Foto de Atypical

Créditos da imagem: Atypical/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Atypical - 3ª temporada

Série da Netflix amadurece sem perder a ternura e entrega melhor ano até agora

Henrique Haddefinir
11.11.2019
13h53
Atualizada em
11.11.2019
15h07
Atualizada em 11.11.2019 às 15h07

Por três anos Atypical vem sendo uma das produções mais especiais do Netflix - e também uma das menos populares. Em meio ao grande investimento da plataforma em divulgar hits como Stranger Things, Orange is the New Black, entre outras, produções como essa lindeza criada por Robia Rashid ficam em terceiro plano. Muitas vezes a impressão é de que ninguém acreditava muito que o resultado da produção fosse gerar respostas midiáticas fortes. De fato, a presença de Atypical no mercado é até mesmo correlacionável com o tipo de reação que ela provoca: trata-se de uma história muito delicada, escrita com cuidado e bom humor, mas que tem a elegância textual necessária para não ser confundida com exagero.

O diferencial que a série oferece também não é do tipo que atrai espectadores: ela conta a rotina da vida de um autista, mas sem o “glamour” com o qual o assunto é tratado em The Good Doctor, por exemplo. No drama médico a prioridade é explorar as habilidades do protagonista e espetacularizar sua genialidade inerente, como se o autismo fosse um aval do destino para uma mente “grande demais” para se expressar de formas comuns. Em Atypical a condição de Sam (Kier Gilchrist) é parte importante da história, mas ela serve para metaforizar um recorte do mundo, sem se esquecer nunca que antes de ser autista ele é um indivíduo que acerta, erra, tem episódios de egoísmo, pode ser capaz de grandes coisas e também das mais mesquinhas.

A cada nova temporada a jornada da vida de Sam ganha elementos inéditos de crescimento e o mundo em volta dele está tão acelerado quanto. A maior prova de que o autismo nessas duas produções é completamente diferente, é que passamos muito tempo – toda a terceira temporada, de fato – sem que essa condição fosse problematizada e “sofrida” como se o personagem fosse excluído da ordem natural das coisas. Sam continua enfrentando limitações nos novos episódios, mas a maioria delas ele resolve sozinho ou simplesmente conversando com quem pode ajuda-lo a organizar os pensamentos. Ele precisa de interlocutores, mas não existe na série “a dor de ser autista”.

Faculdade

Manter Sam em constante mudança também parece ser um dos planos dos roteiristas, que colocaram o personagem na faculdade nessa temporada e já preparam o terreno para mais avanços na temporada seguinte. E é na faculdade que o limite das experiências está. O trabalho do texto é árduo. Na maioria das séries sobre o universo jovem, a faculdade é o período das vivências extremas, com sexo, festas e drogas como base primordial. Com Sam as coisas precisam ter uma perspectiva menos óbvia: ele não faz parte dessa realidade. Então, quando poderíamos esperar dramalhões sobre ser o “o excluído”, a série surpreende com narrativas equilibradas sobre aprendizado e amizade, transformando a terceira temporada na melhor que tivemos até aqui.

Há neste ano a presença ilustre de Eric McCormack (de Will & Grace), que vive um dos professores de Sam. Além disso – e em resposta às críticas sobre a série não ter mais pessoas autistas – o universo do protagonista está bem mais plural, com uma série de outros personagens autistas que compõem a ótima classe artística do personagem. O texto se organiza para evitar o excesso de alívio cômico vindo desses personagens, que são interessantes justamente por terem uma visão particular do mundo. Nenhum deles é diferente de Sam e estão vivendo, junto com ele, a grande jornada de suas vidas. Essas interações são extremamente importantes para a série e sua credibilidade, que já é sempre tão questionada por ter focado a experiência autista em apenas UM personagem.

Apesar dos pontos positivos, a série empaca em alguns momentos. Enquanto as dúvidas de Casey (Brigette Landy) acerca do triângulo com Evan (Graham Rogers) e Izzie (Fivel Stewart) são completamente condizentes com as idades deles, a história entre Elsa (Jennifer Jason Leigh) e Doug (Michael Rapaport) apesar de também ser coerente, é enfadonha e ocupa um tempo exagerado da temporada. Eles fazem um caminho óbvio, muito parecido com o do casal Lerry em Dawson’s Creek, e demoram demais para chegar a conclusões. A forma como Casey conduz seu dilema é muito mais eficiente e ajuda os três atores envolvidos a crescerem. Especialmente Graham, que aprofunda Evan e nos fazer torcer pelo encontro do personagem com o futuro, seja ele qual for.

O grande momento da temporada, contudo, é o aprofundamento da relação de Sam com Zahid (Nik Dodani). Os roteiristas resistem a atrapalhar a história de Sam com Paige (Jenna Boyd) e tomam a decisão de fugir das obviedades novamente, correlacionando as grandes rupturas de Sam e Casey de formas diferentes. Os dois conquistam, traem, acabam e recomeçam histórias sob perspectivas opostas, mas emocionalmente muito próximas. De forma inteligente, os episódios traçam esses paralelos discretamente – como tudo na série – colocando o espectador diante dessas percepções, sem precisar escancará-las (como as sequências dos pinguins desenhados por Sam).

Com um final correto, emocionante e instigante, Atypical tem condições de retornar ainda mais esperta e delicada. Infelizmente, sua pequena notoriedade pode afetar sua longevidade, o que seria realmente lamentável. Estamos cercados de espetáculos dramáticos eloquentes, um pouco de leveza e sagacidade são preciosas em meio a tantas urgências.

Nota do Crítico
Ótimo