Foto de Away

Créditos da imagem: Away/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Away - 1ª temporada

Série estrelada por Hilary Swank demora a lançar voo e isso pode lhe custar a falha da própria missão

Henrique Haddefinir
07.09.2020
10h35

Em dezembro de 2014, o jornalista Chris Jones escreveu um artigo para a revista Esquire sobre a rotina do astronauta Scott Kelly, que estava totalmente envolvido numa missão que ainda era um dos primeiros passos na direção de uma visita humana a Marte. Scott permaneceria por um ano na estação espacial, um tempo considerado extremamente longo e perigoso justamente por ser contínuo. O artigo era detalhado: falava sobre as questões higiênicas, sobre os vários problemas provocados pela gravidade (como a Síndrome Ocular que pode deixar cegos principalmente os homens e falava também sobre o medo do fogo, sobre as pressões psicológicas e sobre ficar longe da família em momentos tão importantes. O nome desse artigo era Away.

Quem já assistiu o novo lançamento da Netflix sabe que não é só o título que remete ao artigo. O criador da série homônima, Andrew Hinderaker, leu o texto na revista e a ideia ficou com ele por alguns anos, até que se tornasse a produção que seduziu Hilary Swank a assumir a posição de protagonista dessa história. Scott Kelly virou Emma Green, mas o artigo de Jones esta impresso na dramaturgia da série de modo quase exato. Na vida real, Scott também teve problemas familiares ao mesmo tempo em que partia na missão. Na ficção, Emma segue para Marte numa viagem que durará, no mínimo, três anos. Quase que imediatamente, seu marido Matt Logan (Josh Charles) começa a enfrentar um grande problema de saúde que mudará para sempre sua vida.

Essa é outra diferença importante entre a série e o artigo. A série Away se passa num momento da nossa história em que já é possível enviar astronautas numa primeira missão ao planeta vermelho. Junto com Emma, seguem nessa jornada a química Lu (Vivian Wu), o botânico Kwesi (Ato Essandoh), o copiloto Ram (Ray Panthaki) e o engenheiro veterano Misha (Mark Ivanir). Cada um tem uma nacionalidade e uma característica pessoal encomendada para estabelecer mais pontos dramáticos no decorrer da temporada. São três anos de “residência espacial” e apenas um artigo de revista para tomar como inspiração.

Os roteiros de Andrew e sua equipe mantém a narrativa entre Terra e espaço como base; isso só é possível porque há um núcleo dramático terrestre. O marido de Emma precisa lidar com sua nova condição, mas a ausência da esposa também o afeta, assim como à sua filha Lex (Thalita Bateman). É curioso que, ao menos agora, durante esse primeiro ano, haja pouco investimento nas famílias dos outros membros da missão. Away não vai contra a correnteza e abre espaço para a mecânica dos flashbacks que exploram a cada episódio um personagem diferente. Assim conhecemos mais de cada um, mas não com a profundidade necessária. Talvez um investimento maior justificasse os longos 10 episódios que, com pouco material para desenvolver, se arrastam maçantemente.

Vida (chegando) em Marte

Para que a série funcionasse, todas as apostas possíveis foram feitas. Away tem uma estrutura que lembra desde um filme espacial dos anos 90 (como Armageddon), passando pela narrativa recortada por flashbacks (lançada por Lost) e chegando até a estética lírica e cristalina que vimos em lançamentos contemporâneos (como em Gravidade). O texto se enche de termos técnicos, assume seriedade, como se fosse uma sequência “sorkiniana”. Mas, logo adiante, os discursos emocionais tanto profissionais quanto familiares abraçam os clichês como no melhor estilo Hollywoodiano de angariar espectadores. Curiosamente, apesar de tudo isso, a série não soa tão remendada. Away tem problemas de ritmo, mas não comete grandes erros.

Esses problemas de ritmo, inclusive, atrapalham muito a experiência. Demora para que comecemos a nos importar com os personagens ou mesmo para que os problemas na missão comecem a se encaixar de modo mais orgânico na narrativa. Até o episódio 5 tudo ainda parece frio, burocrático, sem naturalidade. É como se os produtores tivessem idealizado uma temporada de 5 episódios e alguém tivesse dito a eles: “façam mais 5”. Então, uma morosidade toma conta do início da temporada, o que pode ferir imensamente o apelo da série com a audiência. Uma “barriga” no meio pode ser perdoada se já estivermos envolvidos. Uma “barriga” no começo pode ser um decreto de cancelamento.

Hilary Swank faz o que pode com a personagem, mas Emma poderia ser vivida por qualquer atriz sem exigir muita coisa dela. Há várias tentativas desajeitadas de aumentar as tensões entre os membros da missão e a comandante, mas nenhuma delas é forte o suficiente para que nos engajemos. Mesmo assim, o elenco é correto e tem bons momentos. A sexualidade de Lu, a austeridade de Kwesi, a grosseria de Misha transformada pouco a pouco em ternura... tudo conforme manda o figurino. Em episódios como o de Natal, o clichê beira o inconcebível, mas há sequências muito elegantes, como a que mostra todo o esforço dos astronautas para conseguir água através de manobras do lado de fora da própria nave.

Na reta final da temporada os episódios conseguem finalmente nos fazer perder o fôlego. A série arruma direitinho todo o enredo, une questões emocionais e técnicas de modo harmonioso e acerta em cheio ao construir as dificuldades da missão ao redor de aspectos verossímeis como a busca pela água ou o simples medo de que ao passar pela atmosfera de Marte, a nave exploda. Essas dificuldades são interessantes, as soluções são espertas e a temporada termina com um ótimo gancho. A ideia de estar no espaço já é fascinante, mas a de pisar em outro planeta é ainda mais inspiradora. Já tivemos filmes que fizeram isso, mas Away tem como grande qualidade sua capacidade de nos fazer acreditar que aquela ali sim é a primeira vez que o homem tocou na areia de um outro mundo.

Enfim, na contagem regressiva antes do lançamento de um foguete dez segundos podem parecer pouco tempo. Away faz parecer que são muitos. Um lançamento apressado pode explodir o condutor, mas um que nunca acontece também é uma fraqueza. A jornada de Away é interessante, mas exige paciência demais.

Nota do Crítico
Bom