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The Beatles: <i>Let it be... naked</i>

The Beatles: <i>Let it be... naked</i>

Alexandre Nagado
29.12.2003
00h00
Atualizada em
12.11.2016
04h03
Atualizada em 12.11.2016 às 04h03
Let it be... naked - The Beatles
5 ovos!

Falar do novo lançamento envolvendo a marca Beatles somente pode ser possível analisando dois lados: o aspecto histórico e o musical. Voltando a 1968, vamos lembrar o que acontecia com a maior banda de todos os tempos, desgastada com anos de sucesso e convivência muitas vezes turbulenta. Com o clima ficando cada vez pior por causa do ego controlador de Paul McCartney, do distanciamento de John Lennon (cada vez mais ligado em Yoko Ono a ponto de levá-la aos ensaios, irritando os outros), da angústia de George Harrison em se ver podado pela dupla central e pelo cansaço e desapontamento de Ringo Starr, a banda estava acabando. Alguma coisa precisava ser feita.

De volta às origens... ou quase

Para tentar salvar a banda, o projeto Get Back idealizado por Paul visava criar um filme e um disco ao vivo para unir o quarteto como nos velhos tempos, com novas músicas gravadas sem truques de estúdio e nem orquestras - somente os quatro e, eventualmente, o tecladista convidado Billy Preston. O trabalho de composição, discussão de arranjos, ensaios e um show de encerramento seriam filmados, expondo o processo criativo do grupo.

Eles foram filmados o tempo todo, o que só aumentou as tensões já existentes. Eles bem que tentaram, mas não teve jeito. Paul não havia mudado, ninguém tinha mais saco de olhar pra cara do outro e isso acabou transparecendo nas filmagens que foram depois editadas no filme Let it be. E o que deveria ser um grandioso show de encerramento virou uma apresentação improvisada (e interrompida pela polícia) no telhado da gravadora Apple, no início de 1969. Ao final, cada um seguiu seu caminho.

Ainda em 1969, resolveram gravar um disco de despedida digno, o Abbey Road. Depois de anunciado o fim oficial da banda, no início de 1970, o produtor Phil Spector foi chamado para reunir o material das sessões de Get Back e o resultado foi o disco Let it be. Paul foi o mais contrariado, mas foi voto vencido na ocasião. Assim, Spector, amigo de Lennon, usou seu famoso estilo wall of sound e acrescentou coral e orquestra no que deveria ser um álbum cru e simples. O resultado, mesmo belíssimo, continuou incomodando Paul, que esperou décadas para conseguir viabilizar a edição sem cortes que ele sonhava. Entretanto, este recém-lançado Naked combina tomadas diferentes, não sendo uma versão tão natural como poderia ter sido. Mesmo assim, muito do que foi tocado ao vivo foi preservado, formando um importante documento histórico.

A versão foi elaborada por Paul, com aprovação total de Ringo e do falecido George, e até com a autorização de Yoko Ono, seu eterno desafeto.

Segundo Ringo Starr, criador do nome do disco, o novo álbum não vem para deixar de lado a versão de Spector, e sim para oferecer uma outra opção aos fãs, com uma visão mais próxima da de Paul que, afinal de contas, foi o mentor do projeto original. O CD duplo vem com um luxuoso encarte com trechos de conversas entre os músicos (tudo em inglês, sem tradução), extraídos do livro Let it be original.

Som puro

Musicalmente falando, Naked é maravilhoso, com um som nítido e mixagem que valoriza cada performance em suas 11 faixas. A versão mais diferente da originalmente lançada, "The long and winding road", permanece uma das mais belas canções de "amor perdido" escritas por Paul McCartney, numa interpretação memorável. Agora, semelhante ao que foi mostrado no Anthology, a versão original do clássico ganha seu registro definitivo em CD.

Don´t let me down, criação de Lennon que foi lançada em 1969 como single separado, foi incluída no Naked, entrando no lugar das vinhetas Dig it e Maggie Mae. As tais vinhetas eram bem dispensáveis, mas importantes por trazerem a rara assinatura conjunta dos quatro Beatles. Across the universe, outra das canções de Lennon, talvez seja a única que saiu perdendo com a versão "nua", pois o arrepiante arranjo de Phil Spector acabou fazendo falta.

As duas faixas escritas por George, I me mine e For you blue permanecem sem grandes mudanças, assim como Two of us, baladinha country que puxa esse lançamento. One after 909 era um velho rock do início de carreira que foi incluído no projeto. Se o mesmo não tivesso sido abandonado e o show de encerramento tivesse sido como planejado, outras canções antigas teriam entrado na listagem. A ordem das canções também é diferente, e as rápidas falas de gozação foram deixadas de lado.

O segundo CD, Fly on the wall, apresenta trechos de conversas e ensaios de músicas variadas. Uma jóia para beatlemaníacos, que poderia ao menos ter trechos musicais maiores, já que alguns duram míseros segundos. Ficou meio que como um fragmento perdido da trilogia de CDs duplos do Anthology.

Para as novas gerações que conheceram os Fab Four através das coletâneas The Beatles 1 e Anthology, é obrigatório ver como cantava e tocava a banda que mudou a história da música no século XX.

Tracklist:

  1. Get back
  2. Dig a pony
  3. For you blue
  4. The long and winding road
  5. Two of us
  6. I´ve got a feeling
  7. One after 909
  8. Don´t let me down
  9. I me mine
  10. Across the universe
  11. Let it be