Criamos o Olimpo para Maiden, Metallica, Sabbath e ninguém mais entra. E agora?

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Criamos o Olimpo para Maiden, Metallica, Sabbath e ninguém mais entra. E agora?

Esse Olimpo é tão sagrado, é tão inatingível, tão exclusivo, que (adivinhem): ninguém mais consegue entrar

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28.07.2022, às 17H26
ATUALIZADA EM 28.07.2022, ÀS 17H41
ATUALIZADA EM 28.07.2022, ÀS 17H41

*texto por Daniel Dystyler

No livro Breves Respostas para Grandes Questões (Editora Intrínseca) publicado após a sua morte em 2018, o físico Stephen Hawking diz: “No fim das contas, o fato de que nós, humanos, meras coleções de partículas fundamentais da natureza, fomos capazes de alcançar alguma compreensão das leis que nos governam – e nosso universo – é um tremendo triunfo.”

Nesse texto, o cientista mais reverenciado desde Albert Einstein fala da gigantesca dificuldade existente em tentar compreender o todo e as leis que o governam, sendo parte deste todo:  Como entender um deserto a partir da visão de um grão de areia? Como entender um oceano, a partir da visão de uma gota d’água? É quase impossível e esse é o “tremendo triunfo” da humanidade que ele se refere no texto. 

Hawking fala também da importância de entender as leis que nos governam para ajudar a estimar para onde vamos. Nós, o universo, a humanidade, a vida em si. Para onde vai? 

Ao ler esse trecho, fiquei pensando nas implícitas leis que governam o universo do heavy metal e se nós, headbangers, conseguimos, mesmo estando dentro dele, ter uma clara e verdadeira compreensão do movimento que foi criado em cima da pedra fundamental lançada em uma sexta-feira 13 de fevereiro de 1970.

Não me refiro apenas a entender seu passado e sua história que é repleta de livros, documentários, portais e claro, músicas que relatam tudo que aconteceu. Mas do futuro: para onde vai esse movimento, que já perdura por mais de cinquenta anos em mais de duzentos países? Vai continuar? Vai crescer? Vai sumir? É possível prever isso?

Tenho pensado muito nisso. O que vai acontecer com o movimento do metal?

Fundei o Wikimetal com Nando Machado e Rafael Masini, faz quase doze anos. As bandas grandiosas (as citadas no título, Black Sabbath, Iron Maiden e Metallica, apenas como exemplos de bandas verdadeiramente icônicas) já não eram novas na época da fundação do Wikimetal em 2011. Agora carregam mais uma década em suas costas.

Nesse curto (?) espaço de tempo desde a nossa fundação, vimos muitas bandas pararem e muitos heróis morreram. Andre Matos, Eddie Van Halen, Jeff Hanneman, Joey Jordison, Jon Lord, Lemmy Kilmister, Malcolm Young, Neil Peart, Taylor Hawkins, Vinnie Paul, apenas para citar alguns.

E nos próximos dez, vinte anos? O que vai acontecer é inevitável: a imensa maioria das bandas lendárias, senão todas, irão parar. E muitos dos nossos heróis – muitos, mesmo – infelizmente, nos deixarão. E o que vai acontecer com o movimento? Para tentar estimar as alternativas que temos para nosso futuro, uma rápida volta ao passado.

Desde sua fundação, o heavy metal sempre manteve uma estética clara e algumas características muito bem definidas. Sobre a estética (os temas, as roupas, o visual, as cores, etc) não preciso discorrer: Todos sabemos o que é o heavy metal sob esse aspecto. Sobre as características do movimento, elas mudaram com o passar do tempo, porém algumas características fundamentais, se mantém até hoje. 

É um movimento de renegados, de outsiders. De quem não pertence ao mainstream. É também um movimento que valoriza um certo virtuosismo musical presente em diversos subgêneros.

E um pouco por conta disso, é um movimento que nutre e alimenta uma certa idolatria. Uma simbiose entre público e banda, entre fãs e ídolos. Tony Iommi é o Homem de Ferro, Ozzy Osbourne é o Príncipe das Trevas, Rob Halford é o Deus do Metal, Steve Harris é Patrão, Gene Simmons é o Demônio, Angus Young nem sei o que é (só sei que é a coisa mais espetacular de ver ao vivo) e o Lemmy é o badass que manda em todo mundo.

Ou seja, criamos uma mitologia. Um universo. Criamos um Olimpo como foi feito na Grécia alguns séculos atrás. Ou mais recentemente em Star Wars, Senhor dos Anéis, Game of Thrones ou Harry Potter. Só que o nosso Olimpo é real. De carne e osso. São heróis que existem. Em outras palavras:

Nós, fãs de heavy metal, erguemos a barra muito lá em cima. Criamos um Templo Sagrado, um Olimpo acima das nuvens que só algumas poucas bandas têm “capacidade” e merecem chegar lá. E quando chegam, elas entram no nosso Olimpo, e ficam lá pra sempre.

