A Última Coisa que Ele Queria

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

A Última Coisa que Ele Queria

Sem saber dizer a que veio, nem o bom elenco salva novo thriller da Netflix

André Zuliani
21.02.2020
20h51
Atualizada em
21.02.2020
21h07
Atualizada em 21.02.2020 às 21h07

Pode-se facilmente dizer que Anne Hathaway tem um excelente currículo em Hollywood. Vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Os Miseráveis, seu nome está em evidência na mídia há quase vinte anos, desde o sucesso de O Diário da Princesa. Entre escolhas certeiras como O Segredo de Brokeback Mountain e O Diabo Veste Prada,a atriz também coleciona longas que não foram tão bem de crítica e público – alguns até bem recentes. Quando a Netflix anunciou que Hathaway estrelaria A Última Coisa Que Ele Queria, ao lado de Ben Affleck e Willem Dafoe, era natural que houvesse certa curiosidade para acompanhar o resultado final. Acrescente ao grupo a diretora Dee Rees, indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi e, pronto, a empolgação poderia se justificar. Acontece que nem sempre bons nomes são sinônimos de filmes de qualidade.

Baseado no livro homônimo de Joan Didion, o longa adapta a história da repórter investigativa Elena McMahon (Hathaway), uma profissional acostumada a correr riscos em zonas de guerra e preparada para contar as melhores histórias. Logo nas primeiras cenas, situadas em 1982, a acompanhamos cobrindo um conflito militar em El Salvador. Após conseguir fugir às pressas da morte quase certa, a trama avança para 1984 e nos encontramos em meio à campanha do presidente Ronald Reagan à reeleição. Determinada a encontrar os responsáveis pelo transporte de armas ilegais para o país da América Central, Elena é obrigada por seus superiores a abandonar a investigação com medo de retaliação política vinda do Congresso.

Quando tudo parecia terminar em pizza, o pai de Elena, Dick (Willem Dafoe), um pilantra envolvido em tráfico de (quem iria imaginar?) armas, pede que a jornalista faça uma última transação em seu lugar para receber um dinheiro que garantiria a sua aposentadoria.

Assim como na obra original, a história é contada pelos olhos da protagonista. O problema é que a confusão se inicia no momento em que Elena parte para a negociação. Enquanto no livro as dúvidas que surgem se justificam, no filme os trechos da história são contados de forma desigual e parecem estar fora de sincronia. Não há uma explicação que faça sentido e a montagem irregular de Mako Kamitsuna complica ainda mais a experiência.

Sem saber dizer a que veio, a versão cinematográfica de A Última Coisa Que Ele Queria não estabelece uma relação que coloque a audiência dentro do jogo. Hathaway é ótima atriz e fica claro o seu esforço de expor o sofrimento de Elena por estar presa em terreno desconhecido, perdida e sem o auxílio de ninguém. Mais perdido ainda parece estar Affleck como Treat Morrison, homem com cargo influente dentro do governo americano e com forte ligação com a CIA. O ex-Batman parece estar presente no filme apenas para abocanhar mais um cachê gordo da Netflix, tamanha a falta de expressão de seu personagem. Seu surgimento em diversos momentos da trama não faz sentido até os momentos finais do filme, quando o clímax já não parece não interessante.

A falta de objetividade é sentida em praticamente todos os seus quase 120 minutos. A sensação é de que, se você não leu o livro original e não conhece alguns detalhes dos conflitos que aconteceram nos países da América Central durante os anos 80, não é um filme feito para você. Aquela empolgação ao lermos os nomes envolvidos com a produção logo se torna frustração, seja você um fã de suspense, da autora ou até mesmo de Hathaway.

Nota do Crítico
Ruim