Imagem de Sex Education

Créditos da imagem: Sex Education/Netflix/Divullgação

Netflix

Artigo

Sex Education e a importância de falar sobre sexo

Honestidade de série da Netflix sobre o tema é refresco em meio a mitos e supervalorização de produções em geral

Julia Sabbaga
10.01.2020
14h39

Quando Sex Education foi lançada na Netflix no início de 2019, ninguém poderia prever o sucesso e alcance da série adolescente inglesa, que parou a internet esta semana com o lançamento do trailer de sua 2ª temporada. Mesmo com seu elenco pouco conhecido (seus maiores nomes são Asa Butterfield e Gillian Anderson, não exatamente estrelas de Hollywood) a aposta da plataforma teve um sucesso estrondoso, principalmente no Brasil. Sex Education foi a 5ª série mais popular da Netflix no Brasil em 2019 e foi a produção mais buscada no Google durante o primeiro semestre do ano passado, superando até a queridinha dos fãs, Stranger Things.  

O sucesso da série pode ser atribuído a diversos fatores muito bem realizados, como o humor ácido, as atuações surpreendentes de atores novatos, a diversidade ou a trilha sonora certeira. Mas o que Sex Education tem de realmente único é a sua perspectiva genuína e apresentação sem firulas sobre o que é o sexo e os problemas sexuais da adolescência. Ao lado da frequente idealização de Hollywood e da supervalorização ou simplificação da maior parte das produções que o público geral tem acesso, Sex Education é quase um refresco, apresentando uma visão realmente realista dos questionamentos adolescentes. 

Isso é resultado de uma intenção precisa da criadora da série, Laurie Nunn, de discutir assuntos considerados tabu: “Quando eu estava na escola, não havia menção de sexo além de ‘você vai engravidar e morrer’. E garotos nunca aprendiam sobre a anatomia feminina”. Em seu primeiro trabalho grande, Nunn procurou equilibrar a história rotineira de tramas adolescentes, inspirada por filmes de John Hughes, com um forte elemento sexual, que nunca se envergonha de ser realista. Para isso, a produção de Sex Education também precisaria ser diferente, e a equipe contou com uma coordenadora de cenas íntimas e uma educadora sexual. 

As questões tratadas na primeira temporada de Sex Education são de todos os tipos e vem de diferentes personalidades. Enquanto Otis (Butterfield) lida com aversão a sexo e masturbação de modo pessoal, ele ajuda indivíduos com problemas tanto amorosos (como no caso do casal de melhores amigas lésbicas, Ruthie e Tanya) quanto realmente biológicos e psicológicos (como o caso de Lily, que não consegue fazer sexo, por mais que queira). Durante os oito episódios, são citados casos de DST, disfunção, aborto, questionamento de preferências sexuais, descoberta da própria sexualidade e por aí vai.

Sex Education até encaixa uma discussão de consentimento de modo não sexual (como no caso de Liam, que importunava Lizzie com convites ao baile). Seja diretamente ou não, a série encontrou maneiras perfeitas de discutir em alto e bom som o que todo adolescente deveria poder discutir abertamente. Um dos casos mais legais da primeira temporada é a história de Aimee, que precisou se entender sexualmente para descobrir que sexo não é uma atividade de prazer exclusivamente masculino. 

Moordale High pode ser fictícia, mas a curiosidade alastrada de temas sexuais se assemelha com qualquer colegial. Com isso, a série retrata tanto o interesse adolescente pelo assunto quanto o impacto negativo de não abordá-lo. Durante toda primeira temporada, cada um dos estudantes que lida diretamente com seu questionamento se vê mais desenvolvido e bem-resolvido como um todo. A série ainda faz isso quebrando a ideia de que todos no colegial estão sexualmente ativos, e deixa claro que ser sexualmente inteligente não está interligado com ativamente praticar sexo. 

O apelo de Sex Education também está em sua genuinidade tanto no discurso quanto na estética. A produção não tem medo de retratar aventuras sexuais do modo mais real possível, sem esconder a esquisitice e o desconforto, criando cenas raramente vistas de modo tão cru. Não idealizar a atividade é talvez o elemento que mais aproxima a produção de seu público, e cria um potencial de relacionamento importante e imediato. 

Como se tudo isso não bastasse, a série de Nunn vai muito além do sexo e explora masculinidade tóxica, sororidade e família de modo sensível, tornando-se um dos melhores exemplos que temos hoje do valor de um entretenimento bem feito. Lidando de frente com um assunto tabu, e com um tema cada vez mais polêmico no contexto atual, é um alívio saber que existem produções preocupadas em não apenas fornecer diversão, mas também educar, inspirar e incentivar assuntos que podem ser difíceis de discutir.