É o caso das três bandas citadas no título, mas também de outras como AC/DC, Accept, Anthrax, Deep Purple, Def Leppard, Dio, Guns N’ Roses, Helloween, Judas Priest, King Diamond, Kiss, Led Zeppelin, Megadeth, Mercyful Fate, Motörhead, Ozzy Osbourne, Pantera, Queensrÿche, Rainbow, Rush, Scorpions, Sepultura, Slayer, Slipknot, Van Halen, Whitesnake.

É claro que dependendo do gosto de cada um, essa lista vai variar um pouco. Esticando a corda, eu poderia chegar talvez em umas cinquenta bandas que entrariam nesse nosso “Olimpo dos Deuses.” Lindo. Perfeito. Maravilhoso. Só tem um problema. Esse Olimpo é tão sagrado, é tão inatingível, tão exclusivo, que (adivinhem): Ninguém mais consegue entrar.

Não foi proposital nem premeditado. Mas aconteceu: Nós, fãs de metal, erguemos tanto a barra, repetimos à exaustão que nossos heróis são tão incríveis e que nossas bandas são tão fantásticas, que ninguém mais, nenhum músico novo, ninguém que apareça agora, está à altura de conseguir atender esses requisitos pra entrar nesse suposto Olimpo. Dado esse cenário, temos quatro perguntas fundamentais a serem respondidas:

(1) Quem criou esse problema? Resposta: Nós, os fãs de heavy metal. 
(2) Por que isso é um problema? Resposta: Porque em breve, todas essas bandas deixarão de existir e não teremos nenhuma delas em atividade.
(3) Quem tem que resolver esse problema? Resposta: Nós, os fãs de heavy metal
(4) Como?

Ah.... Finalmente chegamos no ponto de todo esse texto. Como resolver esse problema? É simples. Na real, é simples porque não existem muitas saídas nem muitas alternativas. Apenas duas. 

A primeira alternativa: se mantivermos o Olimpo tão lá em cima, e considerando todos os fatores emocionais, cognitivos, memórias afetivas que fazem com que “nada seja tão bom como era antes”, simplesmente nunca ninguém vai entrar mais lá. E como “logo menos” todo mundo vai morrer, o heavy metal irá junto. Por favor não me entenda mal: O legado do metal, ficará. Para sempre.

Quem quiser ouvir o Paranoid do Sabbath, o Killers do Maiden ou o Ride The Lightning do Metallica pode fazer isso hoje, amanhã, em vinte anos, em cem anos ou em trezentos anos (contando que a humanidade não se destrua antes). Tecnologia para isso já existe hoje. Será exatamente igual ao que fazemos atualmente para ouvir clássicos de trezentos anos atrás como Beethoven, Mozart ou Bach

Mas não é disso que estamos falando. Estamos falando do movimento. O metal, como movimento, angariando novas gerações, lotando casas e estádios, com bandas novas, discos novos, e estilos novos de metal rolando. Isso não vai existir mais, se mantivermos o Olimpo acima das nuvens. Essa é a opção 1. Deixar a barra alta e o metal deixará de existir como movimento e permanecerá apenas com o seu legado para quem quiser conhecer, tal qual é a música clássica.

Uma extensão da opção 1 (vamos chamá-la de “opção 1 otimista”) é que o metal não vai deixar de existir por completo, porém será tão pequeno que vai passar a ser um nicho muito específico. Como hoje é o jazz, o tango ou a cumbia (pra falar qualquer coisa... são centenas de gêneros nesse tamanho). Existem novas bandas de jazz (ou de tango ou de cumbia), angariando novos adeptos hoje em dia? Sim. Mas é um movimento tão pequeno, específico, geograficamente localizado e nichado que não é relevante para a cena da música mundial.

Porém, existe a opção 2. Ela é muito mais desafiadora, mais trabalhosa. Exige muito mais comprometimento dos que se dizem verdadeiros amantes da música pesada. Mas é muito mais recompensadora. Trata-se de renovar o movimento. Como? 

Precisamos de várias coisas e não pretendo listar todas. Mas gostaria de deixar uma única dica básica, a ser aplicada por todos aqueles que realmente querem manter o movimento vivo e que dizem que metal é pra vida toda, que metal é muito mais do que música, que ser metal é um estilo de vida. A dica: entender que esse imediatismo e julgamento tão severo, antes de conhecer de fato qualquer banda nova, não ajuda em nada. Só atrapalha e está (literalmente) matando aos poucos o movimento.

