Imagem de Altered Carbon

Créditos da imagem: Altered Carbon/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Altered Carbon – 2ª temporada

Nova temporada expande sua mitologia e tenta corrigir erros do primeiro ano

André Zuliani
05.03.2020
16h19

A primeira temporada de Altered Carbon entrou no catálogo da Netflix em 2018 e não chegou a ser unanimidade entre crítica e público. A qualidade de seu visual cyberpunk, ambientado em mundo futurista com naves e cidades que se destacam com luzes de neon teve muitos elogios, mas sofreu com as críticas em relação às cenas de nudez gratuitas em uma época onde a objetificação das mulheres é amplamente discutida, além de uma trama principal que se torna previsível no decorrer das suas dez horas. O segundo ano chegou querendo corrigir alguns desses erros, e o resultado é positivo.

Trinta anos se passaram desde os acontecimentos em Bay City. Conforme o season finale do primeiro ano nos mostrou, Takeshi Kovacs partiu em sua jornada em busca de sua amada Quellcrist Falconer (Renée Elise Goldsberry), que estaria viva após ser dada como morta séculos atrás. É aí que entra na história a caçadora de recompensas Trepp (Simone Missick), contratada por um milionário Matusa para encontrar Kovacs e torná-lo o seu guarda-costas. A recompensa? Entregar o paradeiro de Falconer. Quando o protagonista aceita a missão, ele está usando a capa (nome dado ao corpo humano nesse mundo) de uma cantora de bordel praticamente indefesa. O Matusa, então, o entrega uma nova, turbinada com as mais novas tecnologias, e abre as portas para a entrada do novo protagonista, Anthony Mackie (o Falcão do Universo Marvel nos cinemas).

Mesmo três décadas à frente e com o elenco quase todo renovado, a trama do segundo ano está inteiramente interligada com a do primeiro. Kovacs ainda é assombrado pelo passado, não só pela busca pelo seu grande amor, mas pela morte de sua irmã Rei (Dichen Lachman). Poe (Chris Conner), a Inteligência Artificial que o auxiliou em Bay City, abandonou o hotel que administrava e se tornou seu parceiro. A escolha em trazer a AI de volta é um dos grandes acertos da temporada, que tem em Conner o único ator a estar em todos os episódios da série. Sarcástico e com as melhores tiradas nos diálogos, Poe traz alívio para uma trama que respira ficção científica a todo momento, o que às vezes pode ser cansativo – e confuso. Quem também ganha mais destaque é Goldsberry, que aproveita o seu maior tempo em cena para desenvolver Falconer além da líder bruta e metódica que liderava a Revolução.

Responsável por substituir Joel Kinnaman no papel principal, Mackie demora um pouco para encontrar a sua leitura de Kovacs. Apesar de serem capas diferentes, o personagem é o mesmo, e isso pouco parece nos novos episódios. Enquanto o Kovacs de Kinnaman era mais sério e individualista, mais parecido com o soldado que costumava ser, o de Mackie se mostra um pouco mais malandro e sociável, apesar de manter a característica de quase não sorrir. Considerando que trinta anos se passaram, essa mudança se torna mais aceitável, já que o protagonista pode ter evoluído com o tempo.

Outra mudança bem-vinda é a escolha de expandir a narrativa. Enquanto o foco da primeira temporada era o mistério do assassinato de Bancroft (James Purefoy), os novos episódios exploram ainda mais a mitologia de Altered Carbon e são mostrados detalhes sobre a política do Protetorado, a origem do Mundo de Harlam e como os Matusas se sobressaíram em seu encontro com os Antigos. A nudez em excesso também deu lugar à cenas de combate, e aqui a direção usa e abusa da experiência de Mackie com coreografias de lutas muito bem elaboradas. 

Entre as novas caras, quem se destaca é o Coronel Ivan Carrera (Torben Liebrecht). Implacável, o militar é a contraparte perfeita de Kovacs e Falconer, capaz de enfrentar até os maiores políticos para defender seus ideais e manter a ordem do Protetorado. O personagem acaba ficando mais completo ao entendermos sua origem e a relação que tinha com o último Emissário, tornando sua jornada mais intensa e pessoal. A caçadora Trepp, no entanto, pouco diz a que veio. Apesar do carisma da personagem, ela parece estar ali mais para interpretar o parceiro da vez. Sua história também relembra a de Vernon Elliot (Ato Essandoh) no primeiro ano, e acaba chamando a atenção para um dos pontos negativos da série, que apesar de explorar mais esse universo, recria situações do ano anterior para colocar os personagens em novas tramas. A previsibilidade se torna constante na primeira metade da temporada, que se recupera apenas com as reviravoltas nos episódios finais.

O visual, apesar de ainda ser um dos melhores de uma série original do serviço de streaming, também perde um pouco de sua excelência. Enquanto Bay City era colorida e vibrante, o Mundo de Harlam, onde se passa toda a trama do segundo ano, é mais escuro e sujo, se assimilando mais com o submundo da capital. Por se tratar da terra natal de Kovacs, que teve uma infância pobre, são mostrados alguns cenários do seu passado que não precisavam de um tapa de CGI, o que tira um pouco do brilho da produção.

A primeira temporada de Altered Carbon foi chamativa e provocante, mas dispersa. Essa nova encarnação é mais nítida e direto ao ponto. Reduzir a contagem de episódios de dez para oito - com capítulos mais curtos - faz tudo parecer mais rápido e focado. Com seu universo mais estabelecido, a série também abre espaço para novos protagonistas caso uma terceira temporada seja oficializada – sejam eles Takeshi Kovacs ou não.

Nota do Crítico
Ótimo