Netflix

Crítica

3% - 4ª temporada

Entre erros e acertos, série acerta ao ir além do clássico “final feliz”

Camila Sousa
17.08.2020
18h53
Atualizada em
21.08.2020
13h02
Atualizada em 21.08.2020 às 13h02

Chegar ao final da 4ª e última temporada de 3% traz uma sensação agridoce. A série, a primeira original Netflix feita no Brasil, encerra o ciclo honrando a jornada de vários personagens e acerta ao não cair no erro de mostrar o clássico “final feliz”. Apesar disso, a produção enfrenta problemas de ritmo, especialmente no capítulo que encerra toda a história.

O novo ano começa com uma “missão diplomática” entre o Maralto e o Continente. Os primeiros querem Marcela (Laila Garin), que é mantida refém, de volta, enquanto os segundos vêem na missão uma oportunidade para acabar de vez com o Maralto e encerrar as desigualdades causadas pelo Processo. Ainda que tenha seu mérito, o plano muitas vezes soa ingênuo demais e isso ressoa em sua execução, que traz consequências graves jamais imaginadas pelos protagonistas.

Apesar disso, o momento gera ironias interessantes. Acostumados com uma vida de conforto, os 3% que moram no Maralto encaram suas origens e a série aproveita o momento para fazer várias referências visuais. A mensagem por trás disso é clara e visa escancarar como toda a relação de poder tem dois lados e seus altos e baixos. Quem está em cima pode rapidamente estar embaixo, e vice-versa.

Tal ponto acentua também outra narrativa interessante, que é como o Maralto não é exatamente o que as pessoas imaginam. Enquanto o Continente tem uma visão de perfeição do lugar, rico em recursos naturais, tecnologia e etc., do lado de lá nem todos estão felizes o tempo todo. 3% fala sobre a hipocrisia do Maralto apresentando uma versão jovem de Marcela (Greice Costa), que se torna um retrato do cidadão de bem do lugar: perfeito nas aparências, mas quebrado por dentro.

O acerto da série é mostrar tais camadas dos personagens e provocar o público com elas. Outro bom exemplo disso é a personagem Glória (Cynthia Senek), que chega à temporada final tomando várias decisões pensando em si mesma e prejudicando os amigos e a Causa. Ainda que suas atitudes sejam questionáveis, 3% joga isso ao público: se você estivesse na mesma situação, o que faria? Várias episódios da temporada final terminam com esse questionamento, e é muito válido ver que a produção amadureceu até este ponto.

Infelizmente, 3% perde grande parte dessa força com os diálogos e suas execuções. Por exemplo, quando o grupo do Continente está indo para o Maralto, uma personagem diz e repete para que eles “não se deixem seduzir” pelo local. A fala, claro, antecipa essa sedução, que é mostrada também com delicadeza em várias cenas e não precisaria ser adiantada. O seriado poderia focar mais em mostrar do que falar, confiando que os fãs vão entender a mensagem passada ali. Se as falas escritas soam artificiais, o mesmo acontece em suas execuções por parte do elenco, deixando claro que há uma questão com a direção de atores. Não é raro assistir uma cena de 3% e pensar: “as pessoas não falam dessa forma na vida real”.

Vocês são os jovens agora

Ainda que tenha seus defeitos, o seriado acerta bastante no encerramento da jornada de vários personagens. Michele (Bianca Comparato), Rafael (Rodolfo Valente), Marco (Rafael Lozano) e vários outros nomes conhecidos do público encaram o âmago de suas origens na temporada final. Nenhum desses processos é agradável, mas todos são necessários e agregam muito para a narrativa, como Marco aceitando finalmente quem realmente é e Michele fechando um ciclo ao lado do irmão, André (Bruno Fagundes).

De todos, porém, quem se sobressai é Joana (Vaneza Oliveira). Pela primeira vez em muitos anos, a personagem se mostra vulnerável quando pensa que encontrou sua família biológica e isso a deixa tanto frágil, quanto irritada. Joana não gosta de ter tais sentimentos, e do que eles trazem à tona. Curiosamente, após uma resolução rápida, o tema não é mais tocado em nenhum momento e 3% termina deixando a questão em aberto. É como se Joana não precisasse mais saber de sua origem para ter certeza de quem é.

A série se aproxima do final com uma cena poderosa, que coloca o grupo do Continente em paralelo com o Trio Fundador do Maralto. De forma acertada, a série escolhe ir além do “final feliz” e mostra o que acontece depois disso. Seria fácil encerrar a jornada logo após o grande clímax, deixando na imaginação do espectador como seria a realidade dali em diante. Mas a produção vai bem ao colocar o dedo na ferida e mostrar que nem tudo é tão fácil. Quando as utopias dos dois lados são destruídas, o que sobra? Quando não há mais no que acreditar, quem toma a frente para liderar? São perguntas agridoces e o seriado mostra que, em momentos assim, a humanidade tende a mostrar o seu pior e não o contrário. 

O encerramento só não é mais poderoso pelo já citado problema de ritmo, especialmente no capítulo de encerramento. Em seus poucos mais de 40 minutos finais, 3% resolve tanto fechar histórias que já começou, como iniciar narrativas que claramente não têm tempo de desenvolvimento e, exatamente por isso, são executadas e finalizadas rapidamente. A ideia de colocar uma última disputa de intelecto no final soa desnecessária e tira espaço de outras tramas que poderiam ganhar mais espaço, como decisão de André, que poderia ter sido melhor trabalhada.

Apesar disso, 3% termina em uma nota positiva. O resultado da disputa entre Continente e Maralto está longe do ideal e nenhum dos lados ficou satisfeito com o que aconteceu, mas ainda há uma pitada de esperança de que, por mais que seja difícil, há um caminho melhor possível para o futuro, basta que as pessoas queiram trilhá-lo. Chega a ser utópico imaginar que a realidade colaborativa sonhada por Joana se tornará realidade, mas ao som de “Velha Roupa Colorida”, de Elis Regina (cantada também por Belchior), é possível sonhar (“E o passado é uma roupa que não nos serve mais”).

Nota do Crítico
Bom