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Créditos da imagem: As Telefonistas/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

As Telefonistas - 5ª temporada

Apesar de todos os problemas com a série espanhola, nenhum é maior do que a incoerência do próprio discurso

Henrique Haddefinir
18.07.2020
14h49

Uma coisa que a mídia nos fez acreditar a respeito do sangue latino é que nós gostamos de drama. A teledramaturgia tem como base esse tão necessário gênero para nossa catarse. O drama é natural dentro de uma história, mas quando falamos de novelas, por exemplo, tudo é uma questão de sofrimento. Não há problema nenhum em ter no DNA das narrativas latinas essa glamourização da tragédia, e até mesmo as séries de TV acabaram trazendo essa herança. Contudo, a linguagem episódica é diferente da linguagem folhetinesca. Quando uma vaza para dentro da outra de modo desordenado, o resultado pode ser equivocado. Esse é o caso de As Telefonistas.

De fato, muita coisa na série parece ansiosa para funcionar, o que provoca uma ansiedade narrativa que piora a ideia de descontrole. Estamos falando de uma produção de época (o que traz consigo uma série de características previstas para o gênero), cheia de canções americanas contemporâneas, com pano de fundo sócio-político e enredos humanos extremamente novelescos. Essa salada pode parecer ousada e promissora numa olhada desatenta, mas uma ótica retrospectiva em As Telefonistas evidencia que, por mais que as intenções dos criadores tenham sido nobres, tudo soa superficial, como crianças brincando de serem engajadas.

Em sua temporada final, pouco se vê da profissão que lhe dá título. Isso não chega a ser exatamente um problema, já que é natural ver a história evoluir até um ponto em que os personagens precisam ser movidos de seu cenário original. A história avança até um período de Guerra Civil na Espanha e é até refrescante acompanhar as protagonistas sendo inseridas em um contexto maximizado. Seria, inclusive, uma ótima maneira de encerrar a produção, se não fosse a insistência da equipe criativa em devaneios narrativos que se apegam a todos os clichês e viradas esdrúxulas que compõem o pior do folhetim internacional (e nacional).

Dessa vez, Lidia (Blanca Suárez), Carlota (Ana Fernandez) e Marga (Nadia de Santiago) estão envolvidas com as questões políticas do país depois que Sofia (Denisse Peña), filha da falecida Angeles (Maggie Civantos), abandona tudo para se juntar a uma milícia. Com a saída de Maggie (que foi reprisar sua personagem em Vis a Vis), Oscar (Ana Polvorosa) ocupou a quarta vaga na linha de protagonismo, o que aconteceu organicamente e beneficiou o personagem, que sempre precisou de espaço para se desenvolver corretamente. Durante a primeira metade da temporada, os roteiros até que pareceram ter acordado para o mínimo de verossimilhança. Mas o gancho para os cinco episódios finais lançou a série mais uma vez ao abismo.

Linhas Cruzadas

Os absurdos começam quando Lidia - a heroina romântica mais trágica que qualquer protagonista de novela mexicana – vai parar num campo de concentração para onde o regime ditatorial do país envia aqueles que desafiam as leis impostas. Carlota e Oscar sempre se envolveram mais ativamente nesses enredos políticos da série, mas é claro que Lídia precisa continuar sofrendo e logo vira residente do lugar. Então, indo contra qualquer bom senso, os roteiristas decidem que seria “interessante” ressuscitar a vilã Carmen (Concha Velasco) pela enésima vez e fazê-la ser a diretora do campo. Assim, eles poderiam continuar torturando a protagonista, como sempre fizeram esse tempo todo.

Como são apenas 5 episódios finais, o ritmo é bom. Contudo, o Campo de Concentração tem uma rotina mais agitada que a de uma recepção de hotel. As personagens entram e saem do lugar, não esquecendo nunca de fazer as fugas serem malucas e as entradas extremamente dramáticas. A edição persegue tons de grandes acontecimentos e a trilha sonora equivocadíssima de melancolia pop provoca ruídos de torcer o nariz. A série gosta de vender-se como um produto engajado, mas passa tanto tempo tentando surpreender os fãs com a dinâmica entre Lidia e seus inimigos que essa proposta se esvazia.

Lançada como um produto pró-feminismo, o maior problema da série está justamente na maneira como ela parece não ter entendido a lição que deu. É muito estranho que numa série construída para falar da luta das mulheres pelos próprios direitos e pela sobrevivência, haja tão pouco interesse em preservar suas vidas. A grande vilã, Carmen, é uma mulher; e está perseguindo, torturando, vilipendiando, outras mulheres. Tudo isso por amor ao filho, porque para a filha ela nunca deu importância. Lidia, a protagonista, passou a série toda indo de um galã para o outro, ambos complicadíssimos; e nunca nem se perguntou se não valia mais a pena deixar os dois para cuidar da própria vida. Quase tudo de ruim que elas passaram estava diretamente ligado ao quanto elas se sacrificavam em nome de seus maridos/amantes/interesses românticos.

Até chegarmos aos 5 minutos finais, poderíamos dizer que, na verdade, era natural que mulheres fossem tão dependentes de homens naquela época. Mas tudo que As Telefonistas vendia de ousadia não passava de um embuste. O “chocante” final planejado para elas (e aqui um imenso spoiler está a caminho) é tudo, menos feminista. É claro que aquele é um momento de guerra, que muitas mulheres se sacrificaram por um bem maior, mas por mais que a legenda do final do episódio queira nos convencer disso, as personagens – e sobretudo Lidia – não estavam agindo por nenhum coletivo. Chocante mesmo acabou sendo a decisão dos criadores de salvar os homens, dar a eles os destinos das crianças, para que fossem elas, as mulheres, as sacrificadas.

A legenda que “justifica” a decisão só piora o caso. A fantasia da cena final, com Lidia e as amigas sentadas no trabalho, com seus uniformezinhos, transferindo ligações, é ainda mais assustadora. Depois de dizer tanto que as mulheres precisavam de liberdade, As Telefonistas termina com suas protagonistas presas ao lugar onde foram colocadas pelos homens. Na fala de Lídia ("nós sempre seremos as telefonistas") está uma assustadora mensagem de derrota. Basta olhar com atenção: elas perderam tudo, traumatizaram seus filhos e condenaram os amores à tristeza. Que espécie de redenção é essa? Parece realmente que essa escolha veio daquele pensamento criativamente imaturo, de que matar personagens é sempre a ideia mais emocionante de um enredo.

Enfim, a série - que queria exemplificar com louvor o significado de sororidade - cometeu o único erro que jamais poderia ser perdoado: não foi solidária com suas próprias filhas.  

Nota do Crítico
Regular