William Paul Young em A Cabana e Seus Segredos

Créditos da imagem: A Cabana e Seus Segredos/Netflix/Reprodução

Netflix

Crítica

A Cabana e Seus Segredos

Netflix compila os testemunhos do autor de A Cabana num grande documentário que cansa o espectador

Henrique Haddefinir
22.02.2020
18h30

O lançamento de A Cabana foi um dos maiores fenômenos literários dos tempos modernos. Como acontece de tempos em tempos, um livro com uma linguagem simples chega até as prateleiras para colocar uma luz sobre algo que toca nas inseguranças ou nos sonhos do indivíduo regular. É isso que explica o sucesso não só da Cabana, como também de O Segredo e Comer, Rezar e Amar. As pessoas são movidas pela catarse provocada por palavras que podem ser até óbvias, mas que foram ditas do jeito mais certeiro. 

A Cabana tem um fator a mais em seu apelo com o público. Trata-se de um livro que fala da relação entre o ser humano e Deus. Qualquer obra de literatura religiosa já está sob radar em qualquer circunstância, mas no caso da obra de William Paul Young as coisas eram um pouco mais específicas, já que mesmo tendo uma vida voltada para o estudo teológico, o autor tentava colocar sua história pela perspectiva do homem comum. E o mais importante: um homem comum que passou por uma grande tragédia e começou a questionar os desígnios de Deus, algo com o qual todo mundo se relacionar.

Mackenzie (que no filme adaptado da obra foi vivido por Sam Worthington) é um personagem numa profunda agonia pessoal depois que a filha desapareceu e os únicos rastros de seus últimos momentos foram encontrados numa cabana nas montanhas. Mackenzie parte para esse lugar numa tentativa de encontrar respostas e acaba se deparando com mais do que isso, ao se ver envolvido numa interação fantástica com Deus, Jesus e o Espírito Santo. Essa interação é o que vai guiar o personagem pela compreensão de por que certas coisas horríveis acontecem com as pessoas mesmo que elas não mereçam e estejam tão perto de Deus. A história é uma história sobre a resistência da fé, não importando as circunstâncias.

Algum tempo depois do lançamento do filme, o próprio William Paul Young lançou uma série de episódios documentais chamados Restoring The Shack, pelo canal TBN, que pretendiam aprofundar um pouco as discussões sobre as metáforas e referências presentes no livro, além de explicar para os mais curiosos alguns dos mecanismos que levaram a seu sucesso. Foram quatro episódios de meia hora que agora, em 2020, chegaram à Netflix na forma de um documentário único, de quase duas horas, que compila os depoimentos do autor usando quase nenhum recurso ilustrativo. O resultado não poderia ser mais moroso.


A CABANA É MINHA

Assim como abrimos uma página do livrinho Minutos de Sabedoria por dia para ler algo que nos inspire ou nos motive para seguirmos adiante, a série-documental de William Paul Young também era para ser uma pequena porção de conversa religiosa por semana. Mesmo porque, o doc não tem nenhuma inventividade e se resume a vermos o autor num cenário bucólico, com muitas camisas xadrez diferentes, no melhor estilo american way of life, falando para a câmera sobre a própria vida e algumas das passagens do livro. Os recursos de edição são limitadíssimos e o roteiro dos depoimentos, embora seja limpo, nem sempre apresenta a coesão necessária para alcançar seus objetivos.

Apresentado como um documentário corrido, de uma hora e quarenta, A Cabana e Seus Segredos tem muita teologia e divagação e quase nenhum segredo. Depois da primeira meia hora estamos cansados de ouvir o autor falar e ainda vem muita coisa pela frente. Ele compartilha toda a vida, passando pela infância, pelo casamento precipitado, traições e o reencontro verdadeiro com Deus. William parte do princípio constante que seu maior problema era a perseguição por uma forma de divindade que não tinha expectativas realistas. É interessante até, exatamente porque se relaciona com o conceito do livro. Mas, sem o recurso episódico a verborragia do autor vai perdendo senso se organização e seus objetivos vão se esvaziando.

Em meio aos rompantes emocionais de William há muito pouco dos tais “segredos” que resultaram na Cabana. Também há muito pouco do que acrescentar ao que o livro já havia dito. O documentário não amplia nada, não oferece nada além de um perfil ligeiramente egocêntrico de seu realizador. Suas intenções podem ter sido as melhores, mas não justificam duas horas do nosso tempo.

Nota do Crítico
Ruim