James Newton Howard, o compositor que fez falta em Vidro

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James Newton Howard, o compositor que fez falta em Vidro

Nova fase de M. Night Shyamalan traz West Dylan Thordson na trilha sonora

Julia Sabbaga
23.01.2019
15h37

Existem algumas colaborações entre diretor e compositor que marcaram o cinema. Steven Spielberg e John Williams, Hitchcock e Bernard Herrmann e Christopher Nolan e Hans Zimmer são algumas das mais notáveis. Para M. Night Shyamalan, o compositor que soube potencializar e tirar o maior proveito possível do seu clima de suspense é James Newton Howard. Infelizmente, no último filme do diretor, Vidro, quem tomou as rédeas da trilha sonora foi West Dylan Thordson, e a ausência de Howard definitivamente não passou despercebida.

Howard marcou as trilhas sonoras de Shyamalan desde o estouro do cineasta em Hollywood, em 1999, com O Sexto Sentido, e permaneceu durante os altos e baixos da carreira do diretor até Depois da Terra, recebendo até elogios pela trilha sonora do amplamente criticado O Último Mestre do Ar. Foi a partir de A Visita que Howard não esteve mais ao lado de Shyamalan. Apesar de não haver uma confirmação de nenhum dos dois nomes sobre o motivo da ruptura, é possível que Howard tenha deixado de ser uma opção a partir do momento que o diretor transitou para um estilo de cinema mais barato. Enquanto o orçamento de seus filmes pré-Antes da Terra eram em média US$ 80 milhões, seus três longas desde A Visita têm um orçamento médio de US$ 11 milhões. Desde seu último filme com Shyamalan, Howard intensificou o trabalho com seu outro parceiro frequente, o diretor Francis Lawrence, compondo a música para todos os filmes de Jogos Vorazes e Operação: Red Sparrow, além de trabalhar em blockbusters de grandes estúdios, como Animais Fantásticos, Branca de Neve e o Caçador e O Caçador e a Rainha de Gelo.

A filmografia de Howard pode ser caracterizada como versátil - o compositor já trilhou filmes como Uma Linda Mulher, Space Jam: O Jogo do Século e O Fugitivo -, mas suas composições nos filmes de Shyamalan sempre foram bem consistentes. Com um estilo clássico, temas marcantes e uma preferência por motivos melódicos intensos, Howard sempre entregou uma dramaticidade única, seja em trilhas com poucos instrumentos, como O Sexto Sentido e A Vila, ou com grandes orquestras, como O Último Mestre do Ar. Suas composições, claro, variam amplamente, mas do mesmo modo que os filmes de Shyamalan mantinham um ritmo característico, as trilhas de Howard construíam mistério, tensão e drama de uma maneira única.

Quando Shyamalan retornou aos holofotes com Fragmentado, sua parceria com James Newton Howard já havia sido quebrada com A Visita, mas assim como a maioria dos filmes no estilo found footage, o terror de baixo orçamento não trouxe nenhum compositor associado (exceto por um tema de epílogo composto por Paul Cantelon). No início da produção de Fragmentado, Shyamalan então anunciou que a trilha sonora de seu novo filme ficaria por conta de West Dylan Thordson, compositor com pouca carreira no cinema, com seu maior trabalho tendo sido em Joy: O Nome do Sucesso, em parceria com David Campbell.

A trilha sonora de Fragmentado é totalmente diferente do tradicional dos filmes de Shyamalan. Em um rumo mais próximo às trilhas de David Fincher, Thordson trabalhou em toques mais eletrônicos e criou uma música de suspense que, ao contrário de um clima clássico, entregou um tempero mais moderno à filmografia do diretor. Mesmo diferente do familiar, a trilha sonora de Fragmentado é louvável, mas inserida do contexto de Shyamalan, é definitivamente uma ruptura em seu estilo.

O fechamento da trilogia que começou em Corpo Fechado trouxe Thordson mais aprofundado no sentimento crescente de tensão, o que fica claro principalmente no terceiro ato do filme, quando um batimento forte embala as cenas de conflito. Comparando a cena de batalha final de Vidro com Corpo Fechado, a transição de estilo de Shyamalan fica clara. Ao invés de se aprofundar em uma orquestra clássica e criar uma cena que pesa mais ao melancólico, como no primeiro filme, o último capítulo da trilogia foca mais em intensidade de ritmo, criando uma sensação de urgência imediata que é raramente vista nos filmes do diretor.

Apesar do estilo já estar presente em Fragmentado, a trilha sonora de Vidro deixou a ausência de Howard mais clara por estar temperada, durante o filme inteiro, pelos motivos criados pelo compositor de Corpo Fechado. Já assumidamente como um capítulo de trilogia, Shyamalan não economizou as melodias do primeiro filme, e cada vez que trechos dos temas do personagem de David Dunn surgem na trama, o filme ganha um toque de nostalgia. M. Night Shyamalan transitou de estilo nos últimos anos, e Thordson representa a mudança perfeitamente, mas a parceria com Howard foi tão frutífera que é difícil não sentir saudades.