Octavia Spencer em A Vida e a História de Madam C.J. Walker

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

A Vida e a História de Madam C.J. Walker

Minissérie da Netflix desperdiça a oportunidade de retratar com competência a história da primeira mulher milionária dos EUA

Henrique Haddefinir
24.03.2020
09h35

Madam C.J. Walker nasceu filha de escravos, casou aos 18 anos para fugir da pobreza, era abusada pelo marido, foi abandonada quando seu cabelo começou a cair por causa de alergias e para viver, ganhava US$ 1,50 lavando roupas. Esse cenário parecia condenar uma mulher como ela a passar toda a vida apenas lutando para ter o que comer. Mas, contra todas as expectativas, Walker se tornou a primeira mulher negra a ser milionária nos Estados Unidos, no início dos anos 1900. Por isso, havia uma grande ansiedade a respeito de uma dramaturgia que fosse contar sua história. Porém, o início da minissérie A Vida e a História de Madam C.J. Walker destroi nossas esperanças logo em seus primeiros minutos.

Sabemos que, em se tratando de histórias reais, uma narrativa precisa de conflito, de antagonismo. Ainda que seja uma série documental, esse antagonismo vai aparacer na forma como acabamos por torcer contra ou a favor daquelas pessoas reais. O antagonista, em alguns casos, pode ser até mesmo o sistema judicial. Os criadores da minissérie, ansiosos para estabelecer um nó dramático para sua adaptação do livro de A'lelia Bundles (uma das descendentes da protagonista) acharam necessário sublinhar para o público que a guerra era entre Madam Walker (Octavia Spencer) e Addie (Carmen Ejogo). Já nos primeiros segundos, toda a possível credibilidade da produção é destruída, com uma sequência fantasiosa de Walker num ringue de boxe, numa tentativa infantil e lamentável de ilustrar sua luta.

Os envolvidos insistem no erro e uma valente Octavia Spencer tenta segurar a onda da ilustração constrangedora. A vida de Walker (batizada Sarah) foi realmente uma luta constante, mas isso não precisa de reforço para ser entendido. Além de ser um detalhe descontextualizado e fora da unidade artística proposta pela época em que tudo aconteceu, a coisa toda com o boxe é um adiantamento de uma produção frouxa, com uma trilha contemporânea deformada, com um texto cheio de clichês mal utilizados e que, na maioria do tempo, soa como uma novela barata. Os erros de condução e de conceitualização da minissérie são tantos que nem mesmo Spender ou a importante mensagem de empoderamento conseguem salvar o resultado final.

Na história, Walker (ainda como Sarah) um dia é escolhida por Addie como cliente potencial. Essa é a decisão que vai mudar tudo. Addie bate a sua porta e lhe oferece o elixir que, pouco a pouco, faz com que o cabelo de Sarah volte a crescer. Percebendo o potencial do produto e com uma personalidade ambiciosa, Sarah pega algumas unidades do produto e vende na rua sem o conhecimento de Addie. Então, os problemas começam. A sequência em que Addie humilha Sarah após perceber que seus produtos foram vendidos sem seu consentimento nunca existiu na vida real. Mas, os roteiristas estavam afoitos por uma narrativa folhetinesca de superação e usam a cena para transformar Addie numa vilã e assim justificar o fato de que Sarah decide roubar a fórmula do produto. Sim, ela rouba, de outra mulher negra, que foi quem, no final das contas, não “melhorou” nada. Ela inventou tudo, sozinha.

A vida, a história e os esqueletos de Madam C.J. Walker

Na vida real, após conseguir reproduzir e – segundo ela - “melhorar” a fórmula, Sarah segue seu caminho de crescimento e Addie não passa o tempo todo querendo vingança. Na verdade, cada uma permaneceu em sua cidade, construindo seu próprio império, obtendo sucesso e deixando a outra trabalhar em paz. É claro que em algumas declarações oficiais, Addie alfinetou Sarah com provocações sobre seu produto ter sido copiado. Mas, ele realmente foi; e estranhamente, a minissérie não consegue ilustrar porque foi o nome de Sarah aquele a ser marcado na história. Eles apenas transformaram Addie numa vilã que, ao final, precisa ser castigada com pesar e fracasso. A coisa toda soa esquisita... Uma mulher negra ascendendo às custas da queda de outra.

A falta de tato da produção chega até o final piorando o quadro consideravelmente. Não existe nenhuma elegância na condução artística da minissérie, que termina do jeito mais cafona possível, tentando convencer o espectador de que essa é uma obra revolucionária sobre mulheres negras ocupando seu lugar no mercado de trabalho numa época em que isso era considerado impossível. Mas, a intenção não chega nem perto de realizar-se nas cenas. A Vida e a História de Madam C.J. Walker enterra seus potenciais sócio-políticos com várias pás de um texto brega, uma direção frouxa e um clima de obviedades que beiram o insulto à história real. Walker merecia mais, Addie merecia mais... Já há desserviços o bastante na TV, não precisávamos de mais esse.

Nota do Crítico
Ruim