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S. F. Sorrow

Repetição: a marca maior do gozo. Então repetimos.

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No final dos anos 60, o rockn roll queria ser sério. O rockn roll não queria mais saber apenas de carros, surf, velocidade, amores impossíveis, amores perdidos, amores encontrados e demais juvenilidades clássicas.

O rock queria saber de revolução, de ampliação de consciência, de problemas sociais, de contaminação ambiental, de operários, de tragédias familiares, de sexo sem compromisso.

O rock pôde ser cínico, sarcástico, desbocado, dolorido, triste, maluco, barulhento, antigo, vanguardista e, sobretudo, livre.

Livre para se referir ao erudito, ao contemporâneo, ao dissonante, ao dodecafônico e, ao mesmo tempo, não se comprometer com a formalidade de nenhuma destas formas cultas de música.

E livre para o operístico. E veio ao ouvido a rock ópera.

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Uma concepção que, sem se afastar do andamento tradicional do rock, constitui um álbum conceitual que relata uma história com coerência. Uma história com personagens que aparecem faixa após faixa cantando o papel, a função, naquele relato. Reside aqui a distinção formal entre discos conceituais como o Sgt. Peppers, dos Beatles, o Tarkus, do Emerson, Lake & Palmer, ou o Every good boy deserves favour, do Moody Blues, e aquelas composições que se consagraram ao estilo ópera.

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Não sou um historiador. Imagino, não obstante, que definir o antes e o depois no correr dos acontecimentos é o real que escapa invariavelmente ao estudioso da história.

Foi o teatro ou foi uma banda de rock que começou esta brincadeira?

Digo que foi o teatro se anoto que 1967 foi o ano de estréia da peça Hair, de Rado, Ragni e McDermot. Sem dúvida um musical rockn roll, composto por sujeitos sem ligação com nenhuma rock ensemble e relacionados diretamente ao teatro. Este espetáculo relata a história de um patriota do sertão norte-americano que, orgulhoso, vem a Nova York para reunir-se ao exército e lutar pela liberdade naquele exótico e sub-desenvolvido Viet-Nam. O encontro com um bando de hippies muda por inteiro o destino daquele coração patriótico. Sexo, drogas e rockn roll desviam o moço de seu propósito superior.

Digo que foi uma banda de rock se escuto o segundo disco do The Who, A quick one, de 1966, e encontro uma faixa de nove minutos, a quick one while he´s away, que conta uma história e lembra, sem a sofisticação posterior, passagens que a banda repetiu no espetacular Sell out e em Tommy.

Se foi o teatro, parabéns ao teatro por antecipar e sacar que a simplicidade musical rockn roll não obrigava à simplicidade intelectual.

Se foi uma banda, qual a primeira banda?

O The Who, se vale o dito acima.

O Electric Prunes se ampliamos o conceito e damos a um curto disco com seis faixas este título de primeira ópera rock. Caberia, então, a uma genuína banda de garagem o galardão, apesar da composição da Missa em F Menor (Mass in F Minor) ser de David Axelrod, um músico de formação erudita que não pertencia à banda. E este disco vale ouvir. Cantado em latim, desfila uma missa. Nada de gospel. Nem gospel interessante, nem gospel babaca. Puro rock criativo.

The Pretty Things se o conceito é o descrito acima. Composta em 1968, a peça da banda britânica - certamente, uma banda injustiçada por pouco conhecida - levanta o título de primeira ópera rock. É a história de Sebastian F. Sorrow. Um filho de família operária. E ninguém sabia e ninguém se importava qual o nome que o F resumia. Vinha à luz S. F. Sorrow. A história escrita por Phil May, o vocalista da banda, e musicada pelos outros membros (Wally Allen, Dick Taylor, John Povey e Twink). A história relatada expõe o mesmo espírito da ignorância do nome que se escreve com a letra F. Algo de non-sense associado à dureza da vida operária invadida pelo que pode haver de surreal em uma cidade industrial. (Há uma bem cuidada edição em CD, publicada 30 anos após).

Um ano depois, Pete Townshend e o The Who roubam a cena com Tommy. A história do milagroso garoto que, sem desejar, cria uma seita de devotos. Cego, surdo e mudo, munido apenas de sua intuição, torna-se o maior entre todos os grandes magos do pinball.

Neste mesmo ano, 1969, não seria completa irregularidade lembrar o disco Arthur or the decline and fall of the British empire, do Kinks. Este disco, irônico como somente Ray Davies sabe ser, relata as desventuras da família de Arthur Morgan. Um Arthur a milhas de distância da grandiosidade e da lenda de seu xará medieval.

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E assim se sucedeu. Às vezes, o teatro soltava uma ópera rock (Jesus Christ Superstar, Godspell, Grease, Rock Horror Show), outras vezes, uma banda. O Who compôs Quadrophenia, em 1973. O Pink Floyd arrasou com The wall em 1979.

E, ano passado, mundo todo voltado para as eleições norte-americanas. Boa parte deste mundo todo torcendo por John Kerry e pelo juízo do povo americano. Boa parte do mundo decepcionou-se quando George W. Bush, o mentiroso, venceu.

Talvez não haja paradoxo mais interessante. Quando um movimento político profundamente ofensivo a uma certa mentalidade libertária ocupa o poder e repete a vitória em eleições, esta mentalidade reage.

E assim se deu. Ano passado um tom de política voltou ao rock. E voltou aos ouvidos uma ópera rock, se o conceito é o ampliado. O Green Day gravou American idiot. Um libelo, infelizmente derrotado, que dizia zieg heil para o distribuidor bombas: presidente Gasman.

Uma encarnação do mentiroso Bush. Não é o caso de desejar o fascismo para que a criatividade ressurja. Mas, que se trata de um fenômeno curioso a vantagem de criar arte por uma causa!

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