Não adianta ouvir 874 vezes o Reign In Blood, e ouvir ½ vez qualquer disco novo de qualquer banda nova e dizer “ah.. não é tão bom como antigamente.”

É ter a humildade de entender que na época que o Black Sabbath lançou seu tão idolatrado primeiro disco, a imensa maioria das críticas foram muito negativas. Foram desrespeitosas! A revista Rolling Stone através do lendário Lester Bangs, disse “é tipo um Cream, mas bem pior! O álbum todo é uma enganação, com uns títulos sombrios e letras vazias (...). Os vocais são esparsos e a maior parte do álbum é preenchida com lentas linhas de baixo sobre uma guitarra que se prende a imitar os claptonismos dos piores momentos do Cream.”

Mas foi o tempo que o sedimentou para se tornar a verdadeira obra-prima revolucionária que é o primeiro disco do Sabbath, a pedra fundamental do heavy metal, lançado numa sexta-feira 13 de fevereiro de 1970. Será que não estamos matando no berço, possíveis candidatos a novos membros do Olimpo?

E não adianta dizer “ah, mas hoje em dia não tem nada de bom sendo lançado”. Isso simplesmente não é verdade. Na real é o contrário: hoje em dia tem muito mais (mas muito mais) lançamentos legais e interessantes, do que jamais houve. Cada semana, o Wikimetal publica uma playlist com todos os novos lançamentos. São muitos!

Eu tenho uma playlist com tudo de bom que saiu no ano que eu atualizo toda semana. Estamos no meio de 2022 e já tem mais de 20 horas de músicas excelentes. Então a dica é: calma. Vamos ouvir mais. Vamos explorar mais. Vamos dar mais chances.

Se surgirem meninos de vinte anos tocando muito, não vamos desmerecer logo de cara dizendo “ah, isso é cópia de Led Zeppelin, não presta, é lixo.” Eles podem evoluir. Podem melhorar. Você mesmo, depois de ouvir mais do que ½ vez, pode gostar mais. Você pode ver ao vivo e mudar de opinião. Essa dica parece simples e fácil de ser seguida. Não é. 

É muito difícil de ser implementada na prática com o bombardeio de informações, redes sociais e distrações que sofremos atualmente. Mas essa dica mudará o destino do movimento do heavy metal. Essa dica exige que as pessoas sejam corajosas a ponto de soltar (um pouco) as amarras das bandas antigas que tanto amamos. Que sejam curiosas para descobrir novas bandas. Que sejam determinadas a ponto de ouvir e reouvir uma, duas, dez vezes um disco antes de julgar. Faz com que as pessoas superem as probabilidades e incluam novas bandas no Olimpo. Nós, headbangers, podemos mudar o futuro do metal. É possível.

Eu comecei esse texto com o gênio Stephen Hawking. Por que não terminar com ele? Sem dúvida ele escreve melhor do que eu. No mesmo livro já citado, ele conclui o capítulo com uma frase que me fez achar que ele estava escrevendo para a nova geração de headbangers. Que ele usou sua mente fantástica para falar sobre o destino do heavy metal:

“Somos todos viajantes do tempo em uma jornada rumo ao amanhã. Mas vamos trabalhar juntos na construção desse futuro, um lugar que queremos visitar. Seja corajoso, seja curioso, seja determinado, supere as probabilidades. É possível.”

PARA OUVIR

Nita Strauss deixou recentemente a banda de Alice Cooper para se juntar à cantora pop Demi Lovato, causando uma comoção entre fãs que consideraram a escolha profissional um sinal de falta de “fidelidade” ao metal. Será? 

Esse é um dos temas discutidos no episódio #348 do podcast Wikimetal pela nossa redação que debate sobre o caso de Nita e reflete se o mainstream voltou a olhar para a música pesada, considerando o flerte cada vez mais intenso de artistas de outros gêneros com o rock e metal, de Miley Cyrus a Machine Gun Kelly.

Ouça e veja aqui no Spotify.

WIKIMETAL RECOMENDA

O VIPER lançou hoje, 28, o clipe oficial da faixa “Freedom of Speech”. Com direção de Caio Cobra, diretor de Intervenção e Virando a Mesa (Netflix), o clipe foi gravado no Memorial da América Latina, em São Paulo. A música foi composta pelo guitarrista e cofundador Felipe Machado e traz como tema a liberdade de expressão. É o segundo single de "Timeless", primeiro disco inédito da banda em 15 anos.

O clipe traz a formação atual do VIPER, que também gravou o novo disco: Leandro Caçoilo (vocais), Felipe Machado e Kiko Shred (guitarras), Pit Passarell (baixo e vocais) e Guilherme Martin (bateria). O álbum é produzido por Maurício Cersosimo, que já trabalhou com artistas como Paul McCartney e Avril Lavigne. 

Sobre o Wikimetal

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