A Casa

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Crítica

A Casa

Novo filme espanhol da Netflix constrói suspense interessante sobre status social, mas perde a eficiência no terceiro ato

André Zuliani
27.03.2020, às 21H40

Se existe algo que causa arrepios em certas pessoas da classe média alta é a perda de seu status dentro da sociedade. Quem está acostumado a viver no topo não trabalha com a opção de vivenciar uma realidade oposta em algum momento da vida. Há quem diga que essa experiência é um divisor de águas para o que define quem nós realmente somos. Pensando nisso, A Casa, nova produção original espanhola da Netflix, busca retratar até que ponto vai o surto de alguém que perdeu tudo – e as consequências que arrasta nesse processo.

Na trama, Javier Muñoz (Javier Gutierrez) é um publicitário de renome em Barcelona que está há meses desempregado e enfrenta dificuldades para se reestabelecer no mercado de trabalho. Acostumado com o sucesso anteriormente, Javier se vê substituído por jovens com ideias mais disruptivas para as empresas e sem a promessa de que algo mude em um futuro próximo. Ciente disso, Marga (Ruth Díaz), sua esposa, toma a decisão que o marido vinha postergando: é necessária uma mudança completa para que a família sobreviva. A contragosto, o casal deixa o apartamento luxuoso que tinha como residência e se muda para outro em uma área mais simples da cidade.

Inconformado com a situação e humilhado em entrevistas de empregos, Javier começa a frequentar sua antiga vizinhança para descobrir quem ficou com seu apartamento. De dentro do seu carro, ele vê um jovem casal que parece viver a vida perfeita que lhe foi tomada. Coberto de inveja, o publicitário utiliza uma chave que ainda possuía para invadir a residência e procurar detalhes sobre os novos moradores. É assim que descobrimos que Tomás, o novo inquilino, é um executivo importante em uma das maiores empresas do país, mas com um segredo. Ciente disso, Javier começa a arquitetar um plano para retomar o seu antigo status de volta.

Quase onipresente em todos os momentos do filme, Gutierrez rouba a cena como o antigo rico obcecado pelo novo morador. A transformação de sua ambição em obsessão é convincente não apenas pela ótima atuação, mas por todas as atitudes questionáveis que Javier toma em sua escalada para o surto. Mesmo as mais absurdas se tornam críveis quando entendemos que o publicitário já não se importa com as consequências, seja para a família de Tomás ou para a sua.

Essa configuração um pouco incomum sobre o tema de status social, materialismo e sociopatia em construção ajudam a dar ao filme uma nova sensação de frescor às produções do gênero. Sabemos que esse tipo de coisa se sai bem na Netflix, sem falar de alguns sucessos com tons similares sobre guerras de classes. Gutiérrez constrói muito bem o papel dentro do realismo psicológico estabelecido pelo roteiro escrito pelos irmãos David e Alex Pastor, que também são os encarregados da direção. Seu desempenho tem tons novelescos e poderia encher de orgulho autores globais como Walcyr Carrasco e Aguinaldo Silva.

Infelizmente, o terceiro ato simplesmente não sustenta essa expectativa. A trama avança rapidamente e não mantém a tensão que existia, falhando em criar obstáculos para frustrar os planos do protagonista – toda a trama envolvendo o jardineiro do edifício se inicia e acaba sem justificar a que veio. Quem também sofre com isso é o núcleo familiar de Javier. O filme poderia ter explorado mais suas interações com Marga e o filho, especialmente com sua esposa, o que acrescentaria mais peso aos seus momentos finais. É difícil de aceitar que a ausência do marido em casa, naquelas circunstâncias, seja compreendida pela mulher tão facilmente.

No geral, A Casa tem momentos dramáticos ótimos, principalmente por conta do desempenho de seu protagonista, mas ainda abusa de uma fórmula enlatada de criar suspense que raramente traz algo de novo à mesa.

A Casa
Hogar
A Casa
Hogar

Ano: 2019

País: Espanha

Classificação: 14 anos

Duração: 103 min

Direção: David Pastor, Àlex Pastor

Roteiro: David Pastor, Àlex Pastor

Elenco: Ruth Díaz, Bruna Cusí, Mario Casas, Javier Gutiérrez

Nota do Crítico
Bom

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