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TIME WAITS FOR NO ONE

Peço desculpas ao meio milhão de leitores pela ausência nos últimos três meses. O número gigantesco de mensagens que não recebi indica o vazio que a coluna causou. Mas as razões foram poderosas. Uma mescla de férias, excesso de trabalho, relação amorosa turbulenta e falência criativa dificultaram a escritura.

Omelete Recomenda

Kaleidoscope

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Tangerine Dream, do Kaleidoscope

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Não que alguma destas tragédias, à exceção óbvia das férias, inexista no presente momento. O problema, ou solução, é que, assim como o meio milhão de leitores, meu espírito ressentiu-se da ausência de um texto para o Omelete. Este troço vicia. Gosto de escrever a coluna, apesar do caráter bissexto em minhas atividades.

Vamos lá, então, escrever um texto criativamente falido e com o coração rompido. Nesta condição, certamente, repousa a razão do que resolvi escrever. Sobre bandas européias não obstante muito boas que deixaram pequenas marcas. Estiveram lá com os Beatles, Pink Floyd, Rolling Stones, Led Zeppelin, Black Sabbath, Yes e que tais. E nem chegaram a ser ‘one hit bands'. São ‘none hit bands'. As quais o tempo não esperou.

O volume II do Nuggets alertou-me para elas: Idle Race, Kaleidoscope (GB), Creation, Misundestood (formada por americanos), Love Sculpture, Dantalion's Chariot, Touch, Tomorrow, Les Fleur de Lys. Algo semelhante aconteceu do outro lado do Atlântico. A troika de Boston, Ultimate Spinach, Beacon Street Union, Orpheus, o Sonics, o Blues Magoos, o Kaleidoscope (USA) gravaram discos interessantes e simplesmente sumiram. É claro que as citações acima não esgotam a lista. Alguns músicos que compõem estas bandas fizeram trabalhos mais conhecidos posteriormente. O Tomorrow contava com Steve Howe, depois Yes, e John ‘Twink' Adler, depois Pretty Thimgs e Pink Fairies. O Idle Race com Jeff Lyne, depois ELO. Uma banda, o The Action, foi produzida por George Martin, o mesmo produtor dos Beatles, e não por poucos considerado o sustentáculo da criatividade do quarteto. Les Fleur de Lys teve na sua formação baixista Gordon Haskell. Dave Edmunds, criativo guitarrista do Love Sculpture, produziu o Motörhead.

Enfim, não era um grupo de nulidades a cometer músicas horríveis. Simplesmente não triunfaram. Difícil saber as razões disto.

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Um exemplo é o Kaleidoscope (GB). A banda começou em 1964 com o nome de Sidekicks. Época do reino absoluto do rock inglês. Gravou pouco (há uma compilação, em CD, de qualidade ruim). Em 1967, assumiu o nome Kaleidoscope. A carreira poderia deslanchar. Além dos compacto-simples (singles, no português atual), comuns nos anos 60, gravaram dois LPs interessantes: Tangerine Dream (1967) e Fainty Blowing (1969). O título dos discos indica, declaradamente, a opção pela psicodelia. São discos com uma música delicada, freqüentemente acústica, doce. As letras declarando singelo amor como em "Dear Nellie Goodrich": "Dear Nellie Goodrich/ I'm writing to you/ To tell you of my love/ Please don't be offended/ I mean you no harm/ Sure as the sun shines above/ Dear Nellie Goodrich/ I'm ending this letter/ I will wait patiently/ I wiil be thinking/ and dreaming about you/ dear Nellie, please think of me" (Querida Nellie Goodrich/ Escrevo a você/ Para falar do meu amor/ Por favor não se ofenda/ Penso que não a machuco/ Certo como o sol brilha acima/ Querida Nellie Goodrich/ Acabei esta carta/ Espero pacientemente/ Estarei pensando/ e sonhando com você/ querida Nellie, por favor pense em mim). Cantando o horror do amor em "Pleaase, excuse my face": "If my shyny eyes look sad/ Please, excuse my face/ Blushing, smiling through the tears/ Please excuse my face/ I feel dead, I'll hide myself away/ I think of you through crystal eyesight rain/ If you see me on the street/ please, excuse my face" (Se meus olhos brilhantes parecem tristes/ Por favor, desculpe meu semblante/ Envergonhado, sorrindo entre as lágrimas/ Por favor, desculpe meu semblante/ Sinto-me morto, escondi meu ser por aí/ Penso em você nublada por um cristal na chuva/ Caso me veja na rua/ Por favor, desculpe meu semblante). E, fundamentalmente, contam histórias de fadas relidas por um leprechaum lisérgico.

E nada disso foi suficiente. O próximo disco, White Faced Lady, não encontrou gravadora. E é um disco espetacular. Foi composto pelos responsáveis pela maioria das letras e melodias da banda, Peter Daltrey e Eddie Pumer, como mais uma rock-opera contando a história trágica de uma atriz. Apesar de todo o cuidado musical (orquestração, coro, melodias lindas e bem compostas) o disco veio a público apenas em 1991. O não sucesso obrigou-os a arrumar um lugar mudando o nome da banda. Passaram a ser o Fairfield Parlour. Um disco foi gravado: From Home to Home. Tanto o disco quanto o destino foram os mesmo. Belo disco, funesto destino. A banda acabou. Era formada por Peter Daltrey (teclado e vocal), Eddie Pumer (guitarra e vocal), Dan Bridgman (bateria e vocal) e Steve Clark (baixo). Deles, parece-me que apenas Peter Daltrey continua gravando. Com o mesmo destino.

Convido-os, assim como há um convite implícito neste escrito sobre o Kaleidoscope, a escutarem o disco do Touch. Gravado em 1969, leva o nome da banda. Composta por Jeff Hawks (vocal), Joe Newman (guitarra e vocal), Don Gullucci (teclado e vocal), Bruce Hauser (baixo e vocal), John Bordonaro (percussão e vocal). Estes cinco músicos compuseram um dos melhores discos daquele ano luminoso para o rock. Não chamaram a atenção. Os que gostam daquele momento miraculoso no qual a psicodelia virou rock progressivo, agradecer-me-ão para o resto da vida.

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Não é ocaso de dedicar glória ao fracasso. Se os leitores que não conhecem estas bandas quiserem escutá-las (há lojas em São Paulo onde são encontrados), ouvirão boa música, esmero nos arranjos, inspiração, poesia e trilharão um bom caminho musical. Isto é: não são fracassos. Como não é fracasso o que se perde pela vida. Ora: o negócio é pensar no jogo comercial. Pensar no funil que é operado de um lugar distinto da competência musical. Como não é possível deduzir que a maluquice drogada ou o desentendimento entre os membros da banda explique. Pink Floyd e Syd Barret é um exemplo, Mick Jagger e Brian Jones outro. John Lennon, Peter Townshend, Eric Clapton e a heroína também são exemplos que a ausência de sucesso não repousa em atos edificantes que teriam sido tomados por aqueles que foram para frente. O buraco é um pouquinho mais embaixo. Lula foi retumbantemente reeleito tendo todos seus homens de confiança envolvidos em corrupção e abuso de poder.

Há algo que escapa quando alguém se sai bem. O que é nenhum escritor de auto-ajuda descobriu.

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