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Créditos da imagem: As Telefonistas/Netflix/Divulgação

Netflix

Artigo

Conheça As Telefonistas, o sucesso espanhol secreto da Netflix

Produção de época sobre luta de mulheres por espaço no mercado de trabalho é cheia de boas intenções. Mas, apenas isso

Henrique Haddefinir
27.02.2020
18h58

A primeira sequência de As Telefonistas (ou Las Chicas del Cable, no original) pode ser um pouco chocante para os mais desavisados. Não pelo seu conteúdo, mas pelo formato. A série, que é vendida para o público como uma produção de época com um pé na política e no feminismo, começa na contramão da própria divulgação, apresentando ao espectador uma sequência estranha, com um texto novelesco em que a ideia do feminicídio fica envolta em uma névoa de amadorismo textual, como se um título como Os Sacrifícios do Amor fosse surgir na tela a qualquer momento. De fato, essa é uma sensação que acompanha As Telefonistas do começo ao fim.

Os problemas não parecem tantos quando pensamos em tudo que está em torno da série. Situada entre as décadas de 20 e 30, a história tem pretensões interessantes que envolvem o crescimento das companhias telefônicas em torno do país, observado pela perspectiva de uma profissão que chegou junto com o invento para dar as mulheres uma chance: ser telefonista. Com a Segunda Guerra Mundial, na década de 40, houve retrocessos nas conquistas do mercado de trabalho, mas a série avança corretamente a partir de 1928, quando a necessidade do aparelho telefônico começou a dar às mulheres a oportunidade de lutar por uma posição.

Essas mulheres são encabeçadas por Lidia Aguilar, vivida por Blanca Suárez, o nome mais conhecido do elenco, depois de ter trabalhado com Almodóvar em A Pele que Habito. Lídia não se chama Lídia e sim Alba, mas precisou mudar de nome para cumprir uma chantagem que lhe impediria de ir para a cadeia. Ela vai trabalhar na companhia telefônica da família Cifuentes, onde conhece Carlota (Ana Fernandéz), Marga (Nadia de Santiago) e Angeles (Maggie Civantos), que serão suas fieis escudeiras até o fim. Carlota é uma rebelde nata, oprimida por um pai castrador. Marga é a sonhadora e romântica do grupo e Angeles sofre com um casamento abusivo. Lídia reencontra também um antigo amor da juventude, ao mesmo tempo em que se apaixona pelo herdeiro da família.

Ramón Campos e Gema R. Neira, os responsáveis pela série, tiveram um raciocínio coerente ao planejaram sua trama. O que deveria estar acima de tudo era a noção de sororidade entre as protagonistas, o que, de fato, se mantém em pauta em todas as quatro temporadas e meia. Não há nada que aconteça com uma sem que as outras não se envolvam. Do outro lado, contudo, estão os dramas pessoais, que são tão mal contextualizados e superficiais que engolem todo o resto num rocambole desvairado de reviravoltas esdrúxulas e típicas de uma novela mexicana. A série vai tão longe nisso que esvazia qualquer possibilidade de seriedade e soa risível na maioria dos momentos.

Fora da Área de Cobertura

Em seus primeiros episódios, As Telefonistas revela uma faceta técnica competente. São poucos cenários, mas tudo bem cuidado e coerente com a época. Os roteiros também vão esmiuçando os costumes retrógados da sociedade vigente, mostrando como coisas simples como tirar dinheiro do banco poderiam ser problemáticas para uma mulher. Na maioria do tempo, os homens se comportam como se estivessem sempre numa esfera superior, enquanto as mulheres precisam passar o tempo todo encontrando maneiras de manter seus empregos e aquela tão pequena dose de liberdade. Carlota, por exemplo, é a personagem mais importante para a série nesse sentido, já que além de ser aquela com o discurso revolucionário, também constrói uma história de amor com Sara/Óscar (Ana Polvorosa), um homem trans.

As vitórias da produção, contudo, param por aí. Lídia, a protagonista, é uma fonte inesgotável de problemas e a cada começo e final de temporada a série se contorce inteira para dar a ela uma natureza chocante de tragédias pessoais. E tudo no pior estilo folhetim barato. Traições, gravidez, sequestro, incêndio, atentados e tudo isso enquanto a moça se arrasta pelos episódios numa eterna chorumela em torno de Carlos (Martiño Rivas) e Francisco (Yon González). Quando chegamos até a quarta temporada já é impossível acreditar em qualquer coisa, inclusive em sacrifícios reais no elenco, já que há uma infinidade de sequências finais sugerem uma morte, só para descobrimos na temporada seguinte que não era bem assim.

Com a temporada final anunciada, a série finalmente promoveu uma verdadeira ruptura. Maggie Civantos, a Angeles, precisou abandonar Vis a Vis para fazer As Telefonistas e agora, abandonou As Telefonistas para fazer Vis a Vis El Oasis, o que resultou numa virada que acabou justificando o enredo dessa primeira parte do último ano. Sua filha Sofia (Denisse Peña) cresceu e reencontramos as personagens sete anos depois, em plena Guerra Civil, procurando pela moça, que decidiu abandonar tudo para se juntar a uma milícia. Nos cinco episódios já disponíveis, a história apresenta uma pequena melhora nos delírios novelescos e tenta concentrar os acontecimentos na busca por Sofia em meio ao território de guerra. Uma realidade, por exemplo, que acaba sendo muito tensa para Òscar, que está cada vez mais próximo de sua imagem masculina ideal, mas não têm direitos como homem.

Mesmo assim, nada é tão negativo para As Telefonistas quanto a maneira equivocada com a qual ela trata sua trilha sonora. Canções pop contemporâneas, em inglês, tocam em 100% das vezes em quase 100% das cenas. É como se, numa série que se passa na Espanha dos anos 20 e 30, os criadores estivessem tentando reproduzir os momentos dramáticos de um final de episódio de Grey’s Anatomy. Com direito a narração em off, inclusive. O desconforto é brutal e decisivo para configurar uma realidade: As Telefonistas é uma série com boas intenções, mas também é fruto de um grande oportunismo mercadológico.

Mais uma prova desse despreparo narrativo está no gancho que encerra a primeira parte da temporada final. Um aparente bom sacrifício é compensado com uma surpresa completamente desvairada. A série sorveu de muita realidade para nascer, mas é uma produção que se esvazia de qualquer verdade, de qualquer verdadeira emoção. A humanidade de As Telefonistas está completamente fora da área de cobertura.