
Em andamento (2020- )

Criado por: Chris Van Dusen

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Ótimo

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