Roger Waters aguenta vaias e faz show de protesto em clima tenso

Créditos da imagem: Instagram/Reprodução

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Roger Waters aguenta vaias e faz show de protesto em clima tenso

Fundador do Pink Floyd fez espetáculo imersivo, mas apresentação dividiu o público do Allianz Parque

Julia Sabbaga
10.10.2018
01h55
Atualizada em
10.10.2018
13h40
Atualizada em 10.10.2018 às 13h40

O show da turnê Us + Them, do fundador do Pink Floyd, Roger Waters, em São Paulo, contou com clássicos de diferentes álbuns e fases da banda, como "Another Brick in the Wall", "Wish You Were Here" ou "Money", além de faixas da sua carreira solo. E enquanto as músicas do Pink Floyd ainda soam eternas, e ficaram impecáveis na performance da banda que acompanha o músico, Roger Waters deixou o palco da cidade com um impacto maior: um protesto em um contexto eleitoral delicado de um país dividido, que gerou gritos dos dois lados, e roubou holofotes do prisma gigante de Dark Side Of The Moon que brilhou no centro do Allianz Parque. 

A apresentação de Waters é uma experiência única de música, som, luz e imersão. Desde o começo, com "Breathe", o músico constrói um espetáculo que se utiliza de uma acústica singular e cria uma atmosfera com efeitos visuais impressionantes, música atrás de música, e não apenas pelas imagens no telão. Todo o estádio é pensado com postes posicionados para criar o clima perfeito, construído metodicamente. Mesmo com toda a construção do show, a banda de acompanhamento do cantor está acima de tudo. Com nada mais que roupas pretas, os dez músicos que preenchiam o palco pareciam pequenos perto de tudo que acontecia ao seu redor. 

Boa parte do show é cantada pelo guitarrista de Waters, Jonathan Wilson, mas a atração principal nunca sai de foco, em partes brilhando com o som de baixo, ou usando seu vozeirão por cima dos instrumentos. O setlist de Us + Them, também, é construído muito bem, prevendo a resposta do público. Quando a empolgação cresce com a evolução que passa por "Time", "The Great Gig In The Sky" e "Welcome To The Machine", Waters não deixa o climax chegar tão rápido, e emenda três de suas carreira solo. As ótimas "Déja Vu" e "Picture That" preencheram um espaço discreto, mas o show nem tem pretensão de fazer com que as faixas solo tenham o mesmo efeito. A luz e a atmosfera de brisa interrompem para as canções do álbum Is This the Life We Really Want?, mas a energia do público retoma quando Waters volta com "Wish You Were Here" e emenda com "Another Brick in the Wall", duas faixas que criaram respostas tão entusiasmadas quanto opostas. Rapidamente, o público deixou de iluminar o estádio com luzes emotivas para fazer o chão tremer com a canção pesada. Finalizada a primeira parte do show, Waters deixou o palco, pedindo 20 minutos de intervalo. 

Foi aí que o clima mudou. Durante a pausa do músico, protestos podiam ser lidos no telão, criticando Mark Zuckerberg, a mídia, Israel, Donald Trump e regimes neo-fascistas. Quando o nome de Bolsonaro apareceu no telão entre os governos fascistas em ascensão, o estádio se dividiu e o clima de harmonia já não era mais o mesmo. Enquanto metade gritava a favor do protesto de Waters, a outra metade se expressava contra, até que Waters voltou ao palco para a metade final, e mais política do show. E enquanto o foco era o presidente Trump, em faixas como "Pigs" e "Money", o público brasileiro se acalmava, com poucos berros que podiam ser ouvidos aqui e ali. O porco gigante que passeou pelo Allianz também ajudou a descontrair, mas o clima já não era o mesmo, e a tensão entre dois lados da plateia era palpavel. 

Waters encaminhou o fim do show com "Brain Damage" e "Eclipse", momento mais bonito da apresentação. Quando o prisma de luz surgiu no meio do estádio, o público se uniu momentaneamente, abismado com a beleza do que se passava, e ainda mais quando as cores preencheram a forma e fizeram a capa de The Dark Side Of the Moon surgir no Allianz Parque. E no momento em que todos admiravam o que se passava, por não mais que 3 segundos, a hashtag de "Ele Não" surgiu no telão. A partir daí, a manifestação engoliu o show de Roger Waters. 

O vocalista esperou mais de cinco minutos, após o fim da música, para que as vaias se acalmassem. Ligeiramente desconfortável, mas provavelmente acostumado com protestos, Waters só encarou o público de frente, e tentou falar algumas vezes, sem sucesso. As vaias se interromperam brevemente para ouvir a apresentação da banda, e logo retornaram. Waters conseguiu distrair o público algum tempo depois explicando "Eu sabia que isso ia acontecer. Porque quando venho para a América do Sul, e especialmente para São Paulo, sei que vocês são cheios de amor". O músico poderia parecer intimidado com as vaias, mas ele não poupou o discurso. Depois de um pronunciamento sobre a Palestina, Waters se intrometeu na política brasileira: "Sei que vocês tem uma importante eleição chegando. Não é da minha conta, mas eu preciso dizer que sou contra o fascismo. E como um crente no direito de protestar pacificamente, eu sou contra a defesa de uma ditadura militar". As vaias só cresciam, e as palmas tentaram amenizar a situação, mas a atmosfera era, definitivamente, mais agressiva. Para tranquilizar, Waters emendou um discurso sobre direitos humanos que ninguém mais ousou interromper, e conseguiu chegar rapidamente às faixas finais, "Mother" e "Confortably Numb". Mas desafiador como sempre, o "Ele Não" surgiu novamente no telão, e o público começou a deixar o Allianz. 

Roger Waters saiu de palco com sensação amarga de ter testemunhado uma divisão no Brasil, expressada com todo o fervor dos dois lados de seu público. Mas o seu espetáculo de som e luz não é, de jeito nenhum, menor por isso. Na realidade, Waters continua se provando o perfeito rockstar com tudo que tem direito. Arte, protesto, e liberdade de expressão.