John Cho como Spike Spiegel em Cowboy Bebop

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Cowboy Bebop | O que funcionou e o que não funcionou no live-action da Netflix

Dividindo opiniões e decepcionando fãs do anime, série brilha ao menos com elenco afiado

Eduardo Pereira
24.11.2021
15h30
Atualizada em
26.11.2021
16h34
Atualizada em 26.11.2021 às 16h34

[O texto abaixo contém spoilers da primeira temporada de Cowboy Bebop, da Netflix.]

Depois de muita expectativa, o live-action de Cowboy Bebop chegou à Netflix com mudanças consideráveis em relação ao que os fãs do anime conheciam como a história de Spike Spiegel, Jet Black, Faye Valentine e mais. Investindo mais no humor do que no existencialismo, a série de TV acabou dividindo opiniões, como mostraram as reações da imprensa internacional, bem como a nossa crítica, aqui no Omelete.

Mas o que, exatamente, deu errado? E, mais importante, o que deu certo na produção? Do trabalho dos atores John Cho, Mustafa Shakir e Daniella Pineda até a escolha de equilibrar novos elementos narrativos com a colaboração de artistas lendários do anime, como foi o caso da musicista Yoko Kanno em seu retorno à trilha sonora, listamos abaixo tudo que funcionou e tudo que não funcionou em Cowboy Bebop.

Não funcionou: Vicious e Julia

Alex Hassell como Vicious em Cowboy Bebop
Netflix/Divulgação

Talvez o maior consenso sobre o live-action de Cowboy Bebop é que o Vicious de Alex Hassell é uma adaptação deplorável de um vilão icônico. Embora a caracterização do personagem seja superficial no anime, isso é instrumental para que suas aparições carreguem peso e ameaça inesquecíveis. Além de seu visual, que equilibra o angelical e o demoníaco, sua fala contida e sua propensão à violência extrema desenham uma ambiguidade tão sutil quanto assombrosa.

No live-action, entretanto, tudo isso é descartado por uma personalidade raivosa e insegura, com raiz em questões mal-resolvidas com seu pai, que resultam em um personagem clichê, pouco ameaçador e nada cativante. Os traços mais brutos de Hassell ainda deixam a peruca branca que usa o ator mais destoante de tudo que o cerca, piorando a situação.

O que também não ajuda são as constantes interações com Julia (Elena Satine), outra personagem que é gradativamente descaracterizada até o capítulo final, onde toma rumos que beiram o inacreditável. Em nome de dar à personagem, uma femme fatale com pouco tempo de tela no anime, mais agência sobre seu destino, a equipe da série da Netflix acaba por criar uma nova personalidade, numa ruptura radical que ameaça a identidade de toda a série enquanto Cowboy Bebop.

Funcionou: Spike, Jet e Faye

Spike Spiegel, Jet Black e Faye Valentine no live-action de Cowboy Bebop
Netflix/Divulgação

Se as mudanças aplicadas a Vicious e Julia não favoreceram uma adaptação suave do anime para o live-action, aquelas voltadas para Spike Spiegel (Cho), Jet Black (Shakir) e Faye Valentine (Pineda) convencem porque se equilibram com uma caracterização fiel ao que vemos na obra original. Além disso, o trio de protagonistas tem uma química natural, compensando com carisma os diálogos por vezes truncados e com excesso de exposição.

É nos diálogos mais descompromissados entre os três, inclusive, que Cowboy Bebop encontra seus momentos de maior emoção: seja provocando o riso ou a reflexão. Em um determinado episódio, o abraçar de um possível sacrifício por Spike, tirando Jet da reta da morte, carrega honestidade e ressonância emocional. E a descoberta do passado de Faye, embora apressada, invoca uma atuação caprichada de Pineda.

Não funcionou: As revelações apressadas

Daniella Pineda como Faye Valentine
Netflix/Divulgação

Uma das principais marcas do anime de Cowboy Bebop, que consolida sua identidade e torna bem sucedida sua pretensão de construir um novo gênero a partir da mistura de várias linguagens narrativas diferentes, é a apresentação deliberadamente lenta de seus personagens. Conforme acompanhamos cada episódio da série animadas, conhecemos mais e mais dos protagonistas, criando impressões que são depois confrontadas conforme nosso conhecimento aumenta.

É um processo que se repete na apresentação do universo do anime, mas que foi descartado no live-action. Na série da Netflix, tudo que pode ser explicado o quanto antes, é. Assim, logo de cara, sabemos sobre o passado de Jet como um policial, de Spike como um assassino de aluguel e de Faye como uma mulher fora de seu tempo após anos em animação suspensa.

Com o fim do desenrolar vagaroso para esses mistérios, acaba também o impacto irresistívil do investimento emocional em acompanhar as descobertas feitas pelos próprios personagens, resultando em uma experiência distante que flerta constantemente com o tedioso — mesmo que se esforce a todo o momento para conseguir emocionar. 

