Thalles questiona religião, intolerância e violência em clipe de “Olívia”

Créditos da imagem: Divulgação/Thalles Cabral

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Thalles questiona religião, intolerância e violência em clipe de “Olívia”

Produção conta com a multiartista Danna e tem como foco a conscientização da luta contra a transfobia

Jacídio Junior
24.04.2019
12h45
Atualizada em
26.04.2019
12h31
Atualizada em 26.04.2019 às 12h31

A música independente brasileira, há algum tempo, tem se mostrado um bom lugar para artistas focados em entregar mensagens interessantes por meio de suas produções. Thalles Cabral, jovem artista brasileiro, faz parte desse grupo e nesta quarta (24) - unindo suas duas formas de expressão criativa, ele também é ator - lança o clipe de “Olívia”, música que integra seu primeiro disco, Utopia.

O projeto que apresenta forte mensagem contra a transfobia, conta com a colaboração criativa da multiartista Danna, que também estrela o vídeo, e é composto por um recorte forte e incisivo: Misturando elementos religiosos, agressão física, verbal e símbolos cristãos que resultam em uma mensagem direta e clara para quem assiste - veja abaixo.

O artista conversou com o Omelete para falar um pouco mais sobre seu processo criativo, a ideia para o clipe e como surgiu a parceria com Danna. A conversa você lê abaixo.

De entrada, Thalles comenta que a ideia para a composição da letra de “Olivia” surgiu logo depois de assistir o espetáculo BR Trans, de Silvero Pereira, no Festival de Teatro de Curitiba:

“Aquela peça me impactou muito, saí transtornado. Eu não sabia que o Brasil é o país que lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais e aquilo foi como um soco no estômago”.

Thalles comenta ainda que a peça, por meio da apresentação de “índices chocantes”, retrata do tema de maneira muito específica e isso o levou a estudar o tópico mais a fundo.

“O roteiro do clipe partiu de um vídeo que circulava na Internet no qual uma mulher trans era agredida na rua por alguns homens. Diversas pessoas assistiam à cena, filmavam (inclusive o autor do vídeo) e não faziam absolutamente nada. Aquilo me tocou muito, um misto de vergonha e indignação. ‘Olivia’ nasceu disso”, enfatiza.

A partir desse tópico surgiu a ideia do clipe que apresenta uma mistura forte de agressão física e verbal em conjunto com alguns símbolos cristãos. Sobre essa mistura para abordar um tema delicado, o artista comenta que as temáticas estão todas relacionadas quando o assunto é intolerância.

“Elas [as temáticas] foram aparecendo naturalmente. O vídeo mostra diversas formas de violência, agressão, constrangimento, humilhação em diferentes níveis. Muitas dessas reações violentas vêm mascaradas por um discurso religioso. Mas essa mesma religião prega o ‘amor ao próximo’. É uma incoerência muito grande. Estamos vivendo num país onde o Presidente legitimou esse ódio às minorias. Eu me sinto no dever de me posicionar, usar o espaço que tenho por meio da arte para rebater esses discursos e levantar questionamentos. A vida de todo mundo importa”.

Toda essa força das imagens que compõem o vídeo são potencializadas pela entrega de Danna à história e isso vai muito além de sua atuação, já que ela também integrou o time criativo do projeto. Sobre essa troca e o convite para a participação de Danna no time criativo, Thalles comenta que descobriu o trabalho da artista na Internet e posteriormente a viu em uma peça de teatro em São Paulo: “Fiquei encantado com a maneira genuína como ela se expressa. Dias depois fiz o convite para que ela fosse protagonista do clipe de ‘Olivia’. Felizmente a identificação foi mútua e imediata”.

Por fim, é interessante perceber como os meios artísticos pelos quais Thalles se expressa influenciam sua criação e a maneira como entrega sua obra musical. Mas será que o artista consegue aferir como essa junção de coisas afeta a maneira como cria?

“Sim, tenho consciência de que [essa mistura] influencia, sim, não só as composições (letras e melodias), como a parte visual”, pondera.

Ele ainda faz questão de ressaltar que o cinema tem um papel importante como parte da forma como entrega seus conceitos: “Minhas referências de estética, universos, atmosferas, a maneira como eu vejo as coisas foi toda treinada e educada pelo cinema. Minhas músicas contam histórias, acompanham personagens, tem um quê de cinematográficas. E acho que isso se torna mais visível nos videoclipes”, finaliza.

Thalles, aproveitando o lançamento do clipe, mostra seu repertório em show no Z, no próximo sábado (27), com abertura de Dani Vellocet, e participação de Geo e Ana Larousse - veja as informações.