A Voz Suprema do Blues

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

A Voz Suprema do Blues

Último filme de Chadwick Boseman ilumina o ator sob holofotes teatrais

Marcelo Hessel
16.12.2020
12h27
Atualizada em
16.12.2020
12h41
Atualizada em 16.12.2020 às 12h41

No ano que infelizmente marcou sua despedida, Chadwick Boseman ganhou dois papéis que engrandecem sua figura de maneiras distintas. Em Destacamento Blood, Spike Lee usa a presença de cena de Boseman como uma antena para filtrar e amplificar a iconografia da América negra do século 20, desde o estilo malandro dos blaxploitations até a combatividade dos Panteras Negras. Já A Voz Suprema do Blues vê Chadwick Boseman mais como uma figura pronta, impermeável, que não filtra luz mas a reflete.

A operação então para engrandecer Boseman - e todo o elenco nesta adaptação da peça escrita por August Wilson - é aumentar a luz, tratar todos os espaços do filme como um proscênio teatral que nunca está à sombra e sempre debaixo dos holofotes, e com essa luz valorizar a estatura dos astros. É um filme de atores no sentido em que a performance tem mais valor do que os conflitos e as trocas eventualmente gerados a partir dessa performance. De certa forma, na comparação, os dois filmes tentam o oposto: Destacamento Blood atravessa Boseman com a História, confiante na capacidade do ator de receber e sustentá-la, enquanto A Voz Suprema do Blues joga luz na espera de que a História parta de dentro de Boseman.

Obviamente, como se trata de um ator acima da média, ele não foge a essa responsabilidade de gerar sozinho a carga dramática de A Voz Suprema do Blues, no papel de um trompetista que sonha grande apesar das provações da vida o apequenarem. As situações de tensão no filme usam uma base factual - a história da cantora Ma Rainey (Viola Davis) e sua relação conturbada com a indústria musical da Chicago dos anos 1920 - para propor uma escalada ficcional de ressentimentos, que, pela própria lógica da performance, só vão aumentando de tom até o desfecho hiperdramático.

Tanto Viola Davis e Chadwick Boseman quanto o restante do elenco são capturados com esse banho de luz, que nas peles suadas (o filme assume o calor do verão de Chicago como elemento dramático central e exagera nos suores para tornar os corpos ainda mais impermeáveis, plásticos) faz com que todos pareçam dourados. Sob essa luz, e com uma taxa alta de close-ups, os olhos dos personagens parecem em chamas, ou perenemente emocionados.

Artificialmente na encenação, então, o filme consegue ampliar o alcance e a dimensão dramática do seu roteiro, que se estrutura como vinhetas de monólogos em que cada personagem tem seus cinco minutos de digressão. Seguindo à risca a dinâmica teatral, essas digressões não saem do espaço cênico; um flashback de infância, por exemplo, não nos leva à memória visual e tudo o que temos é a narrativa oral, no presente. Se essa escolha é feita para pontuar uma certa claustrofobia (o personagem de Boseman fica o filme inteiro tentando abrir uma porta para sair, metaforicamente, do controle dos brancos), na prática ela acaba só colocando mais peso nas performances, enfim encarregadas de conduzir tudo.    

Se assumimos que este filme é mesmo um trabalho de virtuose de atuação, então é uma pena que o diretor George C. Wolfe não tenha percebido que a única resolução satisfatória para as dinâmicas que ele propõe seria um duelo de performances entre Viola e Boseman. As faíscas são visíveis e teria sido um belo encontro se o filme jogasse mais nesse choque entre as suas duas figuras estelares, mesmo porque no centro de tudo está a complementaridade entre Ma Rainey, figura consolidada na cena local que faz o que quer com os donos da gravadora, e o trompetista, que passa o filme jorrando expectativas acerca do seu talento e do seu futuro.

Ao renunciar a esses choques criativos, e privilegiar os monólogos-desabafos, A Voz Suprema do Blues está fazendo uma escolha muito visível pela consagração “protegida”, segura, cada um com seu holofote individual. O personagem de Boseman sonha com a estatura de astro mas o ator já a tem: a câmera o circula em panorâmicas e escolhe os contraplongées com frequência para solenizar e agigantar um Boseman que, bem mais magro depois do tratamento contra o câncer, parece colocar em cena todo o saldo raivoso de energia que seu corpo foi capaz de concentrar.

A Voz Suprema do Blues
Ma Rainey's Black Bottom
A Voz Suprema do Blues
Ma Rainey's Black Bottom

Ano: 2020

País: EUA

Duração: 94 min min

Direção: George C. Wolfe

Roteiro: Ruben Santiago-Hudson

Elenco: Viola Davis, Chadwick Boseman, Colman Domingo

Nota do Crítico
Bom

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