Funcionou: A trilha sonora de Yoko Kanno

Cena de abertura de Cowboy Bebop
Netflix/Divulgação

Tem coisa que é boa demais para mudar, então Cowboy Bebop acerta em entender isso e trazer de volta para a trilha sonora a lendária musicista Yoko Kanno. Responsável pela música inesquecível do anime, ela reassume a função no live-action e (claro) não faz feio, revisitando composições de mais de 20 anos e mexendo nelas na veia do que fez John Williams ao retornar a Star Wars depois de mais de uma década, com O Despertar da Força (2015).

É uma pena que tanto direção quanto montagem não acompanham o ritmo, o suingue e em geral toda a qualidade do trabalho de Kanno. Com muito da música primorosa da japonesa cobrindo cenas que não dialogam diretamente com o som ouvido, parte da magia do anime se perde. Ainda assim, qualquer motivo para ouvir suas músicas é um acerto inquestionável.

Não funcionou: O humor pastelão

Cena de Cowboy Bebop
Netflix/Divulgação

A primeira cena de Cowboy Bebop já é um mau presságio para quem esperava que o humor mais sutil e pontual do anime fosse reproduzido em live-action. Com Spike aparentemente encurralado por inimigos, Jet cai do teto esmagando um deles. Com os dois personagens olhando um para o outro, é como se toda a ação fosse interrompida para que houvesse tempo para uma troca de diálogos engraçadinha e o riso do público. Só faltou a tradicional faixa de risada.

Esse emprego nada sutil de uma linguagem de comédia pastelão é algo que, ao longo de toda a primeira temporada da série da Netflix, acaba quebrando a tensão de grandes cenas de ação e minando o drama de momentos mais emotivos. Se tivesse sido dosado melhor, poderia arrancar mais risos e também atrapalhar menos uma tentativa bagunçada de mesclar gêneros diferentes de televisão.

Funcionou: Os figurinos precisos

Cena de Cowboy Bebop
Netflix/Divulgação

Das roupas do trio de protagonistas aos visuais de vilões tradicionais como Teddy Bomber e o palhaço Pierrot Le Fou, Cowboy Bebop consegue transportar perfeitamente ao live-action os figurinos estilosos e singulares que povoavam o universo do anime. Mais do que isso, toda a caracterização visual funciona, com exceção talvez apenas do braço mecânico de Jet, que parece muito com qualquer coisa que não seja mecânica.

Não funcionou: As cenas de ação

Mustafa Shakir em Cowboy Bebop
Netflix/Divulgação

Outra grande marca de Cowboy Bebop é a plasticidade extrema das suas cenas de ação. Seja em lutas corporais, batalhas espaciais ou tiroteios, o anime dos anos 1990 sempre pensa esse embates em nome da progressão da trama e do desenvolvimento de personagens. Além disso, com uma animação caprichada pensada sempre em sintonia com a trilha sonora de Kanno, o anime constroi um diálogo orgânico e fluido entre todos os componentes do audiovisual.

É uma pena, portanto, que as sequências de ação do live-action sejam tão fracas em inventidade e tão pouco convincentes. Abusando da câmera lenta para dar uma sensação de impacto a coreografias artificiais filmadas de uma forma que expõe ainda mais suas imperfeições, esse momentos acabam tediosos e constrangedores, tirando da adaptação um dos elementos fundamentais da obra original.

Funcionou: A fofura do Ein

Ein, de Cowboy Bebop
Netflix/Divulgação

Não teria como ser diferente: Incluir Ein na série, mesmo que em um papel menor do que o visto no anime, é um enorme acerto. O Corgi modificado em laboratório é fofura e carisma puro, oferecendo momentos de leveza necessários também no live-action. Além disso, ele cumpre uma função na trama (apresentar a hacker Ed, vivida por Eden Perkins, na última cena da série), mesmo que seja na maioria das vezes apenas um acessório de cena para Faye, Spike e Jet levarem para lá e para cá.

Não funcionou: A introdução de Ed

Ed em Cowboy Bebop
Netflix/Divulgação

Falando em Ed, a personagem é um dos integrantes mais essenciais da nave Bebop, oferecendo boa parte do coração e da alma da trama, no anime. Na série live-action, seu nome é frequentemente citado, mas é só na última cena que ela é apresentada; e o resultado é um tanto quanto constrangedor. Tentando simular a energia frenética colocada na personagem pelos animadores criativos da obra original, Eden Perkins acaba entregando falas que acabam soando mais irritantes do que divertidas — especialmente por serem ditas depois dos momentos mais anticlimáticos da série.

O resultado, como mostra a reação dos fãs ansiosos pela personagem no Twitter, foi uma chuva de críticas. Não ajuda que, segundo Perkins, toda a cena foi gravada em um só dia. A impressão que fica é de que Ed sequer faria parte desse primeiro ano da série, sendo incluída de última hora apenas como fan service. Não foi uma boa ideia para nenhum dos envolvidos.

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