Yotto Entrevista

Créditos da imagem: Yotto/Divulgação

Música

Entrevista

Yotto | Um DJ aficionado por cinema e música eletrônica com sensações

Prestes a lançar seu 1º disco, mas já desfrutando do reconhecimento por criações expressivas, o finlandês é um dos destaques da música eletrônica atual

Jacídio Junior
03.09.2018
13h23

Yotto é um produtor fora da curva. Com um trabalho focado na apresentação de nuances quase nunca óbvias e apostas em sets que, de alguma forma, usam sons orgânicos-percussivos de maneira original, mas sem que isso soe complexo, o finlandês registrado como Otto Yliperttula tem se destacado desde seus primeiros passos fora do seu estúdio caseiro.

Com uma trajetória bem conhecida como parte da vida de um artista, seu surgimento para o grande público aconteceu em 2015, quando suas produções realizadas em casa o levaram a fazer parte da Anjunadeep - gravadora/selo dos integrantes do Above & Beyond -.

Agora, com pouco mais de três anos como artista profissional e apenas dois anos depois de deixar seu emprego “formal”, ele é um dos nomes mais interessantes da e-music, está preparando o lançamento de seu primeiro disco, Hyperfall (no dia 7 de setembro), para o qual realizou a primeira apresentação da turnê aqui no Brasil como uma das atrações do Ressonância #7.

Com tudo isso em perspectiva, o finlandês ainda conseguiu tempo para uma conversa exclusiva com o Omelete. No bate papo o finlandês comenta um pouco sobre suas peculiaridades sonoras, seus remixes para Gorillaz, Coldplay e outros nomes conhecidos, sua paixão por trilha sonora de filmes e como isso influencia sua criação e sua sonoridade tão peculiares.

O cinema

Logo de entrada não dava pra deixar o cinema de fora da conversa. Yotto já afirmou em diversas oportunidades que grande parte de suas referências para criar vem de filmes e trilhas sonoras. E como todo artista que se utiliza de diversos pontos de atenção, comentar sobre quais filmes e trilhas mais o inspiraram foi algo desafiador: “Vou escolher duas bem clássicas às quais, ultimamente, retornaram com muita força aos meus ouvidos".

E ele não chega com pouca coisa, não. De entrada cita a trilha original de Twin Peaks, de Angelo Badalamenti. “É fantástica e tem esse clima bem sombrio que casa perfeitamente com a série. Eu era bem jovem quando foi ao ar e deixou uma marca profunda”. Seguindo para o cinema, Yotto se mantém entre as obras memoráveis. “Vou de Pulp Fiction desta vez. O modo como Tarantino lança mão de músicas bem escolhidas é muito único e uma abordagem bem diferente quando relacionada a compor algo específico para o filme”, destaca.

E será que agora, apesar dessa rotina maluca de DJ profissional, ele ainda consegue se manter atualizado com filmes e séries? Surpreendentemente, sim. Yotto comenta que nunca assistiu tantos filmes quanto agora. “Basicamente eu tomo uns 3 a 12 voos por semana, há uma vasta quantidade de coisas online na Netflix e para viagens mais longas as companhias aéreas, com sorte, passam algum clássico estranho que eu nunca vi”.

Antes de deixar a seara cinematográfica para trás, é necessário fazer a pergunta clássica: Se você pudesse escolher um filme ou uma série para musicar, qual seria? “Eu faria uma trilha para Psicopata Americano e faria dela algo totalmente distinto daquela loucura do pop rock dos 80. Mudaria o filme tanto quanto, mas seria divertido”.

A carreira profissional

Por mais vezes que possamos ouvir a história de artistas que aparecem e ganham visibilidade rapidamente, é sempre surpreendente descobrir que até dois anos atrás Yotto trabalhava em horário convencional para pagar as contas. “Eu deixei meu trampo a menos de dois anos, na verdade. Sempre fiz música como um hobby, então por um tempo [depois de passar a criar profissionalmente] eu senti que estava trapaceando na vida porque conseguia tirar disso meu sustento”. Mas será que o fato de agora trabalhar com música mudou a forma como ele cria e vê suas obras? “Não, isso não ocorreu. A maior parte do tempo livre agora eu gasto viajando. Entretanto, eu me mantenho ainda mais obcecado do que nunca por encontrar música nova”.

