7 Prisioneiros não se contenta com o thriller de fuga e superestima sua força

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Crítica

7 Prisioneiros não se contenta com o thriller de fuga e superestima sua força

Filme de discurso carregado parece uma obra brasileira de outros tempos

Marcelo Hessel
11.11.2021
21h42

7 Prisioneiros parece um filme feito na virada do século, quando a Retomada se consolidava com um fluxo constante de produções brasileiras nas telas. Diante do novo milênio e dos desafios da redemocratização, aqueles filmes com frequência colocavam em primeiro lugar a preocupação de radiografar conflitos econômicos e sociais do país, e em segundo vinha a eventual atenção a formatos do cinema de gênero. O discurso vinha antes da forma.

Faz sentido que tenha sido assim - com muitas exceções, obviamente - se pensarmos que o cinema nacional estava em busca de recuperar um lugar de prestígio como expressão da identidade nacional. Em 2021 a coisa já é um pouco diferente; mesmo a involução política e institucional que sofremos nos últimos cinco anos não impede que nosso cinema aborde o horror, o scifi, a comédia e o policial com a desenvoltura de uma indústria audiovisual madura em termos narrativos.

O drama de 7 Prisioneiros começa assim, sondando o terreno de um suspense de cárcere de cores sociais. Jovens em busca de oportunidade profissional, encabeçados pelo personagem de Christian Malheiros, deixam o interior de São Paulo com a promessa de emprego na capital, e encontram, como os imigrantes do século XIX, um regime braçal análogo à escravidão. Parece a promessa ideal - engajada, contextualizada - para assistirmos na Netflix a um thriller de fuga e eventualmente de vingança contra captores e, por extensão, contra o sistema de exploração como um todo.

Se 7 Prisioneiros frustra essas expectativas é menos pelos caminhos que o roteiro escolhe seguir e mais pelo tom: não demora muito para o filme de gênero dar lugar a um estudo de personagens baseado no discurso. Mal os prisioneiros formulam suas primeiras tentativas de escapada e a dinâmica que se impõe é outra, de transferência de papéis, que reduz personagens a totens numa aula de sociologia: o vilanesco capataz (Rodrigo Santoro) se revela mais complexo do que parecia pois está inserido numa cadeia produtiva que envolve seus mandantes, os prisioneiros etc.

É possível realizar a radiografia social sem abrir mão das catarses do cinema de gênero - inclusive casos recentes, como os filmes de Kléber Mendonça Filho ou de Marco Dutra e Juliana Rojas, circulam festivais e são celebrados justamente por conciliar as duas coisas. Porém fazer cinema de gênero implica sujar as mãos, por assim dizer, e de partida 7 Prisioneiros já parece inclinado a um projeto limpo, “importante”: a presença de Fernando Meirelles e Ramin Bahrani (roteirista de O Tigre Branco) na produção denota uma preocupação com o discurso social universalista, e o olhar do diretor Alexandre Moratto (criado nos EUA, filho de brasileira com um americano) parece tocar conhecidas questões brasileiras como se fossem inéditas e reveladoras por si só.  

A participação de Rodrigo Santoro nisso tudo é decisiva para o déjà vu da Retomada. Ele surge em cena de cabelo melado e rosto gasto como se fosse o Neto de Bicho de Sete Cabeças (2000) ou o Tonho de Abril Despedaçado (2001) - dois filmes importantes na época para desfazer a imagem, então consolidada, de que ele era só um ator de teledramaturgia. Santoro foi ponta de lança do movimento de reivindicar um certo prestígio para o cinema nacional, com suas atuações que carregam nas tintas da entrega artística, da imersão e da potência teatral. Em 7 Prisioneiros, o que chama a atenção é a evidência da performance: Santoro atua muito mais do que os outros, num filme que está superestimando seu próprio impacto.

7 Prisioneiros
7 Prisioneiros

Ano: 2021

País: Brasil

Classificação: 14 anos

Duração: 96 min

Direção: Alexandre Moratto

Roteiro: Thayná Mantesso, Alexandre Moratto

Elenco: Rodrigo Santoro, Christian Malheiros, Josias Duarte, André Abujamra

Nota do Crítico
Regular

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