Imagem de 13 Reasons Why

Créditos da imagem: 13 Reasons Why/Netflix/Reprodução

Netflix

Crítica

13 Reasons Why - 4ª temporada

Série termina perdida em suas próprias tramas e com várias conveniências de roteiro para explicar desfechos

Camila Sousa
08.06.2020
12h31

Ao terminar a 4ª temporada de 13 Reasons Why, é difícil lembrar como a série começou, embora a Netflix tenha tentado manter algumas ligações. Lá na primeira temporada, a protagonista era Hannah Baker, uma jovem que tirou a própria vida e gravou 13 fitas com os motivos que a levaram a isso. Na época, o streaming não soube lidar bem com os temas delicados da série. Mostrar diretamente um suicídio foi problemático e só a repercussão negativa, a empresa se preocupou em colocar um aviso de gatilho e fazer campanha para que jovens que se sentissem com dificuldade procurassem ajuda. Na época, inclusive, o streaming ressaltou que a série não era voltada ao público jovem, mas sim aos adultos pais de adolescentes, que poderiam entender melhor o que se passa no universo de seus filhos.

Levando tudo isso em consideração, a quarta temporada da série chega descaracterizada de várias propostas, iniciais ou não. Após o julgamento de Hannah terminar e a personagem parar de aparecer nos sonhos de Clay, 13 Reasons Why começou a apostar em mistérios e mentiras para continuar uma história que já poderia ter acabado. Assim, o que deveria ser um retrato em 13 episódios sobre os problemas de Hannah e do mundo ao seu redor, virou uma história de suspense adolescente, com Clay e seus amigos escondendo provas da polícia e acobertando um assassinato. De certo modo, 13 Reasons Why ficou mais parecida com Pretty Little Liars, e isso não é um elogio ou crítica, apenas uma constatação do quanto a produção se perdeu em si mesma.

O retrato do quanto 13 Reasons Why se tornou estranha é o protagonista Clay. Após a morte de Hannah, o jovem tomou para si a responsabilidade de tomar conta de todos ao seu redor, como Tyler e Alex, mas esqueceu de si próprio. No quarto ano, ele entra em uma espiral de raiva, crises de pânico e medo que o faz tomar caminhos bem sombrios. Aos poucos, Clay percebe que ainda tem vários traumas por conta de Bryce e Monty e esse sentimento o persegue. Ele começa a repetir comportamentos de outros personagens que estão passando por dificuldades, apesar de repetir constantemente que está bem. Assim como o seriado, Clay tenta "abraçar o mundo com as mãos", e é claro que não consegue.

O quarto ano de 13 Reasons Why tem 10 episódios de aproximadamente 1h cada (sendo que alguns passam disso), mas não soube aproveitar bem seu tempo de tela. Os primeiros capítulos consistem em uma espiral de medo, especialmente de Clay. Os capítulos ficam repetitivos ao mostrar o pavor que o garoto tem que todos descubram seus vários segredos, com crises de pânico constantes, sentimento de perseguição, etc. Não que a discussão sobre o tema não seja válida, mas narrativamente o seriado não soube desenvolver isso de forma fluída. Por outro lado, há uma virada após o sexto episódio, quando o seriado traz de volta o tema de como os adultos não sabem lidar com os problemas dos jovens.

Novamente, o ponto é válido, mas a Netflix não soube aproveitá-lo da melhor forma. A revolta dos alunos que poderia ser o clímax da temporada perde força, porque tal tema não foi bem desenvolvido. Ao contrário, a questão da relação entre adultos e adolescentes é mostrada pontualmente e volta com tudo do nada, tirando o brilho de um momento que tinha tudo para ser realmente catártico. Como várias séries já fizeram, 13 Reasons Why se confunde ao tentar fechar todos os arcos narrativos que abriu ao longo de anos. E, para fazer isso à tempo após vários episódios mornos em que a trama não se desenvolve, ela usa algumas conveniências narrativas.

Embora Clay apresente comportamentos confusos durante os primeiros episódios, a justificativa para seu comportamento e para tudo o que aconteceu na escola é extremamente cômodo. Em uma conversa com seu terapeuta, tudo é trazido à tona de repente e as peças se encaixam quase magicamente. O mesmo acontece com a trama de Winston e sua busca para inocentar Monty. Coincidências acontecem, é claro, mas o motivo que leva o jovem a abandonar a missão chega a ser ingênuo demais para quem estava tão determinado no começo.

13 Reasons Why faz isso ainda mais uma vez na temporada, ao mostrar a partida de um personagem importante. Em um diálogo bem expositivo (eles existem aos montes no 4º ano), uma médica explica todos os motivos que levaram àquele ponto. Há coerência no que é dito, mas incomoda a coincidência de tudo ter surgido logo agora ao final da temporada, para forçar um desfecho agridoce aos personagens e uni-los, sem necessariamente precisar revelar todos os segredos que eles carregam.

Caverna emocional

Ainda que tenha muitos problemas narrativos, há alguns pontos positivos para elogiar em 13 Reasons Why. A série acerta visualmente ao mostrar as crises de pânico de Clay, o colocando em situações físicas que refletem seu estado emocional. O jovem entra em uma sala de revelação de fotos toda vermelha, por exemplo, e até em uma caverna, o que reflete bastante como ele se sente triste, isolado das pessoas e em um constante estado de alerta. A tensão criada no episódio “Segurança Máxima” também é bem utilizada, levando os protagonistas ao limite e fazendo com que todos encarem suas próprias verdades e mentiras em um momento de crise. Assustador, o capítulo é bem dirigido e serve como estopim para a maior crise de Clay.

As atuações do elenco também merecem destaque, especialmente nos episódios finais. 13 Reasons Why é uma série que exige muitas emoções o tempo todo e é positivo ver como Brandon Flynn e Alisha Boe, por exemplo, entregam grandes cenas entre Justin e Jessica antes do encerramento da 4ª temporada. O mesmo pode ser dito de Christian Navarro, que traz ainda mais camadas para Tony na temporada e Ross Butler, que mostra como Zach está praticamente tão mal quanto todos os outros, mas escolheu lidar com isso de uma forma diferente.

13 Reasons Why encerra sua jornada de quatro temporadas no meio do caminho. Ela não se torna interessante ao público adulto (que diz querer contemplar) e também não sabe lidar com o público adolescente que passa pelos mesmos problemas mostrados em tela. Ao invés de focar de forma coesa nos problemas emocionais de seus personagens, o seriado buscou o caminho do choque pelo choque, matando personagens para gerar grandes mistérios ou cargas emocionais para justificar a falta de ideias para seu encerramento. Se os alunos da Liberty High se sentem livres após a formatura em ensino médio tão confuso, o mesmo acontece do outro lado da tela.

Nota do Crítico
Regular