Yotto não é o único DJ conhecido a ter trabalhado com hospitalidade e restaurantes antes da fama. O produtor irlandês, Matador também desempenhou essa função antes de ser um DJ profissional. Sobre essa experiência e se ela o ajuda em sua nova carreira, Yotto diz que mesmo após ter trabalhado na área de hospitalidade por anos, de hotéis até o gerenciamento de um restaurante, não vê isso sendo efetivamente útil para o que faz. “Mas trabalhar em serviços te ensina a lidar com pessoas difíceis. Então este sempre é um trunfo valioso, tanto que penso que todos deveriam ter um emprego nesse âmbito em algum momento de suas vidas”.

Remixes, influências sonoras e novo disco

Yotto foi responsável por remixes de Coldplay, Gorillaz, London Grammar, Above & Beyond, entre outros nomes. Logo, ao trabalhar com artistas tão distintos, como funciona seu processo de remix? Ele escolhe a faixa ou os artistas enviam para que ele trabalhe?

De entrada, ele afirma que existem algumas maneiras para que isso aconteça. “Algumas vezes ouço uma faixa e pergunto se posso remixá-la, mas usualmente é o caminho inverso”. Já, sobre como ele dá sua assinatura sonora a uma gama de remixes tão diversa, Yotto comenta que geralmente procura retrabalhar faixas que não sejam dançantes ou fazer com que fiquem bem diferentes da original.

Ainda como parte da forma como o produtor e DJ cria suas atmosferas, algo que chama muito a atenção em seus sets é o uso de elementos percussivos, detalhe que leva a um conexão quase que instantânea com música africana e brasileira. Porém, sobre isso, Yotto confessa que não tem uma profunda conexão com os instrumentos percussivos, “mas sempre achei percussão orgânica algo muito intrigante. Mesmo assim, tive bongôs quando era criança. Acho que eles [elementos percussivos] trazem muita vida para a música dançante, que tende - por vezes - a ser muito reta e enrijecida”.

Já quase fechando a conversa, era hora de saber um pouco mais sobre o primeiro disco da carreira de Yotto, Hyperfall. Não dá pra negar que para um DJ, atualmente, buscar o lançamento de um álbum completo, parece algo um pouco fora dos planos, mas o finlandês justifica o projeto como uma abordagem diferente do que ele vem fazendo. “Foi divertido! É uma abordagem tão diferente! Fazer um álbum não é necessariamente algo que você precise hoje em dia. Só uma ou outra faixa de impacto e tudo bem. Eu apenas quis mostrar um outro lado das minhas produções. Levou um tempo, mas fiquei feliz com o resultado. A reação nos clubes têm sido ótima”.

Com essa nova leva de músicas chegando, prontas para contar uma nova história, ainda sobrou tempo para saber do DJ, quais faixas ele indicaria para um amigo que quisesse conhecer melhor o que ele produz. E são três,  "North", "Hear Me Out" e "Slowly". Cada uma de um momento diferente de sua jornada musical. E já que estamos falando em jornada, será que Yotto está feliz com tudo que tem acontecido com sua música e carreira?

“Eu estou muito feliz! Ainda sou grato por todos os dias em que acordo e posso simplesmente ir para o estúdio ou entrar num avião e seguir para uma festa. É incrível!”.

Vale lembrar que Yotto foi um dos artistas que fizeram parte do line-up da Ressonancia #7 que contou com nomes como Magda e Wehbba e já trouxe para suas edições anteriores Matador, Âme, Matthias Tanzmann, entre outros bons nomes do Brasil e do mundo. Para acompanhar o que deve vir nas próximas edições é só clicar aqui.

*Colaboração de Chico Cornejo