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Knock on heaven's door

Algumas histórias são contadas sobre a passagem de Bob Dylan a São Paulo. Da outra vez que o moço esteve aqui foi eclipsado pela presença dos Rolling Stones. Mais ainda: os Stones acabavam de lançar o disco Stripped. O melhor disco dos Stones desde It's only a rock'n roll. Neste disco, a banda fez uma releitura acústica, ao vivo, de grandes canções. Nele duas músicas não compostas por Jagger & Richards: um clássico de Willie Dixon ("Little baby") e um clássico de Bob Dylan: "Like a rolling stone". Diga-se de passagem, que um imbecil do qual não me recordo (defendo-me bem de lembranças desagradáveis) escreveu, em um diário paulistano, que Dylan teria composto a canção em homenagem à banda. Muito mais fácil é Dylan ter homenageado Holden Caufield com a canção sobre estar por si só e ‘no direction home'. Dylan detestava os Stones naquele início dos anos 60. Chamava-os ‘uma banda de covers'. Não importa. Foi só um parêntesis. Importa que a versão dos ingleses foi um sucesso. Tocava no rádio e há uma chance de alguns conhecerem Bob Dylan por meio desta versão. Assim como, lá pela primeira metade dos sixties, Dylan ter sido ouvido antes na voz de Peter, Paul & Mary ou dos Byrds.

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Enfim, ninguém prestou atenção ao folk do americano na primeira visita. Afinal de contas, apesar da influência de Dylan na cultura musical ser bem maior e mais consistente que a influência dos Stones, o sucesso popular do último valeu mais que a intelectualidade mal humorada de Dylan.

Dylan voltou envolto na aura merecida.

Um poeta, um inovador, um compositor, um inventor. Mas: mal humorado, sem concessões fáceis ao populismo (o célebre sotaque de "boa noitche, Sao Paulo") e sem nenhuma intenção de simpatia mercadológica e publicitária. "Escutem-me e não me encham o saco" deve ser o lema do moço. E escutem as canções que desejam ouvir de um jeito perto do irreconhecível. Não estou aqui para repetir tempos, refrões e olhar a platéia com seus indefectíveis celulares abertos enquanto canto "A hard rain is gonna fall", num arremedo de Woodstock revolucionário esperançoso e extemporâneo. Na verdade, vocês vão demorar um pouquinho a perceber que é a música que desejam a executada.

Algumas histórias, então, foram contadas sobre a passagem de Dylan.

Uma delas é a recusa do cantor em receber um senador da República. Um senador que costuma cantar "Blowin' in the wind" quando as sessões no plenário do Congresso estão chatas. Não devem ser verdadeiras as informações sobre o aumento do índice de idéias suicidas entre Suas Excelências, durante e após a cantoria do senador. Segundo fontes não tão fidedignas, o senador queria entregar a Dylan o principal projeto de sua autoria, "Renda Mínima" (certamente, em edição trilíngue: português, inglês e tailandês), e recebeu um "não" como resposta. De quebra, não cantou na noite de quarta-feira, 05/03, a supracitada canção. Segundo as fontes, por uma singela razão: o senador queria ouvi-la (no show subseqüente, quinta-feira, tocou-a no bis. E tocou-a daquele jeito: em outro ritmo, refrão que lembrava o original tão somente pela poesia permanecer a mesma).

Outra é referente a um casal que ficou decepcionado com o show. Eles haviam gastado aquele dinheirão todo para ver o Dylan que ouviam quando jovens e não um show de rock. O casal descrevia um Dylan que nunca existiu. Um Dylan rural, bucólico, amoroso, gentil, simpático e politicamente correto. Exatamente o que ele nunca foi. Até dizer que nasceu de pais errados o moço já disse. Recusar assumir qualquer definição, qualquer rótulo que lhe pusesse, ele recusou. Dylan desencantou a esquerda, desencantou a direita, desencantou Joan Baez, desencantou os puristas do country justamente por incluir a guitarra, símbolo do rock, em festival folk. Um artista que se impôs pela força de sua arte e não por seguir os ditames administrativos ao estilo Você S/A. Apenas a Woody Guthrie devotou atenção e respeito. Essas palavras valem para uma moça que ficou berrando "diz boa noite!!!!!" durante o show todo. Infelizmente, ao lado do meu ouvido!

Outra é o depoimento do , baixista do Forgotten Boys, que, fã assumido, assistiu às duas apresentações. Uma delas da zona VIP, bem próximo ao cantor. O músico disse: "Dylan sorria o tempo todo. Trocava palavras com Tony Garnier (baixo e baixo acústico) e demonstrava prazer em apresentar-se. Um homem tímido", disse Zé. Bem como quando uma rápida moça (à saída do show, ela não se escondeu) subiu ao palco e tomou Dylan pelo pescoço e beijou-o. Dylan comentou: "quem é essa moça? Vou dar meu chapéu a ela". Capaz de apaixonar-se o moço é.

De resto, a banda formada por Tony Garnier, Stu Kimball (guitarra), Danny Freeman (guitarra), Donnie Harron (teclado, violino, viola, bandolim e banjo) e o fantástico baterista, George Receli, são muito bons. Deixaram músicas na memória: "Thunder of mountain" e "Highway 61" especialmente.

Restou um melancólico "quero mais". Quem viverá?

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