Imagem de Apocalipse V

Créditos da imagem: Apocalipse V/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Apocalipse V

Astro de The Vampire Diaries, Ian Somerhalder vive o outro lado da moeda em produção confusa da Netflix

Henrique Haddefinir
14.12.2019
10h03

O time por trás de V Wars (ou Apocalipse V), nova série da Netflix, diz muito sobre o que podemos esperar dela. Baseada na série de livros e quadrinhos de Jonathan Maberry, uma lista longa de produtores executivos se responsabilizam pelo resultado final. São 17 ao todo, com Glenn Davis e William Laurin aparecendo como showrunners principais. Nenhum dos dois, em suas vastas carreiras, são donos de um currículo que inclua sucessos de popularidade ou séries que tenham sido reconhecidas como grandes peças da teledramaturgia mundial. Apocalipse V é tão ordinária quanto seus criadores.

A busca desesperada deles para que seu produto ganhasse a atenção do mundo começou não só na escolha do tema – os vampiros e seu legado de apelo – mas também em como eles tentaram fazer com que a escalação fosse maior que todo o resto. Somente isso explica a iniciativa de colocar Ian Somerhalder numa outra produção que fala dessas criaturas, depois que o moço passou quase dez anos mostrando as presas na repetitiva The Vampire Diaries. Somerhalder foi louco o bastante para aceitar o trabalho que eles foram loucos o suficiente para oferecer.

Dessa vez, contudo, o astro não está no time dos dentuços. Ele vive o Dr. Luther Swan, que, junto com o amigo Michael Fayne (Adrian Holmes), é exposto a um vírus trazido de volta ao nosso tempo após o descongelamento de uma calota polar. Esse vírus entra em ação no organismo humano ativando um gene que não existe em todos, mas que se potencializa nos que são expostos, gerando a transformação que aguça os sentidos, tem propriedades de cura e também provoca uma dependência do sangue.

A premissa é ligeiramente diferente das que estamos acostumados a ver. Isso, entretanto, é natural na mitologia dos vampiros. Os de Anne Rice se tornaram uma base conceitual e filosófica para tudo que veio depois, mas cada um deu à mitologia sua própria cara. Os de Stephen King precisavam ser mordidos várias e vezes e morrerem de anemia para retornarem. Os de Alan Ball, em True Blood, nasciam depois de serem mordidos e enterrados por alguém já vampirizado. Já os de The Vampire Diaries precisavam tomar sangue de vampiro, morrer e se alimentar de sangue nas 24 horas seguintes à ressuscitação. Enfim, nessa luta pela originalidade no mundo de Apocalipse V estamos diante de uma doença que precisa de tratamento.

SOS Prions

A ideia do vampirismo enquanto doença não é exatamente original, mas cria na série um posicionamento interessante: já que se trata de uma reação do organismo a um intruso, o governo tem a responsabilidade de se envolver e buscar uma cura. É esse o aspecto mais importante da série e aquele no qual devemos prestar atenção se quisermos viver uma experiência menos enfadonha ao assisti-la. O outro lado da moeda, com os dramas pessoais de Luther ou o recrutamento de Michael, reduzem a produção a um grande mais do mesmo, que esvazia quase completamente o seu objetivo conceitual.

O conceito de guerra proposto pelo título original não é exatamente animador. Um dos grandes atrativos das histórias de vampiros são suas vidas secretas, seu charme, tudo que representa o místico que os envolve. A doença retira essas características (eles não são afetados pelo sol, por exemplo) e eles se transformam em monstros com caretas e dezenas de presas, que soam bem menos como mitos e muito mais como soldados irracionalizados. A promessa de que todo esse processo de chegada do vírus vai levar a uma guerra mundial entre humanos e vampiros não torna as próximas temporadas atraentes. Pouco importa se um exército de vampiros está sendo criado, vale mais entender o que um ser humano passa ao perceber que depende do assassinato para sobreviver.

Apocalipse V se organiza como qualquer série sobre o assunto, com o vírus se espalhando, com as descobertas lentas a respeito de como ele funciona, enquanto pouco a pouco, as pessoas vão sendo contaminadas. A série não tem atuações marcantes (Ian Somerhalder vive os pequenos clichês de um herói sem complexidade) e nem uma direção marcante. Mas, se vale de um roteiro com algumas reviravoltas impactantes e algum investimento em discutir o papel sociopolítico provocado pela epidemia. A questão é que trata-se de uma série de ação e muito desses vislumbres intelectuais ficam pelo caminho para privilegiar tensões.

Enfim, quando chegamos ao último episódio e o roteiro revela uma fantasia de produzir uma espécie de "Rambo Caça-Vampiros", percebemos que Apocalipse V só acha que será levada a sério, quando na verdade está a um passo de ser como um episódio de Buffy, cheio de vampiros com rostos monstruosos e com um completo vazio existencial. Enquanto produto de entretenimento simples, Apocalipse V está bem na média. Como drama pseudocientífico ou pseudosobrenatural, ela é apenas e simplesmente medíocre.

Nota do Crítico
Regular