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Deuses Americanos | Episódio de estreia é quebra-cabeça instigante sobre relação entre divindades e homens

Com visual surpreendente, série estreou no Brasil em 1º de maio

Rafael Gonzaga
02.05.2017
16h30
Atualizada em
29.06.2018
02h43
Atualizada em 29.06.2018 às 02h43

A estreia de Deuses Americanos não deixou espaço para dúvidas: é preciso estômago para lidar com a nova adaptação televisiva da obra homônima de Neil Gaiman. Invertendo a ordem da narrativa do livro que é base da série, o programa tem a sacada genial de começar o episódio "The Bone Orchard" com a cena que mostra navegantes chegando ao novo mundo antes da descoberta oficial. Ilustrando até onde indivíduos podem ir em nome de sua relação sólida com a fé, a chegada no território inóspito mostra homens sacrificando coisas como sua própria visão, seus companheiros e sua lealdade uns aos outros para conseguir auxílio divino. Tudo isso, é claro, com uma fotografia pesada, visuais nada higienizados, violência exposta sem pudores e baldes e mais baldes de sangue.

Anteriormente nas mãos da HBO, o canal Starz assumiu a produção de Deuses Americanos, exibido no Brasil pela Amazon Prime um dia após a transmissão original. A série foi desenvolvida por Michael Green e por Bryan Fuller - é inegável o peso do olhar desse último no resultado final do episódio de estreia. Estão nele o visual mórbido de Hannibal, a fixação sanguinária do remake de Carrie e até as cores obsessivas compulsivas da fúnebre (e fofa) Pushing Daisies, claramente mais amadurecidas. O primeiro episódio também deixa claro em que fontes os produtores estão bebendo para conferir identidade ao projeto: a série tem algo de longas como 300 e Watchmen, de Zack Snyder, uma estética não muito explorada em produções televisivas - e que Fuller tem pouco a pouco introduzido no meio.

O primeiro episódio apresenta o protagonista Shadow Moon (Ricky Whittle), um presidiário liberado dois dias antes do fim de sua pena em função da morte de sua esposa, Laura Moon (Emily Browning), em um acidente de carro. O plano de Shadow era cumprir sua pena, voltar para sua esposa e trabalhar na academia do seu amigo Robbie Burton, que também morreu no mesmo acidente de Laura. Shadow descobre que os dois tinham um caso, que seu emprego garantido não existe mais e, em função disso, acaba cedendo às investidas de outro personagem importante para a trama: Mr. Wednesday (Ian McShane). Ele e Shadow se conhecem durante um voo e a figura misteriosa convence o ex-presidiário a aceitar um cargo semelhante ao de guarda-costas, mas, ao longo do episódio, Shadow começa a se dar conta de que não aceitou um emprego normal.

McShane consegue um desempenho sobrenatural no papel de Mr. Wednesday. O ator consegue subverter a aparência de um idoso cansado, passando a impressão de uma serpente escorregadia pronta para dar o bote ou escapar a qualquer momento entre um comentário irônico e outro. A sensação de certeza que envolve Wednesday é o contraponto perfeito para a confusão catatônica de Shadow. Pablo Schreiber e Bruce Langley, respectivamente o leprechaun Mad Sweeney e Technical Boy, também dão conta do recado ao conduzir dois dos momentos visualmente mais interessantes do episódio, a luta no bar e o rapto de Shadow.

Para quem gosta do livro de Gaiman, ver cenas como a deusa Bilquis (Yetide Badaki) engolindo um homem durante o sexo ou o diálogo entre Shadow e Low Key (Jonathan Tucker) sobre não irritar funcionárias de aeroporto ganhando vida na tela é fascinante. Quem é fã de verdade pode ter sentido falta de momentos como o cuspe de Andrey (Betty Gilpin) no velório de Laura Moon, mas dificilmente pode reclamar das adaptações que modificam levemente a história original: todas as alterações são ótimas. Contudo, lendo ou não o livro, qualquer um é capaz de perceber que muita informação foi atirada em um curto espaço de tempo sem permitir ao espectador processar os eventos acontecidos imediatamente na cena anterior - o que certamente tornou o ritmo da trama uma bola de neve atropelada para muita gente que não faz ideia de onde vai dar a história.

Existe uma atmosfera mitológica pairando o tempo todo sob os personagens e, mesmo em cenas convencionais, a impressão é que a qualquer momento absolutamente qualquer coisa pode acontecer sem aviso, conferindo um ar surrealista à série. Ao mesmo tempo em que o episódio parece um sonho de Shadow, a trama faz com que tudo soe absolutamente palpável dentro daquela realidade. O mérito disso é de Fuller, Green e do próprio Gaiman, que também é produtor executivo do programa. O pontapé inicial de Deuses Americanos não deixa claro que peça cada personagem representa no tabuleiro da trama, nem o que exatamente cada um deles é ou quais são seus reais interesses. Shadow termina o episódio tão atordoado quanto o espectador - a diferença é que enquanto que o ex-presidiário só quer sair do vórtex de caos que se instaurou em sua vida antes mesmo que ele se desse conta, quem assiste a série fica com a curiosidade de ver os pequenos pedaços do quebra-cabeça da trama se encaixando.

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